Mulheres travestis e transexuais começam a impor presença no mercado de trabalho

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Advogadas, médicas, delegadas e professoras são algumas das posições que ocupam, antes inimagináveis para elas

(O Globo, 11/03/2018 – acesse no site de origem)

Elas ainda são exceção, mas começam a impor sua presença em profissões que fecham as portas para mulheres travestis e transexuais. Advogadas, médicas, secretárias municipais, diretoras em ministérios, professoras universitárias, delegadas, comissárias de bordo, diretoras de escolas, executivas de partido político são algumas posições antes inimagináveis para elas. É o começo para naturalizar situações que já deveriam ser comuns na sociedade.

— Há uma paralisia facial de cinco segundos quando se deparam comigo — diz Bárbara Pastana, secretária na Câmara Municipal de Belém, ao descrever a reação das pessoas ao vê-la no gabinete onde trabalha como assessora parlamentar.

Segundo estimativas da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% delas ainda estão empregadas na prostituição. Mas já são vistas no mercado de trabalho formal.

— São exceção. Estamos muito distantes de virar o jogo, mas estamos avançando. Nessa cadeia de exclusão, a escola expulsa, o mercado de trabalho não aceita — afirma Keila Simpson, presidente da Antra.

Começam a surgir políticas de reparação, como cotas em universidades. Ceará já adotou. Na última semana, o Supremo Tribunal Federal permitiu a adoção do nome social nos documentos sem necessidade de laudo médico.

— São políticas importantes, mas não suficientes. Elas precisam cursar o ensino fundamental e médio para entrar nas universidades — alerta Keila.

Segundo os movimentos, só 0,02% delas está na universidade, 72% não têm ensino médio e 56% não conseguiram completar o fundamental. A violência não é exceção para essa população, estimada em 3,5 milhões. Há um assassinato de travesti ou transexual a cada 48 horas no Brasil. Foram 179 no ano passado. Em janeiro e fevereiro, 33 mulheres transexuais foram mortas. A violência e a prostituição encurtam a vida. A esperança de vida fica entre 35 e 40 anos:

— É difícil conhecer uma travesti com 70 anos. Vamos levar o Brasil às cortes internacionais, denunciar a falta de políticas para a população transexual — diz Keila.

Segundo Sérgio Carrara, professor do Instituto de Medicina Social da Uerj, as vítimas, em média, têm 27,7 anos:

— Não existe serial killer de banqueiro. No primeiro caso, o assassino é preso. No caso das travestis, ninguém vai se interessar, vai investigar, vai querer saber.

A delegada Laura Freitas, a professora universitária Megg Rayara, a secretária municipal Jovanna Baby, a assessora parlamentar Barbara Pastana, a diretora no Ministério de Direitos Humanos, Marina Reidel, a advogada Maria Eduarda Aguiar da Silva ainda lutam para serem aceitas.

Assessora Bárbara

Barbara Pastana e o filho Pietro Joaquim (Foto: Arquivo Pessoal)

Bárbara Pastana é assessora parlamentar na Câmara Municipal de Belém há oito anos. Enfrentou preconceito, mas afirma que hoje quase 90% dos colegas a olham com o respeito “que jamais alguém poderia imaginar conseguir dentro daquela casa”:

— Esse respeito vai do presidente ao rapaz que atende a porta. Minha posição garante uma visibilidade para a profissional travesti, transexual, gay ou lésbica, para que possam se espelhar.

Mas o respeito veio depois de ela ter vivido muitas situações de discriminação e preconceito:

— Eu continuo disputando com milhões de funcionários héteros. Qualquer imperfeição da sua parte é sempre justificada pela sua identidade de mulher trans, não pela capacidade profissional. Sofri muito preconceito, ouvi brincadeiras irônicas. Houve pressão para me demitirem. Quando passava pelos corredores, notava que as pessoas não gostavam da minha presença. Fofocavam quando eu passava. Precisamos de acompanhamento psicológico com toda a rejeição social.

Bárbara se tornou a primeira transexual negra a conseguir adotar uma criança. Seu filho, Pietro Joaquim, tem 4 anos.

Delegada Laura Teixeira

Única delegada transexual do Brasil, Laura de Castro Teixeira está na Polícia Civil desde 2010, mas preferiu esperar o estágio probatório para fazer a transição de gênero. Em 2013, fez a cirurgia. Quando voltou ao trabalho, foi designada para a 1ª Delegacia da Mulher, em Goiânia.

— Sempre tive muita cautela, achei melhor esperar a estabilidade. Tinha medo de ter algum problema — conta.

Laura era casada, com dois filhos, quando fez a transição. Teve problemas com a aceitação do filho mais velho, que está com 17 anos. Mas, atualmente, ele e a filha de 13 anos moram com ela.

