9 mulheres dividem histórias de abuso sexual

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No Brasil, 4 a cada 10 mulheres SOFRERAM abuso sexual no último ano. Apesar de cotidiana, essa violência ainda é vista como rara e ocasional

(Cosmopolitan, 23/10/2017 – acesse no site de origem)

Você acompanhou e se indignou conosco: nos dias 29 e 31 de agosto, dois homens se masturbaram e ejacularam sobre passageiras em ônibus de São Paulo e Rio de janeiro. Um deles, Diego Ferreira de Novais, dono de um histórico de sucessivos crimes sexuais, repetiu o ato poucos dias depois e, só então, foi preso. Em casos assim, em que falha e tarda, a Justiça agride a vítima que deveria acolher. Isso precisa mudar, assim como a visão do Brasil sobre o que é violência sexual (no dia em que fechávamos esta edição, mais um homem foi preso em Sorocaba, no interior de São Paulo, por ejacular em uma mulher no transporte público).

Vale começar derrubando mitos. “A mulher tem parte da culpa” é o primeiro deles. “Só ocorre em beco escuro” é outro. Assédios e estupros acontecem todos os dias, em locais públicos e ditos seguros. Uma pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada em março aponta que 40% das mulheres declararam terem sido vítimas de assédio sexual no último ano. Outro estudo, feito pelo Instituto Locomotiva, apurou que 84 milhões de pessoas conhecem uma mulher que foi beijada à força no mesmo período. Os abusos são feitos pelas mãos de chefes, familiares, médicos e outros homens que ignoram a regra mais básica do sexo: o consentimento. Leia a seguir o depoimento de nove mulheres que dividiram suas experiências com a COSMO e, antes de julgar, se coloque no lugar delas.

Consulta traumática

“Ele era o médico das minhas colegas. O consultório ficava ao lado do meu trabalho e as primeiras consultas foram perfeitamente normais. Na terceira, porém, tudo mudou. Ele pediu que eu passasse à maca e, desta vez, não chamou a secretária para acompanhar. Examinou meus seios e, quando fiz menção de vestir o avental para subir na balança, me interrompeu: ‘Não precisa, vem direto’.

‘Você está emagrecendo’, observou. ‘Vire de costas.’ Estava mesmo, tratava um hipotireoidismo, e ele estava a par. Perguntou se eu me exercitava. Respondi que lutava kung fu e o vi sorrir. ‘Com você, então, não posso mexer.’ E emendou: ‘Os meninos lá não te acham gostosa?’

Fiquei bem desconfortável e disse: ‘Me respeitam muito’. Mas ele não parou. Sob pretexto de avaliar a elasticidade da minha pele, passou a mão de leve sobre as nádegas. Comentou as tatuagens das minhas costas e então falou dos meus seios, que haviam mudado de formato pela perda de peso. O avanço foi gradual e sempre com a desculpa de estar me examinando. ‘Estão pequenos, mas enchem uma mão. Dá até vontade de morder. Posso?’

Estava nua e paralisada, de pé sobre a balança. Só atinei a dizer ‘não’. ‘Por quê?’, ele insistiu. ‘Porque você é meu médico.’ Minha voz saiu baixinha, estava realmente chocada. De repente, ele pareceu incomodado e encerrou a consulta. Me vesti, atônita, e saí da sala ignorando a secretária, que me esperava para agendar o retorno.

Passei os primeiros dias em choque. Poderia ter quebrado o dedo dele, sei fazer isso, mas fiquei impotente. Então, senti raiva e vergonha. Por que não reagi? Não falei do episódio para ninguém e ignorei minha saúde por três anos. A ideia de pisar num consultório novamente me travava. Retomei o tratamento que havia começado com ele poucos meses atrás, com uma ginecologista mulher.” Marcela*, 33 anos, psicóloga.

