“Sou travesti e não me prostituo”, diz professora de escola pública de SP

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(Folha de S. Paulo, 05/05/2016) Na quinta-feira (12), Herbe de Souza, 35, vai entrar pela porta da frente na principal universidade do país, a USP, para dar uma palestra sobre sua vida.

São muitas as lições que a professora de escola pública têm a ensinar para os seus alunos do ensino fundamental 1, com idades entre 8 e 9 anos, e também para adultos, na condição de travesti.

Desde os cinco anos, a hoje funcionária da rede pública municipal de Caieiras, na Grande São Paulo, sofre bullying, agressões e assédio na escola, nas ruas e no transporte público em razão da sua sexualidade.

Superou todos os obstáculos para conseguiu se formar no ensino médio e alcançar o superior por meio de uma bolsa do Governo Federal.

Hoje, suas lutas são para dissociar a imagem da travesti a da prostituição e para que todos possam ter direito à educação.

“Eu sou travesti e não me prostituo e é isso que a sociedade precisa entender”, afirma. “A travesti só precisa estar dentro da escola e estudar. A escola tem que respeitar a orientação de cada pessoa, porque educação é direito de todos.”

Leia a seguir o depoimento de Herbe à Folha.

*

Meu nome é Herbe, tanto pode ser ‘a’ ou ‘o’ Herbe. Sou um artigo indefinido. Meus alunos me chamam de ‘a prof’ ou ‘o prof’, tanto faz, eu respondo.

Eu sou travesti, não mulher trans. Elas têm outras questões, eu já não pretendo mudar nada no meu corpo, sexo ou nome. Estou tranquilo.

Entrei nessa profissão por acaso, não queria dar aula. Era o terror dos professores na escola. No ensino médio, ingressei no magistério e gostei de ensinar. Terminando o curso, em 2002, comecei a dar aula.

A primeira vez em que entrei em uma sala para dar aula, eu estava já montada [vestida de mulher], de cabelo grande. Na turma, tinha alunos de 10 a 15 anos, todos em recuperação.

Praticamente não dei aula. A sala era indisciplinada, não consegui trabalhar. Eles nem viram que eu estava lá.

Para dar aula em escola pública, prestei vários concursos. Em um deles, tive problema. Quando cheguei para fazer atribuição de cargo, estava bem loira e já vi os olhares. Disseram que eu não estava dentro dos padrões do edital.

Eu tinha a formação pedida e fazia pós em pedagogia, mas me barraram. Entendi o porquê. Podia ter entrado com um mandado de segurança, mas preferi não.

Em 2011, vim trabalhar em uma escola municipal de Caieiras. Nessa época, todos já sabiam quem eu sou, porque meu nome é único nessa região: ‘Herbe, a professora travesti’.

No primeiro ano, teve professora, do tipo bem religiosa, que não quis que eu a substituísse, com a desculpa que os pais não entenderiam.

Muitos colegas só me olhavam, cochichavam. Com o tempo foi melhorando. Não vou dizer que foi fácil, nunca foi.

Em 2005, fiz a prova do Enem e consegui uma bolsa do Prouni de 50% do valor da faculdade, onde me licenciei em geografia.

Como moro sozinha, a bolsa foi fundamental, porque a faculdade seria uma conta a mais que eu não teria condições de pagar naquela época.

A diretora da escola onde eu trabalhava, pagou os outros 50% da primeira mensalidade.

Durante a faculdade, dava muitas aulas, de manhã e à tarde, para conseguir me manter, pagar o ônibus e a mensalidade.

BULLYING

Aos cinco anos, descobri que eu gostava de meninos. Para mim, era normal gostar de ficar com eles. Nessa idade, tive meu primeiro namoradinho.

A descoberta da minha sexualidade veio mesmo aos 8, quando entrei na escola e conheci alguns meninos. Comecei a ficar com um e outro. A experiência sexual deles, na infância, começou comigo. Hoje, morrem de medo de que eu fale.

Teve aquela fase de me chamarem ‘viado’ e ‘bichinha’, mas só fui descobrir depois que era uma ofensa. Isso passava, no outro dia estávamos brincando juntos.

Eu morava com os meus pais e dois irmãos. Eles só perceberam na fase da puberdade, pois eu não tinha muitos hormônios masculinos.

Eu cresci, a cintura afinou, o quadril aumentou e ganhei seios aos 11 anos. Começaram os olhares de homens mais velhos.

