Transfobia e conservadorismo não cabem no nosso feminismo, por AzMina

17 de março, 2026 AzMina Por Redação

Tem mulher usando discursos feministas para propagar violência e exclusão e AzMina acha importante reafirmar: nossa luta NÃO é ao lado delas!

Os feminismos são muitos e diversos, sabemos que não existe um só jeito de ser feminista e muito menos uma fiscal que pode dar ou retirar a carteirinha de feminista de ninguém. Mesmo assim, nós, d’AzMina, entendemos que certas práticas e discursos excludentes e violentos que têm se popularizado por aí, se autodenominando feminismo ou “pelos direitos das mulheres”, na verdade, não têm nada a ver com o movimento, a teoria ou a práxis feminista. Com todas as letras: Transexclusão não é feminismo.

Sim, estamos falando das tais Radfems ou Feministas Radicais, Terfs (sigla para a expressão Feministas Trans Excludentes), feministas essencialistas, e de um conservadorismo que se apropria de pautas feministas para crescer. Mas, poxa, AzMina, bem no mês de março, diante de tantos casos de violência e feminicídios, vocês decidem publicar um editorial criticando outras mulheres? Pois é.

Porque o 8 de Março é, historicamente, um dia de luta e união do movimento pela equidade de gênero, e aqui valorizamos muito isso durante todos os meses, não apenas em março. E não dá pra gente falar em igualdade, direitos, respeito, se sentamos na mesa com pessoas que têm sistematicamente atacado e agredido grupos já muito vulnerabilizados pela mesma desigualdade de gênero. Queremos dizer publicamente algo que já vivemos há anos: nossa luta não é ao lado das “feministas” radicais transexcludentes.

Para quem não conhece, as “feministas” (entre aspas mesmo) radicais são um grupo que defende que toda a opressão que mulheres sofrem vem da biologia de seus corpos. Para elas, mulheres são oprimidas por serem fêmeas. E uma das principais articulações e ações políticas que elas fazem, atualmente, é contra os direitos de pessoas trans e contra o trabalho sexual reconhecido.

Elas estão, por exemplo, desde 11 de março agindo com toda força para atacar a eleição de Érika Hilton à presidência da comissão da mulher na Câmara dos Deputados. Ao lado de figuras como Damares Alves, têm se mobilizado contra a deputada do PSOL com enorme violência, desrespeitando sua autoidentificação e adotando falas transfóbicas.

Não dá pra combater a violência e o ódio que nos mata todos os dias, pregando violência e exclusão.

É triste para nós ver como o feminismo tem perdido credibilidade. Não entre pessoas conservadoras, de quem o movimento nunca teve apoio, mas de um monte de gente que se alinha ideologicamente com o que o feminismo defende, mas mesmo assim prefere recusar o ‘rótulo’ de feminista por perceber no movimento organizações que reforçam estruturas opressoras de gênero.

Mas o que é gênero?

O feminismo é um movimento social e político que se tornou teoria, que surgiu para combater violências que mulheres sofriam e sofrem simplesmente pelo fato de nascerem mulheres e para demandar igualdade de direitos. O que começou na luta pelo voto evoluiu ao longo dos anos e vários entendimentos foram sendo construídos.

Um dos principais foi o de que não é o útero, a capacidade de gestar ou os hormônios que colocam as mulheres em posição inferior. Não. O que gera tanta desigualdade e violência é, vejam só, a construção social da ideia do que deve ser um homem ou uma mulher e que define os comportamentos que podemos ter, os lugares que podemos ocupar, etc.

Isso não quer dizer que quem tem útero não sofra violências específicas, mas que a violência não se origina nesses corpos e sim na estrutura social que dá um papel e um lugar a esses corpos.

A palavra “gênero” passou a ser usada para definir essa construção socio-histórica do que deveria ser um homem ou uma mulher. Meninas vestem rosa, meninos vestem azul? Construções de gênero. Lugar de mulher é na cozinha? Construção de gênero. Homem não chora? Construção de gênero.

E o feminismo é hoje esse movimento teórico-político-social que investiga e enfrenta as desigualdades criadas pelas estruturas de gênero.