Reações diferentes

“Fui assediada pela primeira vez no transporte público, nove anos atrás, num ônibus que ia no sentido da movimentada Avenida Rebouças, em São Paulo. Estava de pé, e o agressor, atrás de mim, naquela fileira que se forma no meio do corredor quando o veículo está realmente lotado. Comecei a sentir algo quente encostar no meu corpo, na bunda. Passava, parava, depois passava de novo. Tentei evitar o incômodo indo um pouco mais para a frente — o pouco que podia, afinal o ônibus estava muito cheio. Também tentei me mexer e mudar o ângulo do corpo, mas não adiantou. De novo, algo quente passou pela nádega. Me irritei e virei para trás bruscamente, pronta para resolver a situação, mas não imaginava o que veria. O pênis do homem estava saindo para fora da calça, ereto. Gritei: ‘Que porra é essa?’ Ele não respondeu. Minha colega, que estava ao meu lado, viu a cena e começou a xingá-lo. Ele apertou o botão para descer e passou a nos chamar de loucas, dizendo que não tinha feito nada. Só quando ele saiu e comecei a chorar é que os outros passageiros se solidarizaram e me perguntaram se eu estava bem.

A segunda vez foi quatro meses atrás, num sábado de manhã, enquanto ia para um curso. Estava perto da porta e, mais uma vez, o ônibus estava repleto. Havia algumas pessoas perto de mim, se preparando para descer. Olhava para fora e estava distraída, com fones de ouvido. De repente, senti um calor sobre a virilha. Da rua, meu olhar foi diretamente para baixo e, aí, vi a mão do homem avançando para minha genitália. Desta vez, não tive dúvida, dei um soco nele e comecei a xingá-lo em voz alta. As mulheres que estavam ao redor se uniram para socá-lo. Foi uma grande diferença em relação ao primeiro assédio.” Gabriela Ananias, 31 anos, pedagoga.

Ferida de família

 

“Tinha 10 anos quando meu padrasto disse que me faria um carinho. Era de dia e estávamos sozinhos em casa. Ele disse que era melhor minha mãe não saber, pois ela não entenderia e ficaria com ciúme. Então ele colocou a mão embaixo da minha roupa, no peito e, depois, no bumbum. Fiquei paralisada, sem saber como agir. Queria que aquilo parasse, mas não sabia como. Só consegui ficar quieta e dura.

Depois, sempre quando minha mãe não estava em casa, ele vinha com o mesmo papo, a mesma mão. Aquilo me deixava confusa, pensando se era carinho ou não. Incomodada, não tinha outra reação a não ser ficar rígida. Quantas vezes isso ocorreu? Não sei dizer. Tampouco consigo me lembrar de como as investidas terminavam. Sei que cresci e passei a tratá-lo como inimigo. Brigávamos muito.

A parte mais difícil é não conseguir falar sobre o abuso com ninguém, nem com psicólogos nem com minha mãe — ela até hoje não sabe. Já me disseram que algo travou na minha memória dessa época. Mas, por mais que tente, as palavras não saem. Minha mãe segue casada com ele e, quando o vejo, sinto uma mistura de sentimentos fortes, como uma invasão. Odeio cumprimentá-lo com contato físico. Queria que ele desaparecesse, mas não consigo falar nada.” Clara*, 30 anos, estilista.

Abuso de chefia

“Vivi três anos de assédio constante do meu chefe direto. A empresa onde eu trabalhava, uma grande farmacêutica, me demitiu assim que soube da situação. Foi um preço alto a pagar por um problema que tentei contornar sozinha, me esquivando.

Era propagandista médica e meu trabalho incluía visitas a clientes, almoços e eventos. Esse chefe passou a usar o tempo fora do escritório para colar em mim. Disse que estava apaixonado. Neguei qualquer interesse, mas ele nunca parou. Toda vez que entrava no meu carro, tentava me beijar. Quando viajávamos a negócios, ia até a porta do meu quarto e pedia para entrar. Mexia no meu cabelo durante o trabalho e, quando comíamos juntos, insistia em me dar comida na boca. Era nojento.