Eu me vestia de moleton, que minha mãe comprava. Mas usava escondido os sapatos de salto alto dela e da minha irmã.

Nas ruas, aos 15 anos, o bullying ficou mais agressivo. Jogavam pedra, batiam, davam tapa. Eu não ia ao banheiro da escola, tinha medo de ficar sozinho com os meninos.

Para mim, o problema estava nos outros, o meu jeito era normal. Então, me apaixonei por um rapaz que gostava de menina. Troquei de escola e comecei a gostar de outro, que gosto até hoje, mesmo sendo casado e tendo filhos. Eu respeito.

Apanhei muito do meu pai sem saber o porquê. Não falo com ele desde que se separou da minha mãe, quando eu tinha 17 anos. Ele é torneiro mecânico, mas trabalhava como pedreiro. Minha mãe era auxiliar de enfermagem, hoje aposentada.

Também não tenho mais contato com ela, que dizia que me matava se eu virasse gay. Nunca cheguei a dizer: ‘Mãe, sou gay’. Não precisava. Ela via as mudanças no meu corpo.

PÃO COM OVO

Na adolescência, frequentava o centro de São Paulo, comecei a sair com homens mais velhos. Era a fase da bichinha pão com ovo, fervida, descendo até o chão. Em casa, eu tinha que manter as aparências, foi quando descobri o que era errado para a sociedade.

Aos 22 anos, saí de casa, já não tinha mais ambiente. Comecei a usar roupas femininas, salto alto, furei a orelha e fiz a sobrancelha, coisas que minha mãe não deixava fazer.

A rua é muito perigosa para mim. Tive que comprar um carro para me sentir segura.

Dentro do transporte público sofro agressões e assédio de todo o tipo. É mão dentro da roupa, xingamento. Palavrão, eu não ligo. Mas se vier para cima, eu também vou.

Sempre frequento os mesmos lugares, por questão de segurança. As pessoas associam a vida da travesti com o sexo, acham que você está ali fazendo programa.

Quando eu falo que dou aula, as pessoas se espantam. Agora, as mulheres trans estão na faculdade, são médicas, enfermeiras. Profissões que fogem do clichê do cabeleireiro e da profissional do sexo.

A travesti não tem nem classe social, está abaixo do mendigo. É como um rato, não tem direito à saúde e à educação.

Eu resisti na escola. As que não conseguem estudar, por não terem uma família estruturada, são obrigadas a ir para rua e para a prostituição?

Estamos vivendo um retrocesso com essa bancada conservadoríssima no Congresso Nacional. Enquanto eles barrarem a discussão de gênero e outras questões como violência contra a mulher, não teremos avanços.

Ano passado, fiz um debate sobre gênero com os meus alunos do 5º ano. Os pais estão mais tranquilos, já me conhecem. Alguns não querem que eu saia da escola.

A minha luta é: sou travesti e não me prostituo. É isso que a sociedade precisa entender.

A travesti só precisa estar dentro da escola e estudar. A escola tem que respeitar a orientação de cada pessoa, porque educação é direito de todos.

Não posso me abater com bullying. Se eu choro, no outro dia tenho que levantar, colocar maquiagem na cara e ir trabalhar. Preciso pagar minhas contas.

QUERO SER DIRETORA

Hoje, minha rotina é ir para a escola de manhã e à tarde. À noite, faço um curso sobre transcidadania na USP e sou convidada para dar palestras sobre a minha vida. Não conheço nenhuma outra professora travesti.

Ainda almejo um cargo de direção, mas tem entraves: ‘Você é competente, mas não dá’.

Quero ser diretora, pretendo mudar a visão da escola de que o professor sabe tudo. Existe diversidade.

Não consigo mudar o currículo, porque vem do MEC, mas consigo mudar atitudes, preconceitos sexuais e raciais.

A educação é capaz de mudar muitas vidas. O aluno pode ser o que quiser, desde que tenha o direito de escolha. Educar uma criança tem efeito multiplicador. A gente pode mudar o mundo.

Herbe de Souza participou, em 2014, da série de depoimentos “Trans Histórias”, realizada pelo Museu da Pessoa. Membro da Rede Folha de Empreendedores Sociais, a organização coleciona histórias de vida de pessoas comuns e prega que escutar o outro é um instrumento para a democratização da memória social

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