— A minha família deu apoio total, meus pais. Mas meu casamento acabou.

Na segurança pública, Laura abriu precedentes, mas, nas Forças Armadas, a transição leva à reserva, à inatividade.

— Sei apenas de uma cabo na Polícia Militar e um homem transexual na Guarda Municipal.

No momento, Laura estuda para o concurso da magistratura. Quer ser a primeira juíza transexual do Brasil.

— Com a magistratura, vou emplacar dois cargos como a primeira transexual a assumir.

Secretária Jovanna Baby

Jovanna Baby (Foto: Reprodução)

Jovanna Baby é pioneira do movimento trans no Brasil. É secretária de Direitos Humanos de Picos, no Piauí, que foi a primeira cidade brasileira a eleger uma vereadora transexual no Brasil.

— Resolvi ir para a cidade que escolheu uma vereadora travesti. Acabei fundando o primeiro movimento LGBT no sertão.

Ela está na quarta gestão como secretária municipal:

— Quando fui anunciada secretária, foi incrível. Num lugar onde jamais houve uma mulher, agora tem uma travesti. Eu lá, com a macharada toda, dando ideias. Houve muita pressão, mas calei os fundamentalistas.

Para quem fugiu de casa aos 13 anos e defendeu prostitutas da violência policial no Rio, ver travestis no comando a envaidece:

— Elas não passavam da 4ª série.

Advogada Eduarda

A advogada transexual Maria Eduarda Aguiar da Silva
Foto: Leo Martins / Agência O Globo

A advogada transexual Maria Eduarda Aguiar da Silva (Foto: Leo Martins / Agência O Globo)

Ela teve duas solenidades de entrega da carteira da OAB. Só na segunda, em 2016, constava o nome Maria Eduarda Aguiar da Silva. Foi quando a Ordem passou a permitir o nome social:

— Saiu reportagem na revista da OAB, e os comentários eram horríveis. “Agora vou me chamar Power Rangers”; “isso não é coisa de Deus”; “é o fim dos tempos”. Foi bem chato. Só acabou quando ameacei fazer representações na OAB. Tudo que conquistamos é com o pé na porta. Logo após a transição de gênero, perdi o emprego num escritório.

A primeira ação judicial com a nova identidade foi num processo de sua mãe, que sempre a apoiou. O pai, militar, teve vergonha em ser visto ao lado dela:

— Hoje, ele já aceita. Minha mãe ficou apavorada, com medo que eu apanhasse, fosse morta.

A advogada, que é vice-presidente da ONG Pela Vidda, ainda não tem registro com nome social. O processo está na Justiça, pendente de laudos, a cada nova exigência dos juízes. A decisão do Supremo vai acelerar isso.

— Antes da nova carteira da OAB, tinha que mostrar cartão do SUS com nome social, certidão de nascimento e cópia das leis para ter minha identidade.

Professora Megg

Megg Rayara Gomes de Oliveira (Foto: Reprodução)

Megg Rayara Gomes de Oliveira é doutora e professora de Pedagogia na Universidade Federal do Paraná. Foi a primeira doutora a se formar na universidade e é a primeira travesti negra a dar aulas:

— Ainda olham torto quando entro no banheiro feminino. Riem nas minhas costas. O mais frequente são olhares de curiosidade e espanto. Venho de salto alto. Salto também é político. Quero que me vejam, saibam que tem travesti preta circulando nesse lugar. Por onde eu passei, as outras também poderão passar.

Ela participou de um evento simbólico no início do mês. Estava na banca para analisar uma tese de doutorado, na USP. O ineditismo estava na aluna que defendia a tese: a também transexual Adriana Sales.

Diretora Marina Reidel

Marina Reidel, diretora do Ministério de Direitos Humanos (Foto: Michel Filho / Agência O Globo)

Marina Reidel é diretora de Promoção de Direitos LGBT do Ministério de Direitos Humanos. Professora da rede pública no Rio Grande do Sul, foi chamada pela ex-secretária da pasta Flavia Piovesan para o cargo:

— Comecei minha mudança de identidade dentro da escola pública, já como professora. Para minha surpresa, não tive grandes dificuldades com os alunos e os pais. Tive mais problemas com meus colegas professores. A transfobia institucional é muito velada. São alguns comentários, algumas brincadeiras. O preconceito sempre é maior entre os colegas. Entre os estudantes, quando se é aluno, entre os pais, quando estamos nessa condição.

Marina fala da importância de haver professoras travestis e transexuais nas escolas. Elas passam a ser um suporte, tanto para a discussão de sexualidade quanto para os adolescentes com identidade de gênero.

— Por incrível que pareça, viramos o adulto de referência nas experiências deles e no campo da sexualidade. Os alunos, em geral, querem entender o que se passa nesses processos. Somos uma referência para muitos adolescentes.

Cássia Almeida

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