Gabriela Manssur: ‘Quando sente no bolso, o homem pensa duas vezes antes de agredir’

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Gabriela Manssur é Promotora de Justiça no Ministério Público do Estado de São Paulo. Mas não espere vê-la trancada em seu gabinete. Especialista em casos de violência contra a mulher, ela vive em programas de TV, debates, palestras em escolas e nas corridas de rua que organiza. Também está à frente de um projeto de ressocialização de homens agressores — que, baixou a reincidência de 65% para 2% e virou lei no Estado de São Paulo — e de um programa de inserção de vítimas de violência no mercado de trabalho. “Só a independência financeira garante autonomia emocional à mulher”, diz a promotora de 44 anos. São convicções como essa que a ajudaram, em casa, a detectar que a filha vivia um relacionamento abusivo e, no gabinete, a aumentar o número de processos de 60 para 6 mil. Questionada se o MP tem capacidade de dar conta do volume, Gabriela não titubeia: “Eu tenho.”

(O Globo, 06/08/2018 – acesse no site de origem)

Como acabar com a violência de gênero?

A mulher precisa ter autonomia financeira e emocional, não pode deixar sua felicidade nas mãos do outro. O relacionamento abusivo precede a violência e pode levar ao feminicídio.

Como identificar se um relacionamento é abusivo?

É normal abrir mão de certas coisas por uma relação, mas se alguém tolhe sua autonomia, afeta sua autoestima ou viola seus direitos, a relação é abusiva. Minha filha (Camila, de 19 anos) entrou nessa e não percebeu. Eu não consegui evitar, mas fui dando dicas: ele a isolava dos amigos e a diminuiu até que começou a se transformar para agradá-lo.

Já viveu algo semelhante?

Não. Mas percebo coisas em casa. Meu marido é ótimo, mas fica louco se tenho o controle total da situação. Poucos homens não ficam.

A Lei Maria da Penha completa 12 anos amanhã. O que temos a comemorar e a lamentar com a data?

A lei é moderna demais para a nossa Justiça. Prevê delegacias da mulher 24 horas, o que não existe em todo o pais. Prevê também que toda vítima tenha um advogado, e isso não acontece. É um marco legislativo importante pois abrange não só violência física, mas psicológica, moral e patrimonial. Porém, é restrita à violência doméstica. O assédio que acontece na rua, no metrô ou no trabalho vai para vara criminal comum, não para minha promotoria que tem equipe especializada.

Na última quarta, a França aprovou uma lei que prevê multa de até 750 euros para quem cantar mulheres na rua. Isso funciona?

Toda medida que pune a violência contra mulher é bem-vinda. Tira a naturalização de comportamentos machistas e cria respostas proporcionais à gravidade dos fatos. Cantada não é elogio. Quando o homem sente no bolso, pensa duas vezes.

Por que as mulheres ainda se queixam de desqualificação da denúncia nas delegacias?

A sociedade, infelizmente, se identifica mais com o “pai de família” do que com a mulher “ousada”. Por isso, antes de novas leis, precisamos da maturidade de quem trabalha no sistema judiciário. Se a mulher está dizendo que é vítima de violência, por que não protegê-la? Vamos esperar que ela morra?

O discurso do “pai de família” foi usado pelos agressores no caso da boceta rosa como uma forma de desculpa…

Esse é o perfil do agressor! O machista, que muitas vezes é casado, tem filhas e não respeita direitos da mulher.

Que comportamentos machistas veremos às vésperas das eleições?

Veremos mulheres sendo desqualificadas só por serem mulheres. Viu o que fizeram com a Manuela D’Ávila? (no programa Roda Viva). Um absurdo. Ela foi constantemente interrompida, o que acontece sempre conosco. Já estive em reuniões em que o cara nem olhava a minha cara, só no relógio. Saí fora. São tentativas de calar as mulheres, impedir que elas se unam. A gente nunca pode se calar.

Já se sentiu intimidada por trabalhar em um ambiente mais masculino?

Já me vi de decote e fiquei preocupada. Mas pensei: sou mulher antes de ser promotora. Gosto de moda (no dia da entrevista, ela estava de macacão, cinto e bolsa da Louis Vuitton) pratico esportes, faço luzes desde os 15 anos e pus silicone. Feminismo é sobre a liberdade de ser quem a gente quiser.

As redes sociais escancararam o machismo?

Sim. Mas criaram ativismo virtual. As redes são um novo canal de denúncia. Há uma nova união entre mulheres que é muito legal. Veja o caso da Marielle Franco. As mulheres uniram o país para pedir justiça. Sem internet, não seria possível.

Nossa ideia de masculinidade precisa ser revista?

Temos que mudar conceitos como o do homem provedor, que precisa ser mimado pela mulher, o cara que come todas. Não podemos culpar as mulheres pelo machismo, mas elas também precisam se rever. Já ouvi coisas como “Doutora, meu marido mudou, mas eu gostava daquele macho, não sei lidar com o novo homem.” Pode uma coisa dessas?

Catherine Millet, uma das francesas que critica o movimento #metoo, afirmou que “a mulher forte se defende sozinha”. Concorda ?

Claro que não. Sou uma mulher forte e não me defendo sozinha em várias situações. Esse discurso nos desqualifica. É como dizer que mulher sofreu violência porque não se impôs. Quem conseguiu superar muita coisa sozinha, exige o mesmo de outras mulheres. Mas ninguém é igual.

O feminismo está na moda?

Ser feminista virou cool. E isso é bom porque atinge novas gerações. Constrói-se cedo a ideia da autonomia da mulher. E você pode ser feminista sem ser ativista. Nem todo mundo levanta cartaz como eu faço, e tudo bem. Agora, quando as mulheres se identificam como parceiras de luta, quando se unem genuinamente, aí temos uma revolução.

Renata Izaal

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