Nos 106 municípios com os piores resultados, pretos e pardos somam 70,3% da população, contra 55,97% na média dos municípios brasileiros
Nenhum município brasileiro oferece condições para que as mulheres vivam plenamente bem. A conclusão é do Índice Municipal de Gênero (IMG) 2026, pesquisa da Tewá 225 que analisou 5.570 cidades do país. O estudo reúne 17 indicadores em sete dimensões: saúde, educação, trabalho e renda, participação política, segurança, infraestrutura e mobilidade e proteção social.
A média nacional do IMG é de 50,61 pontos em uma escala de 0 a 100. A maior pontuação do país é registrada por Águas de São Pedro, no interior de São Paulo, com 67,06 pontos.
Na outra ponta está Uiramutã, em Roraima, município majoritariamente indígena no extremo norte da Amazônia, com 28,64 pontos. Mais de nove em cada dez municípios brasileiros estão concentrados entre 40 e 60 pontos, e nenhum alcança 70.
O IMG revela que a desigualdade tem cor e território. Entre os 106 municípios com pontuação abaixo de 40 pontos, a população é, em média, 70,32% negra (pretos e pardos) e 11,05% indígena. A média nacional de população indígena nos municípios é de 1,12%. Quase dois terços dessas localidades com piores resultados estão na região Norte.
Quando a análise pondera a pontuação de cada município pela população que nele reside, a população indígena do país vive, em média, em cidades com IMG de 47,76. Para a população negra, esse valor é de 53,20, e para a população branca, de 55,42. A população amarela registra a maior média, 57,49. A média ponderada do conjunto da população brasileira é de 54,15.
A população indígena vive, portanto, em municípios cuja pontuação média é 7,66 pontos inferior à dos municípios onde vive a população branca. Nas duas faixas de pior pontuação do índice, 35,7% da população indígena vive nelas, contra 7,7% da população negra, 3,2% da branca e 1,8% da amarela.
Os 50 municípios com menores pontuações reúnem 0,39% da população brasileira, mas concentram 8,14% de toda a população indígena do país, uma sobrerrepresentação de cerca de vinte vezes. Nos 50 municípios com maiores pontuações, a população indígena é de apenas 0,12%.
Participação política e saúde
Participação política e saúde são os principais desafios revelados pelo índice. As médias nacionais são de 29,59 e 30,42 pontos, respectivamente. Em 92,39% dos municípios, ou mais de nove em cada dez, uma dessas duas dimensões apresenta o menor resultado.
Na participação política, o país registra a menor pontuação média entre as sete dimensões, com mediana de 16,66 pontos. Apenas 31,29% dos municípios possuem Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM).
Em 726 municípios, nenhuma mulher foi eleita vereadora. Em 526, as duas ausências se somam: não há conselho e nenhuma cadeira do Legislativo local é ocupada por uma mulher.
Na saúde, apenas 1,17% dos municípios alcançaram 50 pontos, o ponto médio da escala. Um único município ultrapassa 60 pontos, Doutor Maurício Cardoso, no Rio Grande do Sul, com 66,10. Jordão, no Acre, registra 4,09. O acompanhamento pré-natal é o indicador com a distribuição mais desigual, com a média dos municípios brasileiros sendo de 24,74%, e em 614 cidades o valor sendo igual a zero.
Trabalho, renda e raça
A dimensão de trabalho e renda tem média nacional de 40,42 pontos. A cobertura de creche para crianças de 0 a 3 anos permanece baixa em todo o país, com média de 28,65 pontos, e em 126 municípios não há registro de oferta.
A taxa de ocupação feminina cresce de 53,96 pontos no grupo com menor cobertura para 66,23 no grupo com maior cobertura, reflexo da relação entre oferta de creche e inserção das mulheres no mercado de trabalho.
Na proteção social, o cruzamento com a composição racial dos municípios é o resultado mais expressivo. Nos 25% de municípios com menor proporção de domicílios chefiados por mulheres, a população negra é de 44,1%. Nos 25% com maior proporção, sobe para 67,7%.
A cobertura do Bolsa Família acompanha o mesmo desenho: passa de 26,4% a 47,0% entre esses grupos. O PIB per capita segue na direção oposta, caindo de R$ 45 mil para R$ 29,9 mil.
Segurança e mobilidade
A dimensão de segurança tem a maior pontuação média do índice, com 91,88 pontos, mas o resultado exige cautela. Entre os 5.570 municípios comparáveis, 1.480 registraram valor zero no indicador de feminicídio composto.
Faltam informações sobre estupro em 591 municípios e sobre violência doméstica em 84. Registros reduzidos ou ausentes podem refletir menor ocorrência, dificuldade de acesso aos serviços, problemas de notificação ou limitações dos sistemas de informação.
Na infraestrutura e mobilidade, a média é de 91,35 pontos, mas o problema está concentrado nas cidades grandes. Nos municípios de até 5 mil habitantes, 2,98% das mulheres gastam mais de uma hora no trajeto diário.
Nas cidades com mais de 500 mil, a proporção chega a 17,98%. Os maiores percentuais são registrados em Japeri, no Rio de Janeiro, onde 49,93% das mulheres enfrentam trajetos de mais de uma hora, Francisco Morato, em São Paulo, com 47,09%, e Águas Lindas de Goiás, com 45,37%.
Nos 200 municípios com maior proporção de deslocamentos longos, a população negra representa 62,74%, contra 55,72% nos demais.