Assassinato de Ângela Diniz por Doca Street levantou discussão sobre o machismo na sociedade brasileira

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(O Globo/Blog do Moreno, 22/10/2015) — Você não presta, pode ir embora. Você não presta, Doca!

— Eu te amo, eu te amo.

— Você não presta!

— Eu te amo!

Foi esse o diálogo que a caseira Clébia Carvalho contou ter ouvido segundos antes de Doca Street descarregar, às vésperas do réveillon, no dia 30 de dezembro de 1976, sua pistola na direção de Ângela Diniz, a milionária mineira por quem ele largara a mulher, de família quatrocentona, três meses antes. Após se entregar, quase 20 dias depois de ter fugido da cena do crime, uma casa na Praia dos Ossos, em Búzios, Doca deu uma versão diferente para o ataque. Antes de acertar quatro tiros em Ângela, desfigurando um dos rostos mais bonitos do Brasil, alegou ter escutado uma frase que fez seu sangue ferver e que atingiu em cheio sua honra:

— Se quiser me dividir com homens e mulheres… pode ficar, seu corno!

Verdadeira ou não, a frase caiu como uma luva para os advogados de defesa de Doca e abriu uma profunda discussão na machista sociedade brasileira dos anos 70: que homem não perderia a cabeça numa situação semelhante? No Brasil ainda sob a ditadura do presidente Ernesto Geisel, poucas vozes se levantaram quando a vida da mineira bonita e festeira, que muito antes do culto às celebridades já era famosa no eixo Rio-São Paulo-Minas e habituée de colunas sociais, foi revirada pelo avesso. Os advogados de Doca, como era conhecido desde pequeno Raul Fernando Street, exploraram ao máximo um “defeito” de Ângela: aos 32 anos, ela prezava muito a própria liberdade. Não gostava de ser mandada e muito menos de viver como os outros achavam que ela deveria.

Numa época em que desquites eram malvistos, Ângela não hesitou em pedir o dela. Separou-se do primeiro marido e, como castigo, o ex, um engenheiro, fez com que ela perdesse a guarda dos três filhos, que ficaram em Belo Horizonte. Mesmo abatida, Ângela, que mantinha um apartamento em Copacabana, deu um jeito: visitava as crianças todos os fins de semana e chegou a botar as garras de fora. Desafiou a Justiça e sequestrou a filha para passarem juntas um fim de ano no Rio. Foi condenada a seis meses de prisão e pagou fiança para ficar livre, um ano antes de ser morta.

Foi essa Ângela guerreira, carinhosa e maternal que seus amigos exibiram na imprensa. Não faltaram palavras cruéis contra Doca, que foi apontado como um bon vivant, um homem que, aos 45 anos, viveria às custas de mulheres, inclusive Adelita Scarpa, que ele abandonou em São Paulo, com um filho de 3 anos, enquanto Ângela esperava do lado de fora da mansão do casal, no Morumbi. Para piorar o cenário, diziam que Doca, que nunca se separava de sua pistola, era extremamente ciumento e violento. Francisco Matarazzo, amigo de Ângela, disse que a pantera passou a viver enjaulada após juntar-se a Doca, “sob pressão permanente”.

Matarazzo contou à época do crime que Doca “não deixava Ângela usar um vestido, uma blusa, queria mandar em tudo. Até com algumas amigas ele tentava impedir que ela conversasse”. A empregada de Ângela, Maria José de Oliveira, também botou mais lenha na fogueira que ardia contra o assassino: disse à polícia que o vira espancar a patroa mais de uma vez. E exibiu aos jornais uma porta de quarto arrombada — Ângela havia se trancado para escapar da violência, mas ele fora atrás.

Acossado, Doca, que nunca negou o crime, permitiu que Ângela fosse pintada como culpada pela própria desgraça. Num Brasil que ainda se espantava com a liberdade sexual, contou que a mulher, na manhã de sua morte, teria se encantado por uma alemã na praia, convidando-a para uma festinha a três. Mortificado com o convite para o sexo grupal, feito na frente de amigos do casal, Doca teria começado uma briga. Irritada, Ângela mandou o companheiro embora. Doca pegou as malas e andou alguns metros de carro, mas voltou. Pediu perdão, se ajoelhou. Durante a nova discussão, Ângela jogou a pasta dele no chão. A pistola caiu. Quando percebeu, Doca já atirava.

A alemã, suposto pivô da briga que terminou em tragédia, depôs na polícia duas vezes. Na primeira, não mencionou a “cantada”. Na segunda, contou ter sido acariciada. Testemunhas, no entanto, contaram que o desentendimento entre Doca e Ângela foi por um motivo banal — ele não sabia manusear uma Polaroid e ela se irritou. Mas estava montado o cenário para o primeiro julgamento, em 1979. Entre os advogados do réu, estava Evandro Lins e Silva, um dos melhores do Brasil.

“Esse assunto me entristece”

Após a defesa de Doca soltar frases como “houve participação da vítima na eclosão do crime” e “às vezes, a reação violenta é a única saída”, Doca foi condenado a dois anos de reclusão, com direito a sursis. Os jurados entenderam, por quatro a três, que ele agiu “em legítima defesa da honra”. Aplaudido por uma multidão, saiu livre. Tinha defendido a moral e os bons costumes da classe média. O promotor recorreu e, no ano seguinte, a decisão foi anulada.

Um novo júri foi formado em Cabo Frio em 1981. Já era o Brasil da Abertura, um pouco diferente daquele do crime na Praia dos Ossos. Grupos feministas criaram o bordão “Quem ama não mata” e foram para a porta do tribunal pedir a extinção do típico machão, personificado por Doca. Deu certo. O criminoso foi condenado a 15 anos de prisão. A memória de Ângela, porém, foi mais uma vez atacada sem dó. A campanha foi tão forte que até o poeta Carlos Drummond de Andrade se intrometeu: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”, lamentou em uma crônica.

Doca ficou três anos e meio dentro de uma cela. Depois, conquistou o regime semiaberto, até que, em 1987, ganhou liberdade condicional. Solto, lançou um livro contando sua versão. “Mea Culpa” tem 470 páginas, mas, hoje, Doca, que vive aposentado em São Paulo, casado com uma amiga de infância, é econômico nas palavras. Às vésperas dos 80 anos, está ativo nas redes sociais, mas prefere não falar de Ângela. “Esse assunto me entristece”.

Maria Elisa Alves

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