Geisy Arruda, dez anos depois: O que aprendemos com o linchamento público da estudante universitária

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Feministas comentam os impactos do episódio que dominou as redes sociais e o noticiário nacional em 2009

(O Globo, 11/10/2019 – acesse no site de origem)

Quinta-feira era dia de “balada” depois da faculdade. Por isso, na tarde daquele 22 de outubro de 2009, a então estudante de Turismo Geisy Arruda, na época com 20 anos, abriu o guarda-roupa em sua casa, numa comunidade em Diadema, interior de São Paulo, e escolheu o vestido predileto: um modelo de malha rosa, comprado por R$ 50 numa liquidação. Era a segunda vez que ela o usava, e a primeira em que ia à faculdade com ele. O que aconteceu, depois disso, mudou a vida de Geisy e escancarou a urgência do debate sobre o assédio contra mulheres no Brasil.

Há dez anos, a internet de grande parte dos brasileiros ainda era discada, as câmeras do celular tinham alguns poucos megapixels e o extinto Orkut era bem mais popular do que o Facebook — o Instagram seria lançado um ano depois. Apesar das limitações, já estavam estabelecidos ali os ingredientes necessários para um viral. Foi nesse contexto que as imagens da estudante deixando a Universidade Bandeirante Anhanguera (Uniban), em São Bernardo do Campo, escoltada por policiais e sob gritos de “puta” dominaram as redes sociais e o noticiário no Brasil, cinco dias após o ocorrido.

“Logo que cheguei à faculdade, ouvi alguns homens assobiando, mas achei que estavam me paquerando. Quando subi a rampa para a sala de aula, no terceiro andar, comecei a pensar que estava um pouco exagerado. Mas foi na hora do intervalo que começou o tumulto generalizado, e a galera resolveu infernizar a minha vida”, recorda-se Geisy. “Fiquei trancada na sala, por cerca de duas horas, com a minha turma. Tivemos que colocar carteiras diante da porta, porque estavam tentando arrombá-la. Como tinha vidros na parte de cima, as pessoas se penduravam para olhar, até que alguns colegas tiveram a ideia de arrancar folhas dos cadernos para tampá-los. O professor ligou para a polícia, e saí escoltada, coberta com o jaleco dele.”

A presença policial, entretanto, não inibiu a multidão de alunos, que seguiu com a hostilização até que ela deixasse o local. As imagens até hoje impressionam. “O caso teve muita repercussão, inclusive em jornais internacionais, por alguns motivos. O primeiro deles é o fato de ter sido um acontecimento quase pré-civilizatório, no sentido de que ela foi violentada em função da roupa que usava num espaço que deveria ser acolhedor e racional”, comenta Luciana Brito, pesquisadora do Anis: Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. “Mais do que isso, ela foi expulsa da instituição, sob a alegação de que o vestido não era adequado para aquele ambiente. É como se as mulheres não fossem autorizadas a se vestir de maneira que se sintam bem e bonitas.”

O vestido usado pela estudante em 2009 Foto: Fabio Braga

O vestido usado pela estudante em 2009 Foto: Fabio Braga

A professora Patricia Rosalba, coordenadora do XiqueXique: Grupo de Pesquisa Sobre Gênero e Sexualidades da Universidade Federal de Sergipe, acrescenta que o episódio também revelou como uma parte da população brasileira sempre alimentou narrativas violentas contra as mulheres. “Eram mensagens explícitas de como somos um povo pouco tolerante com tudo que se aproxima do feminino.”

Geisy, que num primeiro momento chegou a se questionar se tinha alguma culpa sobre a situação, diz que ainda não consegue entender muito bem o que motivou tamanha comoção. “Mas também parei de tentar justificar. A atitude deles é que foi errada, me agrediram, me humilharam, me fragilizaram”, diz ela, que foi indenizada em R$ 40 mil pela instituição, após um longo processo judicial.

