Dos políticos homossexuais: até quando?, por Humberto Dantas

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Faz algumas semanas entrei numa sala de aula de escola pública na Brasilândia, bairro localizado no que se convenciona chamar de periferia de São Paulo. A classe noturna era de terceiro ano do ensino médio. Dois rapazes entraram atrasados na explanação que eu fazia sobre democracia. Como é comum entre adolescentes, por vezes esquecem que tem um professor e vários colegas ali trabalhando e, até chegarem ao fundo da sala, pararam pra cumprimentar os mais queridos. A dupla me chamou a atenção. Primeiro porque eram dois rapazes bonitos, e já passei da fase de deixar de desconsiderar a beleza masculina apenas porque sou heterossexual. Uma coisa em nada tem a ver com a outra. Pois bem, voltemos ao caso.

(O Estado de S. Paulo, 12/09/2016 – acesse no site de origem)

Em meio à caminhada os rapazes cumprimentaram outros três colegas com beijos no rosto. Um gesto de naturalidade espantosa pra essa idade. Fiquei muito disposto a explorar aqueles beijos e liga-los ao conceito que eu apresentava. Engoli a vontade, pois na sociedade em que estamos devemos aprender urgentemente a pensar e planejar antes de falar – anda difícil.

Leia mais: Escola repreende beijo homossexual e alunos protestam na internet (Correio Braziliense, 09/09/2016)

No intervalo perguntei pra professora que me acompanha naquela escola faz dois anos sobre o gesto. A resposta foi fantástica: “os dois que chegaram atrasados são homossexuais, e a turma os enxerga com a maior naturalidade. Alguns colegas, a despeito da sexualidade, os beijam no rosto, é um cumprimento natural entre eles”. Que genial! Que avanço! Nunca imaginei que aos 41 anos fosse ver essa tolerância toda brotando entre os jovens. Os jovens! A tal geração que tantos criticam, mas que no distanciamento tão atacado de valores também ensinam tanto sobre como devemos viver. Fiquemos com esse sopro de tolerância e vida em comum na cabeça.

Corta a cena.

Aula sobre conjuntura política para alunos de curso de economia na FIPE-USP em pleno sábado. Sempre reclamo de acordar cedo no sábado, mas o clima dessas aulas é sempre delicioso. Assim, o mau humor termina quando piso na escola. Pois bem, vamos ao que interessa. A aula termina e uma aluna de importante capital do sul do país vem falar sobre os candidatos que lideram as eleições em sua cidade. Naturalmente, sem entrarmos nesse ponto, desabafa: “o fulano (líder nas pesquisas) não pode assumir para o mundo sua homossexualidade, pois parte expressiva do seu eleitorado é do segmento mais conservador da cidade. Ele deve ser infeliz”. Logo me lembrei da campanha de 2008 de Marta Suplicy (então no PT) – logo ela – cujo discurso “acusava” ou questionava “indiretamente” a questão da sexualidade de seu adversário Gilberto Kassab, então no DEM e hoje presidindo nacionalmente o único partido que a apoia no PMDB – o PSD. A pergunta central desse texto: até quando?

Em nome das eleições, até quando homens e mulheres deixarão de ser o que efetivamente são para angariarem mais votos? Não estou dizendo que as pessoas precisem sair pelo mundo gritando sobre todas as suas características. Ninguém é obrigado a fazer isso. Mas penso no contrário: quem quer dizer, quem quer abordar, quem quer viver à vontade e estabelecer uma ponte direta entre a vida pessoal e o universo público, perderia votos? Ao que tudo indica, na cabeça de alguns: sim. No Brasil conheço apenas um governador de estado em exercício e um prefeito de cidade média que externam com naturalidade suas respectivas homossexualidades. É pouco demais diante de todos os políticos que conheço que “vivem escondidos” em eventos fechados nos quais, só assim, podem apresentar seus namorados, maridos, companheiros, pares, ficantes do mesmo gênero. É pouco demais diante da quantidade de políticos com os quais conversei sobre o assunto e dizem que seriam mais felizes se pudessem ser agentes públicos mais sintonizados às características pessoais. Pobre país. Pobre mundo em que teremos que esperar esses jovens de 17 anos se tornarem absoluta maioria para nos tolerarmos. Pros otimistas: em tese faltam duas ou três décadas pra isso ocorrer… Em tese… Pois lembremos que ainda estamos na fase em que a justiça eleitoral precisa estimular, com ênfase, a entrada das mulheres na política…

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