Machismo no futebol brasileiro: 8 episódios que expõem violência e desigualdade de gênero

25 de março, 2026 Portal Catarinas Por Ariele Lima

Mulheres foram historicamente excluídas do esporte, e hoje projetos de lei buscam coibir violência e garantir sua segurança.

O futebol brasileiro vai muito além da disputa por títulos e da mobilização das torcidas. Dentro e fora de campo, o esporte também tem sido analisado como um espaço que reproduz padrões tóxicos de masculinidade e estruturas de opressão. Só nos primeiros meses da temporada 2026, tanto os campeonatos estaduais quanto o Campeonato Brasileiro, já registraram episódios de machismo, assédio e violência envolvendo torcedores, atletas e profissionais da área.

Os casos são recorrentes e expõem um ambiente marcado por desigualdade de gênero, levantando questionamentos sobre a segurança e o direito das mulheres de ocupar os estádios. É nesse contexto que especialistas chamam atenção para o caráter sistêmico do problema. Para a socióloga do esporte Carolina Moraes, a hegemonia masculina no futebol não é um acaso, mas o resultado de um processo histórico de exclusão e controle da presença feminina.

“Foi construída a ideia de que o futebol seria um território naturalmente masculino, associado à força e à virilidade. Enquanto isso, às mulheres reservavam-se expectativas de delicadeza e contenção do corpo”, explica.

Carolina, que atua como vice-presidenta do Instituto Mudar o Jogo, iniciativa que promove o esporte em periferias como ferramenta de transformação social, defende que a busca por igualdade exige encarar a disparidade de gênero como uma questão estrutural. Para ela, não basta ampliar a visibilidade na mídia, é fundamental implementar políticas públicas contínuas que garantam investimento em iniciação esportiva, infraestrutura adequada e proteção contra as diversas formas de violência.

“O desafio é desmontar a ideia, ainda muito naturalizada, de que o futebol é um território masculino. Isso passa pela escola, pela mídia, pelas famílias e pelos modos como o esporte é apresentado às crianças desde cedo. Passa também pela produção de memória e pelo reconhecimento de trajetórias historicamente apagadas.”

Propostas buscam coibir violência

O Projeto de Lei 2.354/2021, de autoria do senador Fabiano Contarato (Rede-ES), em tramitação no Congresso Nacional, propõe a criação de mecanismos para coibir a violência e a discriminação no ambiente esportivo, com foco especial em práticas de cunho machista, racista e homofóbico. Entre as medidas previstas estão a responsabilização de atletas, dirigentes e torcedores por condutas dentro e fora das arenas, além da possibilidade de aplicação de sanções esportivas e administrativas. A ação se insere em um conjunto de iniciativas que buscam ampliar o debate sobre segurança, direitos e responsabilização no futebol brasileiro.

Outras propostas também buscam enfrentar a violência e a discriminação no ambiente esportivo, como o Projeto de Lei 549/2019, de autoria da senadora Leila Barros (PSB-DF), que amplia a proteção às torcedoras no Estatuto do Torcedor, e projetos em tramitação no Senado que preveem o aumento de penas para manifestações racistas, homofóbicas ou xenófobas em estádios. Há ainda iniciativas em estados e no Distrito Federal que criam protocolos e sanções específicas para combater essas práticas em arenas esportivas.

A urgência de mudanças é reforçada por dados sobre o impacto do calendário esportivo na segurança pública. Segundo a pesquisa Violência Contra Mulheres e o Futebol, realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em dias de jogos, os registros de boletins de ocorrência por ameaça contra mulheres aumentam 23,7%, e os de lesão corporal crescem 20,8%. Esses indicadores evidenciam que a toxicidade de certos padrões de comportamento no futebol transborda os estádios e incide diretamente na integridade física das mulheres dentro de seus lares.

Casos de assédio, contratações controversas de atletas com histórico de violência, e a resistência de parte das torcidas a mudanças institucionais são pontos de tensão que testam, a cada rodada, a capacidade dos clubes e das autoridades de promoverem um ambiente verdadeiramente inclusivo e seguro para torcedoras e profissionais.

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