No dia da agressão, Geisy não fez boletim de ocorrência e pediu à viatura que a deixasse a alguns metros de casa, porque não queria que sua mãe a visse chegar com os policiais. Seu objetivo, até então, era tentar esquecer o que havia acontecido. Mas isso não foi possível devido à proporção que o fato ganhou e à presença ostensiva de equipes de reportagem diante da sua casa. “Nas primeiras entrevistas, pedi para não mostrarem o meu rosto e a minha voz. Foi assim até que a TV Record me ofereceu um advogado. Aceitei porque, na época, ganhava R$ 400 por mês, cortando frango e fatiando mortadela na parte de frios de um mercadinho da minha rua. Jamais poderia arcar com os custos para mover um processo”, recorda-se.

O caso também repercutiu pela ação de grupos de mulheres e estudantes, que saíram em defesa da jovem por todo o Brasil. “As feministas me ajudaram muito. Lembro-me de ver, no jornal, a foto de um protesto em frente à faculdade e chorar compulsivamente por uns dez minutos. Foi quando pensei: ‘aquela menina que foi xingada por três mil pessoas não está sozinha’”, conta Geisy, emocionada.

A advogada e mestre em sociologia jurídica Marina Ganzarolli, co-fundadora da Rede Feminista de Juristas, considera o episódio um marco: “Foi importante porque levou para a esfera pública o debate sobre o assédio sexual verbal, até então restrito ao movimento feminista e aos departamentos de estudo de gênero das universidades. Há dez anos, esse assunto já era muito debatido nos Estados Unidos e na Europa, mas não no Brasil”.

Marina acrescenta que as imagens da hostilização sofrida pela jovem também fizeram com que mais mulheres entendessem a necessidade do feminismo e da luta pelos seus direitos. “Ver os vídeos hoje em dia é chocante, mas aquele tipo de violência ainda acontece. Que mulher brasileira, de qualquer idade, nunca saiu no calor, usando um short curto, sem sofrer um constrangimento verbal na rua?”, questiona a advogada.

Geisy reconhece que houve uma mudança de cenário desde 2009, mas não consegue afirmar se o que aconteceu com ela é impossível de se repetir nos dias de hoje. “A visão das mulheres como seres inferiores ainda existe, só é um pouco mais camuflada. Os homens mexem com uma mulher por estar vestindo uma roupa mais justa. Temos que nos defender para não sermos estupradas ou mortas”, pondera.

Depois de alguns meses de repercussão em programas policiais, a estudante se viu catapultada à fama, ao ser convidada a participar também de programas de entretenimento. Participou de reality show, posou nua duas vezes, publicou livro com a sua história e fez curso de teatro. Por essa trajetória, foi chamada de oportunista algumas vezes. “Quem fala isso são os mesmos que dizem que a culpa do ocorrido na faculdade é minha e que, se eu não tivesse usado aquele vestido, nada teria acontecido”, diz. “A questão do ser humano é essa: a pessoa está na merda e não pode se levantar?”

Com o dinheiro que ganhou, ela comprou uma casa para os pais, mudou-se para Santo André e fez cirurgias plásticas. “Vi que poderia conseguir alguma coisa nesse mundo do entretenimento e, conforme apareciam as oportunidades, decidi aproveitar tudo. A fama que me deram é o que me sustenta até hoje”, comenta. Como 1,4 milhão de seguidores no Instagram e um canal no YouTube, chamado de Ponto G, com 38 mil inscritos, ela vive de campanhas publicitárias, assina linha de roupas e calçados e se prepara para lançar um livro de contos eróticos. “Sou dura na queda mesmo. Certa vez, disse que sou a Cinderela da classe C. Só que meu baile não teve príncipe, porque desço e subo a minha torre sem precisar de homem”, compara.

O fato de “ter feito do limão uma limonada”, ela diz, comove muita gente e é parte do motivo pelo qual sua fama se mantém até hoje. Muitas pessoas, inclusive, a perguntam se o vestido rosa está guardado em algum lugar especial e até sugerem que seja colocado em um quadro. “Sempre respondo que a roupa é só um pedaço de pano. A agressão toda quem sofreu fui eu, a mulher, o ser humano. Não o vejo como um talismã. Só não jogo fora porque faz parte da minha história e tenho que respeitar isso.”

Por Eduardo Vanini

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