- Crime também cresceu na capital paulista, com 60 ocorrências; secretaria diz adotar medidas de prevenção e resposta rápida às vítimas
- Além de uma maior incidência, alta pode refletir melhor capacidade de registro pela polícia
O estado de São Paulo registrou aumento de 8,1% nos registros de feminicídio em 2025, atingindo o maior número da série histórica para esse tipo de crime iniciada em 2018. Foram 266 casos de mulheres assassinadas em razão do gênero, contra 246 em 2024, segundo dados da SSP (Secretaria da Segurança Pública).
A reportagem teve acesso aos dados do mês de dezembro nesta quinta-feira (29). Eles completaram as estatísticas referentes ao ano passado. No último mês do ano, o estado registrou 36 casos, 12 a mais do que no mesmo mês de 2024.
A cidade de São Paulo também observou alta nesse tipo de crime. Ao longo de 2025, foram 60 casos, alta de 22,4% em relação aos 49 de 2024. Em dezembro passado, houve quatro registros, um a mais do que no mesmo mês do ano anterior.
A SSP diz que o enfrentamento à violência contra a mulher é “prioridade do Governo de São Paulo, que estruturou uma política integrada e permanente para prevenção, proteção e resposta rápida às vítimas”.
A pasta citou ainda ações como o protocolo Não se Cale, o app Mulher Segura, a Cabine Lilás, as Casas da Mulher Paulista, o tornozelamento eletrônico de agressores e o auxílio-aluguel para mulheres vítimas de violência.
Embora o crime tenha sido tipificado em 2015, por meio da lei federal 13.104, os registros só passaram a ser divulgados de forma unificada pela SSP em 2018. Desde 2023, o estado tem visto mais de 200 casos por ano, em uma tendência crescente.
Um caso representa um boletim de ocorrência lavrado pela delegacia com a rubrica do crime de feminicídio. O número de vítimas, no entanto, pode ser maior, uma vez que mais de uma mulher pode ter sido assassinada na mesma ocasião.
Entre os casos de violência que chamaram atenção no ano passado está o de Tainara Souza Santos, 31, atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro em 29 de novembro. Ela morreu em 24 de dezembro, no Hospital das Clínicas, após quase um mês internada.
Douglas Alves da Silva foi preso sob suspeita de ser o autor do crime.
Outro episódio de violência contra a mulher registrado no período foi a tentativa de assassinato de Evelin de Souza Saraiva, 38, atacada a tiros dentro de uma pastelaria na zona norte de São Paulo.
Segundo a polícia, o ex-companheiro utilizou duas armas de fogo, motivado por ciúmes do novo relacionamento da vítima, e já havia feito ameaças anteriores. Ele terminou preso nesta semana após ser localizado na mesma região do crime.
Houve ainda o caso da arquiteta Fernanda Silveira Andrade, 29, assassinada em outubro do ano passado. Segundo a polícia, o autor do crime era ex-namorado da vítima, que já teria agredido Fernanda anteriormente. A família relatou à PM que ela vinha sofrendo ameaças.
Fernanda estava desaparecida desde o início de outubro, após retornar de uma viagem ao Guarujá, no litoral paulista. O corpo foi encontrado em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo, no sábado (24), após o suspeito indicar à polícia o local onde havia enterrado a vítima.
Registros mais precisos e violência persistente explicam alta
Especialistas ressaltam que a alta de feminícidios pode representar, além de uma maior incidência do crime, uma melhor capacidade de registro pelas autoridades policiais em enquadrar homicídios de mulheres nas previsões estabelecidas pela lei do feminicídio. Mortes cometidas no âmbito de violência doméstica ou familiar ou por menosprezo ou discriminação à condição de mulher se encaixam nessas previsões.
A advogada e ativista Marina Ganzarolli, cofundadora da deFEMde – Rede Feminista de Juristas e presidente do Me Too Brasil, lembra que, antes da tipificação do feminicídio, assassinatos de mulheres raramente tinham a motivação de gênero considerada nos tribunais. “A violência doméstica chegava ao desfecho fatal e era tratada como homicídio comum. A lei foi criada para nomear esse crime”, afirma.
A legislação, acrescenta, não se limita a relações afetivas ou familiares. Abrange qualquer morte motivada por misoginia, ainda que não exista vínculo entre agressor e vítima. “Se a mulher é assassinada por ser mulher, há feminicídio, independentemente da relação entre as partes”, diz.
Na avaliação de Malu Pinheiro, pesquisadora do Instituto Sou da Paz, o cenário atual resulta da combinação entre registros mais qualificados e agravamento real da violência contra mulheres. Relatos de agentes que atuam na ponta indicam não apenas maior frequência dos casos, mas também aumento da brutalidade.
A pesquisadora aponta que os ataques têm apresentado sinais claros de violência simbólica, com agressões direcionadas à expressão de gênero das vítimas. “Há um padrão de crueldade que se intensificou nos últimos anos”.
Para ela, o contexto também reflete uma reação social aos avanços nas políticas de proteção às mulheres. Discursos misóginos ganharam força, sobretudo em ambientes digitais, criando um ambiente mais hostil e permissivo à violência.
Mesmo sem dados capazes de separar com precisão o que é aumento real e o que é melhoria nos registros, a pesquisadora defende que os números impõem uma resposta imediata do poder público. “O foco precisa estar na prevenção, na educação e na interrupção do ciclo da violência antes que ele chegue ao desfecho letal”, diz.
SP tem quase 40 casos de estupro por dia em 2025
No acumulado de janeiro a dezembro, os estupros passaram de 14.579 em 2024 para 14.443 ocorrências em 2025, retração de 0,9%. Ainda assim, o dado mostra o registro de quase 40 casos de estupro por dia nas cidades paulistas.
Em dezembro, os estupros tiveram variação discreta, com queda de 0,7%, passando de 1.096 para 1.088 registros.
Na capital paulista, os números seguem a mesma tendência. No ano, os estupros recuaram 2,5%, de 3.012 para 2.934 casos. Já em dezembro, a tendência foi de alta: esses crimes aumentaram 5,3%, passando de 225 para 237 ocorrências.
A SSP disse que em três anos, “o estado ampliou em 54% os espaços especializados de atendimento, somando 142 Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) e 170 Salas DDM 24h, que funcionam dentro de plantões policiais e permitem registro de ocorrência e solicitação de medidas protetivas, em ambiente reservado e humanizado”.
A gestão estadual informou ter havido um aumento de 21% nas medidas protetivas e de 11% nos boletins de ocorrência nas DDMs em 2025, “indicadores que refletem maior confiança das vítimas em denunciar e acessar a rede de proteção”.