Folha de S.Paulo: A sociedade tolera agressão sexual às mulheres? Por Renato Janine Ribeiro

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(Folha de S.Paulo, 06/04/2014) O ovo da serpente

A sociedade brasileira é pouco politizada. Tem razão a “Economist” quando nos dá uma nota boa em democracia, só que maior no que diz respeito às instituições do que à cultura política.

Ao menos desde o período Juscelino Kubitschek, nos saímos melhor nos costumes do que na política. Não sei como foi antes do presidente bossa-nova. A ditadura militar teve de tolerar, de bom ou mau grado, uma juventude que rompia com as convenções nas artes, no relacionamento amoroso e de modo geral nos costumes (aquilo que a mídia hoje chama de “comportamento”). Enquanto o Estado, sequestrado pelos golpistas, reprimia e matava, a sociedade florescia. Esse avanço beneficiou o que era alternativo, tendo inclusive, nos anos 70 e 80, forte apoio desta Folha.

Leia também: Reação consciente (Folha de S.Paulo, 06/04/2014)

Assim, melhorou a condição feminina. Quem dos mais novos imagina que na década de 1980 existia um “movimento machista mineiro” que defendia o direito do “macho” a matar a mulher, ante a mera suspeita de que ela o traísse? Quem lembra que foi preciso pichar paredes com o slogan “Quem ama não mata” para não só penalizar o assassinato que era denominado “legítima defesa da honra”, como também e sobretudo para educar os homens a respeitar as mulheres? Em tudo isso, avançamos.

No entanto, nos últimos anos, com a tolerância e por vezes até algum estranho prazer de secções da mídia, e o decidido engajamento de umas confissões religiosas, tem havido uma reação a essas conquistas –que não são apenas das mulheres. Porque toda repressão às chamadas minorias é na verdade uma forma do repressor recalcar, nele mesmo, as condutas mais livres, liberais ou libertárias que ele inveja no grupo minoritário.

Uma questão relevante, o direito ao aborto, foi praticamente excluída do horizonte do viável, devido a uma manipulação propagandística nas últimas eleições presidenciais. Pior, cresce a ideia de que certas mulheres são culpadas por excitarem homens sexualmente, o que justificaria, pelo menos em parte, as agressões de que são vítimas.

No Brasil, muitos acreditam que pode ser atacada uma mulher que se veste de modo provocante, segundo pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Na Arábia Saudita, país que crucifica e degola seus presos, a culpa é das mulheres que se maquiam: 86,5% dos homens acham isso (sério, veja em tinyurl.com/mjdwfql).

Deixando claro: há mulheres, sim, que têm prazer em excitar um desejo sexual e, depois, têm novo prazer em não o satisfazer. Essa não é uma conduta elogiável –mas não autoriza ninguém a estuprá-las ou sequer assediá-las. Podemos discutir o que leva uma mulher a ser “allumeuse”, aquela que acende o desejo só pelo gosto de acender. Faz parte do debate sobre a dificuldade atual com os laços humanos. Mas entender o narcisismo não é justificar a agressão. Se um homem se sente provocado, que se controle.

Na verdade, o sinal de um recuo nos costumes não está ainda sendo dado no campo das mulheres, mas no trato com os homossexuais. Só que políticos que pregam contra os gays também condenam mulheres independentes. Crimes de ódio contra os homossexuais crescem. Contam com a simpatia, às vezes travestida de compreensão, de colunistas.

É aí que está sendo chocado o ovo da serpente. Ou difundimos uma educação democrática, que respeite os modos de ser diferentes, ou vamos perder as conquistas, em termos de liberdade pessoal, das últimas décadas. As agendas de direitos humanos estão sendo sacrificadas a acordos políticos. Não podemos aceitar o retrocesso que paira no ar. O momento é decisivo.

* RENATO JANINE RIBEIRO, 64, é professor titular de ética e filosofia política do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo. É autor de “República”, entre outras obras

Acesse o PDF: O ovo da serpente (Folha de S.Paulo, 05/04/2014)

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