Discriminação e destino incerto para ex-escravas sexuais do Boko Haram

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(O Globo, 05/04/2016) Vida após libertação ainda sofre com percalços em sociedade restrita

Por meses, elas foram mantidas em pequenas cabanas de palha na floresta, esperando todas as noites os estupradores retornarem. Durante a violência quase intolerável que sofriam, só pensavam em escapar ou morrer. As vítimas mais jovens tinham 8 anos. No autoproclamado califado do Boko Haram no Nordeste da Nigéria, houve uma rotina selvagem de estupro e escravidão sexual que só recentemente foi descoberta. Milhares de meninas e mulheres, contra sua vontade, foram sujeitadas a casamentos forçados e doutrinação implacável. Aquelas que resistiam geralmente eram mortas a tiros.

Leia mais: TPI reconhece e condena o estupro como crime de guerra, por Vanessa Oliveira de Queiroz (ConJur, 04/04/2016)

Agora, muitas destas mulheres estão subitamente livres, resgatadas em uma série de operações militares nigerianas, no ano passado, que expulsou o grupo islâmico extremista da maior parte do território que controlava. Mas isso não se transformou em alegria para as vítimas. A maioria das que sobreviveram já não tem casas. Cidades inteiras foram incendiadas pelos jihadistas. Os militares, sem alarde, colocaram as mulheres em campos para quem está desalojado ou em edifícios abandonados, onde são vigiadas por homens armados, que desconfiam delas, rotuladas como “esposas do Boko Haram”.

Poucos poderiam ter imaginado esta situação dois anos atrás, quando 276 estudantes foram sequestradas pelo Boko Haram e o mundo respondeu com a campanha “Bring Back Our Girls” (Tragam Nossas Meninas de Volta). Enquanto a maioria das estudantes de Chibok ainda está desaparecida, muitos pensaram que as outras mulheres sequestradas seriam muito bem-vindas de volta quando libertadas. Em vez disso, são evitadas.

Durante sete meses, Hamsatu, hoje com 25 anos, e Halima, com 15, foram escravas sexuais do Boko Haram, estupradas quase todos os dias pela mesma unidade de combatentes na remota floresta de Sambisa. Agora, elas vivem numa pequena tenda, num campo para deslocados, com sacos de cimento vazios costurados formando uma improvisada cortina. Elas falaram sob a condição de que os nomes completos não fossem divulgados para que pudessem descrever livremente o que ocorreu.

Quando Halima sai da tenda para pegar comida para as duas, as outras pessoas que vivem no campo fecham a cara ou se afastam.

— Você é uma das que casaram com o Boko Haram! — berrou certa vez uma mulher mais velha, que depois cuspiu em Halima, segundo conta a jovem, recordando ainda as palavras de um dos guardas, recentemente: — “Não podemos confiar em nenhuma delas”.

As autoridades dizem ter boas razões para a desconfiança. No ano passado, 39 dos 89 atentados suicidas do Boko Haram foram realizados por mulheres, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef): 21 delas tinham menos de 18 anos, muitas, aparentemente, meninas sequestradas e convertidas em assassinas. Desde janeiro, mulheres-bomba já mataram centenas de pessoas em todo o Nordeste da Nigéria, em mesquitas, mercados e até mesmo em campos de deslocados.

‘DISCRIMINAÇÃO MINA RESPOSTA HUMANITÁRIA’

Ninguém sabe exatamente por que mulheres capturadas e estupradas tornaram-se assassinas. Talvez pela doutrinação. Talvez pelas ameaças dos jihadistas. De qualquer forma, o trabalho de reintegração das desalojadas tornou-se muito mais complicado para as autoridades nigerianas. E, para as sobreviventes que tentam superar um capítulo terrível de suas vidas, existe agora uma nova agonia.

— Não há confiança aqui — conta Hamsatu, agachada em sua tenda, usando o mesmo vestido rosa, florido, que vestia quando foi sequestrada há 18 meses: em seus braços, o bebê fruto dos estupros por seu captor.

“Mulheres Sambisa” são como Hamsatu e Halima passaram a ser chamadas ao chegarem ao acampamento para desalojados de Dalori, na periferia da cidade de Maiduguri, em abril do ano passado. Era o nome da floresta onde foram escravizadas. As mulheres casadas à força com extremistas foram mantidas separadas de outras pessoas deslocadas pela guerra.

— Achamos que fizeram lavagem cerebral nestas crianças — diz o major-general Lucky Irabor, mais alta patente do Exército no Nordeste nigeriano. — Elas tornaram-se ferramentas úteis ao Boko Haram.

Alvos. Estudantes na saída da Escola de Formação de Professoras em Maiduguri: milhares de alunas foram sequestradas (Foto: Jane Hahn/The Washington Post)

Ao contrário da maioria dos campos de refugiados ou de deslocados no mundo, que são geridos pela ONU e por grupos internacionais de ajuda, os campos onde as vítimas do Boko Haram vivem são administrados pelo Exército. Do lado de fora de Dalori, um capitão monta guarda no portão da frente. Os visitantes são revistados. Um cartaz com fotos de suspeitos do Boko Haram está pendurado na parede que delimita o acampamento. Trabalhadores humanitários precisam de permissão militar para entrar nos campos.

— Submeter as vítimas à discriminação e maus-tratos devido à condição de vítimas da violência do Boko Haram é a certeza de minar toda a resposta humanitária à situação no Nordeste do país — conclui Martin Ejidike, assessor de direitos humanos da ONU na Nigéria.

Kevin Sieff, do ‘Washington Post’

Acesse o PDF: Discriminação e destino incerto para ex-escravas sexuais do Boko Haram (O Globo, 05/04/2016)

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