Geni joga pedra na Maria da Penha, por Barbara Gancia

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(Folha de S.Paulo, 04/04/2014) A pesquisa do Ipea que tanto ba­fafá causou desde que surgiu na semana passada não des­pertou nesta humilde datilógrafa uma insatisfação extra.

Para falar a verdade, ao tomar co­nhecimento de que 65,1% dos en­trevistados (entre homens e mu­lheres) concordam que mulheres com roupas provocantes “mere­cem ser atacadas”, não dei a menor bola.

Sabe por quê? Porque o que o es­tudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada nos contou não é novidade. Não há nada ali que eu já não soubesse, intuísse, ou ti­vesse sentido na carne.

Não será surpresa para uma nova­-iorquina constatar que 63% das mulheres que usam regularmente o metrô de Manhattan já sofreram alguma forma de abuso. E olha que isso é lá no hemisfério Norte. Basta estar viva para conhecer a realida­de. Qual a mulher no mundo que se sente confortável, mesmo vestindo hábito de monja, para andar na pe­riferia de qualquer cidade de madrugada?

Na Arábia Saudita, onde não há periguetes atirando os peitos no colo de ninguém, a opinião pública consegue encontrar respaldo na mesma ladainha de “jogo de sedu­ção” para explicar índices altos de estupro.

Sinta só: uma pesquisa realizada na capital, Riad, atestou que 86,5% da população relaciona o uso ex­cessivo de rímel a casos de violência contra mulheres. Vai ver elas an­dam nas ruas provocando os rapa­zes a piscadelas. Tudo a ver com a moda pornô do “funk do rímel”, “rí­mel ostentação” ou a onda do “rí­mel da cachorra”. Só mesmo ape­drejando essas sem-vergonhas até a morte, yes?

Se deixar, daqui a pouco come­çam a vender camelo e gênio da lâmpada com propaganda que ob­jetifique o olho e a pestana. Eliza­beth Arden que nos acuda!

Exagero, meu leitor de cílios far­tos, para enfatizar como estivemos atirando no alvo errado a semana toda. Tudo bem ficar “indignado” com o resultado da pesquisa, eu até entendo seu desgosto. Mas, para mim o que pegou mesmo foi a naturalida­de com que sociólogos e analistas engoliram o uso da palavra “mere­cem” do título do estudo.

Poderíamos ter caminhado para outras paragens usando os mes­míssimos dados. Só que o “merece” acabou servindo quase como sen­tença, atestado emitido pelo punho da opinião pública para crucificar oficialmente a mulher.

Dá a impressão de que o Ipea re­solveu fornecer um instrumento para sancionar a violência.

É verdadeira a condição de mu­lher casada que não suporta peri­guete solteira rondando o seu ter­reiro. E ninguém discute os valores de uma sociedade em que o sujeito trata a mulher de mucama e pira­nha, para servi-lo esteja ela ou não disposta. Afinal, parece que abrir as pernas de vez em quando em troca de soldo mensal ainda é bom negó­cio. Basta olhar ao redor.

É fato que a solteira segue ocu­pando ranking inferior em relação à casada na escala de valores. Ou não? O “merece” da pesquisa do Ipea se justifica também quando ela sai na rua para protestar sua condição carre­gando o cartaz “Eu não mereço ser estuprada”.

Quem “não merece” trata de abandonar o papel de vítima e assu­me seu lugar em pé de igualdade. De objeto, passa a ser sujeito e dono do seu nariz e do seu desejo. Não usa da sedução para garantir susten­to. E sai do papel de “senhorita” vir­ginal ou “senhora” respeitável, de­pendendo do status que consta nos seus documentos.

Temos uma das leis para proteger contra violência mais avançadas do mundo, a Maria da Penha. Mas de que serve, se insistimos em vestir a carapuça de Geni?

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