Juliano Cazarré e a indústria da autoajuda masculina, por Isabela Venturoza

15 de maio, 2026 AzMina Por Isabela Venturoza

Curso proposto por ator expõe como coaching, religião e neoliberalismo moldam discursos sobre masculinidade no Brasil

Juliano Cazarré e seu O Farol e a Forja Summit trazem pouca coisa nova, mas nos ajudam a pensar a intensificação de certos processos nos últimos anos. A visibilidade que sua proposta ganhou nos alerta para a urgência de disputarmos a questão dos homens  sem aderir às lógicas despolitizadas de iniciativas que falam de “masculinidades saudáveis” sem repensar e transformar as relações de poder.

Cazarré é mais conhecido como ator global, mas já protagonizou filmes distantes de suas posições políticas atuais. Entre eles estão Febre do Rato e Boi Neon. No último, ele interpreta Iremar, um vaqueiro que sonha em largar tudo para trabalhar como estilista. O filme desafia concepções estreitas sobre o que significa ser homem, extrapolando os limites do que é considerado “masculino”, ainda que diga também – e muito – sobre um masculino.

Bem, de lá para cá, Cazarré também viveu Jesus no teatro, em montagem de A Paixão de Cristo de 2019, momento em que iniciou sua conversão ao catolicismo. O projeto atual não foi a primeira vez em que Cazarré causou alvoroço por suas declarações sobre modelos de masculinidade. Também em 2019, ele foi manchete ao escrever post no Instagram dizendo que havia um plano para emascular os homens.

Curso pode ultrapassar cinco mil reais

Agora, Cazarré propõe três dias de evento, com ingressos que podem chegar a R$ 5.497. Na pegada mais coach neoliberal possível, em seu site, ele afirma: “Não existe espaço vazio. Ou a gente assume o nosso lugar no mundo… ou alguém vai ocupar ele por nós. E o preço disso é alto demais”.

Página de vendas do Farol e a Forja em fundo preto e azul, com três colunas de ingressos. As opções aparecem como “Âncora”, “Forjador” e “Mestre”, com valores de R$ 1.797, R$ 3.147 e R$ 5.747. Cada coluna lista benefícios do pacote, como palestras, experiências noturnas, networking e bônus exclusivo. No canto inferior esquerdo, há a cabeça de um manequim preto com etiqueta rosa de cifrão.

Para ele, o antídoto está na programação do evento, que atravessa o mundo do trabalho, a família e a espiritualidade. Pai de seis filhos e contrário a qualquer método contraceptivo, mesmo os naturais, Cazarré convidou uma galerinha e tanto para conduzir as discussões ao longo dos três dias de evento. Destaco o pastor Anderson Silva, idealizador da Machonaria, e também um grande expert em eventos pagos para homens e casais religiosos.

Uma pedagogia de gênero que traz o cruzamento entre o religioso, a autoajuda e o neoliberalismo realmente não constitui novidade. Legendários, Machonaria, Intellimen da Universal do Reino de Deus, Ministério de Homens, Curso de Hombridade da Christian Men’s Network, todos com pelo menos uma década de existência. São inúmeros os exemplos de iniciativas religiosas que buscam moldar uma masculinidade à luz da religião. E quando se busca por masculinidades na Amazon, por exemplo, o que mais se encontra é literatura de autoajuda religiosa para homens.

Página escura do site Machonaria mostra, à esquerda, o título “O que é o Machonaria?” e um texto explicando o movimento de masculinidade. Abaixo, há uma lista de valores formando a palavra “Machonaria”, como mansidão, animosidade, caráter, hombridade e amor a Cristo. À direita, aparece a imagem de um homem careca, de barba longa e braços cruzados, em ambiente escuro com estética religiosa ou medieval. No canto inferior, há uma mão de manequim preta com etiqueta rosa de cifrão.

Em diferentes épocas, propostas bastante semelhantes buscam “resgatar” uma masculinidade perdida que resolveria os problemas da sociedade atual. O “coach espiritualizado” se coloca como encarregado de reunir e inspirar homens na busca por essa essência masculina que teria sido corrompida pelas transformações do contemporâneo. Aqui se trata de enfrentar uma sociedade em colapso, onde o feminismo, as pessoas LGBTQIAPN+ e a esquerda teriam acabado com o homem, com a família e com a ordem natural das coisas.

Misturando coaching e religião, iniciativas reforçam visões tradicionais

No Brasil contemporâneo, diferentes cursos, projetos e mentorias operam a partir dessa mistura entre técnicas de coaching, linguagem de autoajuda e referências religiosas, usando premissas como alta performance, autogestão, desenvolvimento pessoal e meritocracia. A promessa é formar – ainda que apenas no discurso – homens disciplinados e no controle, que sejam líderes fortes em suas comunidades, com força mental e física e aptos a exercerem o papel de provedores e chefes em suas famílias.

A ideia defendida por essas “lideranças” como solução para uma série de problemas contemporâneos é restituir e reforçar visões tradicionalistas nas quais os homens são líderes e as mulheres são essenciais como figuras complementares. Desse modo, as hierarquias são naturalizadas e colocadas como fundamentais para combater o colapso de paradigmas tradicionais no mundo atual.

Esse resgate de uma essência masculina positivada não é exclusivo das perspectivas religiosas, tradicionalistas ou mesmo masculinistas. Se olharmos para o chamado “sagrado masculino” ou para o que surgiu nos Estados Unidos da década de 80/90, na esteira dos movimentos New Age e espiritualistas, vemos também essa ânsia de restaurar uma força masculina interior a partir de arquétipos como o Guerreiro ou o Sábio.

Esse movimento não é novo. Nos Estados Unidos, o chamado movimento mitopoético dos homens, popularizado pelo livro Iron John, propunha nos anos 1990 uma reconexão com arquétipos masculinos “profundos”. No Brasil, iniciativas como o Guerreiros do Coração seguem linhas semelhantes, com rituais, círculos e narrativas de resgate de uma “nova masculinidade” transcendental. Nessa linha, também operam uma visão essencialista, para a qual existe um “verdadeiro homem” (positivado) a ser reencontrado.

Discussões ignoram recorte de raça, classe e sexualidade

O ponto crítico é que essas pedagogias, mesmo quando bem-intencionadas, tendem a ignorar a diversidade das experiências masculinas atravessadas por cor/raça, classe, escolaridade, sexualidade, deficiência e religião. Além disso, raramente elas têm compromisso com a transformação das relações de poder e mantêm pouco ou nenhum diálogo com o movimento de mulheres.

Ao buscar uma “masculinidade melhor”, “positiva”, “nova”, “saudável”, frequentemente esses homens substituem um modelo rígido por outro, sem romper com lógicas normativas e essencializantes.

Enquanto uma pessoa feminista que trabalha com masculinidades há mais de uma década, me parece que a questão não é resgatar uma essência masculina perdida, positivada. O fundamental é estimular o desenvolvimento de sensibilidades éticas alinhadas ao compromisso com uma sociedade mais equânime. O debate se faz menos num campo de identidades e aparências e mais de práticas cotidianas, a partir das quais os homens olhem para si e para os lados, sem se esconder atrás de uma nova roupagem idealizada.

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