Uso de banheiros por transgêneros polariza opiniões nos Estados Unidos

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(Folha de S.Paulo, 08/08/2016) É problema seu um transgênero escolher que banheiro usar? O Partido Republicano acha que sim, e condenou em sua plataforma uma orientação presidencial para alunos de escolas públicas frequentarem o sanitário no qual se sintam mais confortáveis.

“Eles estão determinados a remoldar […] nossa sociedade inteira, para encaixá-la numa ideologia alienígena à nossa tradição”, diz o texto, apresentando na convenção no partido, em julho.

Na quarta (3), a Suprema Corte do país bloqueou uma ordem judicial que dava a um aluno transgênero do Estado da Virgínia, Gavin Grimm, 16, o direito de usar o banheiro com a placa “eles” —nascido com órgãos femininos, desde pequeno ele dizia “Sou igual a ele!” ao ver o irmão gêmeo.

O estudante transgênero Gavin Grimm, 16, em foto de agosto de 2015; ele perdeu batalha judicial sobre uso de banheiro nos EUA

O estudante transgênero Gavin Grimm, 16; ele perdeu batalha judicial sobre uso de banheiro nos EUA (Foto: Steve Helber/Associated Press)

O tema tem sido uma dor de cabeça para Barack Obama, desde que 11 Estados entraram na Justiça contra seu governo, em maio, reagindo a uma diretriz sua pró-direitos dos transgêneros.

A medida —que veio após vários Estados (a maioria do Sul e sob governo republicano) implantarem leis de liberdade religiosa que autorizam alguém a negar serviços à comunidade gay— não tem força de lei, mas instituições que a desobedeçam arriscam perder verba federal.

Se Obama diz que proteger a “dignidade das crianças” é obrigação, a coalização liderada pelo Texas diz querer “garantir a segurança” delas.

Charge divulgada pelo grupo Jovens Conservadores resume o argumento de quem é contra a flexibilização: um homem de pernas peludas, sorriso sardônico, máquina fotográfica e camisa do Partido Democrata entra no banheiro feminino. Ao lado da filha pequena, uma mãe olha apavorada. “Relaxe, senhora, sou transgênero.”

Se a “agenda LGBT ganhar”, diz a publicação republicana, “homens pervertidos se disfarçarão para alimentar suas fantasias ridículas”.

RISCOS

A ativista texana Michelle Stafford discorda: “Você tem noção de que está direcionando uma pessoa que toma hormônios para ganhar pelos e músculos a entrar no banheiro feminino? E o que ocorrerá no compartimento masculino com o indivíduo que fez implante de seios, removeu seus pelos e possivelmente seus ‘apêndices’ masculinos?”.

“Dê um Google”, sugere Kaeley Triller, listando chamadas de jornal nas quais teoria conservadora virou prática: Reese, 33, sufoca garota de 8 até ela desmaiar em Chicago; com peruca e roupa de mulher, Jason, 33, é preso após gravar as clientes de uma loja californiana por “horas” com câmera escondida.

Para Triller, “é negligente sobrepor o conforto emocional de uma minoria à segurança física de um vasto grupo de pessoas vulneráveis”.

Ela se define como “contadora de verdades”, “seguidora de Jesus” e “sobrevivente de um estupro”, na infância.

“Ele [o abusador] gostava de me ver tomando banho, ficava lá rindo”, conta à Folha. “Forçar-nos a compartilhar o chuveiro com homens biológicos é cultura do estupro.”

Os defensores de direitos LGBT argumentam que casos como os de Jason e Reese, além de raros, já são enquadrados como crime, enquanto a população trans, na prática, fica à margem da lei.

“Sabe o que é irônico? Esses mesmos conservadores ficariam chateados se alguém propusesse banir armas porque criminosos as usam”, diz Libby Anne, “evangélica convertida em feminista ateia”.

Em 2013, pesquisa da Universidade da Califórnia (Estado sem restrições de gênero para o uso de sanitários) mostrou que 70% dos transgêneros sofreu agressão física ou verbal no banheiro, e 54% relataram complicações como infecção urinária por evitarem sanitários públicos.

No Brasil não há leis sobre a questão, mas um processo no Supremo Tribunal Federal discute se transexuais podem escolher o banheiro.

Anna Virginia Balloussier

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