Tá tudo bem discordar

Ao longo dos anos, foram surgindo várias frentes de interpretação e também de organização do feminismo, olhando para o debate de maneiras diferentes ou a partir de perspectivas diversas: feminismo negro, feminismo lésbico, transfeminismo, feminismo decolonial, feminismo materialista e várias outras linhas.

As diferenças são muitas e, vira e mexe, vira treta. Diferentes grupos têm suas próprias visões e prioridades, e isso é parte mesmo de estar em movimento social: coexistir com a diferença, negociar, articular e somar forças para combater aquilo que de comum nos afeta. No caso, essa estrutura social e de poder construída com base em gênero que muita gente chama de patriarcado.

Lembrando que não existe um lugar no mundo onde a violência de gênero atue sozinha. Ela cruza nossos corpos e nossas vidas entrelaçada com vários elementos, como raça, classe, sexualidade, território, deficiência e tantos outros. O olhar que leva em conta esses diferentes fatores é chamado de interseccionalidade (nesse vídeo a gente explica melhor esse termo).

Sabe o que todos os diferentes feminismos têm em comum? A visão interseccional do mundo, a compreensão de que as opressões de gênero atingem as pessoas de diferentes maneiras e que é preciso combatê-las para construir um mundo mais justo.

De mãos dadas com a direita

Percebendo o quanto isso pode trazer transformações, o conservadorismo tem se organizado há décadas no mundo todo em um movimento que usa a palavra “gênero” como bode expiatório para causar pânico e, com isso, angariar apoio para barrar e até retirar direitos conquistados. Aqui no Brasil, esse movimento antigênero ganhou um novo impulso em 2018 e tem vestido novas máscaras. Nas eleições desse ano, já podemos esperar por toda uma onda de candidaturas femininas conservadoras, que utilizam pautas tradicionalmente feministas, como o combate à violência doméstica, mas sem propor mudanças reais nas estruturas que promovem essa violência, muito pelo contrário.

Como se não bastasse esse movimento assumidamente conservador, existem as radfems. Elas existem há anos, mas ultimamente têm se organizado no mundo todo e atuado de maneira mais sistemática nesse ataque. Inclusive unindo forças com figuras e organizações do conservadorismo e da extrema-direita.

No fim, também são parte desse movimento antigênero. O problema é que elas têm atraído muita gente pro seu lado com base num pânico, principalmente baseado nos direitos das crianças e num discurso que dá voltas antes de se assumir transfóbico.

Agora diz aí: você acha que um movimento que desrespeita, ameaça e agride pessoas que são vítimas da opressão de gênero tem algo a ver com um feminismo movido pela busca  por justiça?

Os ataques são os mesmos

Não vamos entrar aqui nos números e dados sobre a violência contra pessoas trans, não é sobre isso. É sobre reconhecer que a violência que nega direitos e agride pessoas trans é exatamente a mesma que leva aos números assustadores de violência doméstica: a violência de gênero.

É essa estrutura de poder feita por e para homens brancos cisgêneros que define os papéis dos sujeitos de acordo com o gênero designado no nascimento, que mata mulheres e pessoas trans. Que nega às mulheres cis direitos de escolha sobre seus próprios corpos e às pessoas trans, veja só: direitos de escolha sobre seus próprios corpos. Que naturaliza o ódio a mulheres na internet e que ganha forma no movimento red pill.

Não é à toa que a extrema-direita tem como pautas centrais o ataque à população trans, às trabalhadoras sexuais e ao tema do aborto também. Que mundo mais justo é esse que querem construir com desrespeito e violência?

Transexclusão não é feminismo

AzMina surgiu há 10 anos para combater a violência de gênero por meio da informação e, desde o começo, sempre reconhecemos que nosso feminismo inclui, sim, o transfeminismo, como já falamos em outro 8M.

Mas agora achamos que precisamos fazer mais. Precisamos nomear as coisas corretamente e deixar claro de que lado estamos. E jamais estaremos ao lado da transfobia, da violência, da exclusão, da mentira e do conservadorismo.

E, para que não haja dúvida, também reforçamos: representatividade feminina na política, sem real conexão com demandas por mais direitos, é vazia. Ser contra a violência doméstica, mas não reconhecer a estrutura que cria essa opressão não leva a nada.

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