Ele dizia que deixaria a mulher por mim, eu respondia que não queria nada daquilo. Foram três anos de avanços sistemáticos que constrangeram toda a nossa equipe. Um dia, uma colega decidiu dar um basta e relatou a situação à diretoria. O chefe foi demitido e, pouco depois, eu e ela também. De repente, vi que teria apenas a nossa palavra para buscar justiça e desisti de processá-los. Hoje, penso que deveria ter filmado tudo e botado a boca no trombone logo de cara.” Cristiane Katrip, 47 anos, administradora.

Assédio no ônibus

“Vestia calça jeans e a camiseta do uniforme. Tinha 16 anos e subi no ônibus de volta da escola no terminal da Lapa, em São Paulo. Sentei no banco do corredor. De repente, percebi que o rapaz loiro que me olhava desde a fila entrou no mesmo veículo e parou de pé exatamente ao meu lado. Assim que o ônibus andou, ele jogou a jaqueta por cima do braço, para disfarçar, e começou a alisar meu ombro. Fiquei em choque. Fui me inclinando na direção oposta, quase caindo sobre a pessoa à minha direita. Sem falar nada, me mexi até que ele tirou a mão de cima de mim. Foi sentar em um banco vago.

Decidi que não desceria no ponto da minha casa. Estava num misto de medo e confusão. Era muito nova e nunca tinha passado por nada parecido. Desembarquei alguns quarteirões antes e, para meu desespero, ele desceu logo atrás. Me abordou dizendo: ‘Oi, qual o seu nome? Você é muito bonita’. Respondi, mas logo avisei que não falava com estranhos. Ele veio andando e insistindo, dizendo que queria falar comigo. Sem saber mais como agir, fui até minha escola de inglês e menti que ia para a aula. Ele me seguiu até lá dentro. Eu já não sabia mais o que fazer, e acabei dizendo que tinha namorado e que precisava entrar na aula. Finalmente, ele foi embora e fiquei esperando o tempo passar. Foi aí que pensei: deveria ter gritado, estapeado o sujeito, ignorado suas perguntas. Na hora, não pude fazer nada disso.” Renata de Mello, 28 anos, fiscal municipal.

Agência cúmplice

“Vivia um momento ótimo na carreira em maio de 2016. Havia acabado de voltar a João Pessoa, minha cidade natal, e coordenava, pela primeira vez, a conta de um cliente numa agência de publicidade, que era famosa pelas festas intensas. Numa delas, o diretor de criação me puxou para dentro do banheiro, trancou a porta e anunciou: ‘Vou te comer’. Respondi que não, assustada. Ele insistiu no sim; eu, no não. Ficou bravo, abriu a porta e me empurrou para fora. Esperava uma carona desse sujeito para a casa de amigos, onde a festa continuaria, e já passava da 1 da manhã quando finalmente saímos.

Faltando três quarteirões, ele estacionou e veio para cima de mim. ‘Vou te comer agora.’ Começou a me segurar e rasgou minha calcinha (eu estava de saia). Continuei dizendo que não e tentei me desvencilhar. Era meu colega e, por isso, argumentei como pude. Disse que ficava com o amigo dele, o que era verdade, e que o rapaz nos esperava. Mesmo assim, ele me penetrou.

Você nunca acha que uma coisa dessas vai acontecer com você. Não soube como reagir. Cheguei à tal casa abraçada às minhas sacolas e, assim que entrei, desabei a chorar. Na segunda-feira, antes de sair para a agência, senti o corpo tremer e tive outra crise de choro. Tentei me recompor no trabalho, mas, quanto mais tentava me segurar, pior era. Vomitei muito nas semanas seguintes. Pedi ajuda a uma amiga, que me disse: ‘Você foi estuprada’. Foi quando a ficha caiu. Por isso me sentia tão mal e tinha parado de produzir. Falei com o diretor da agência e fui sabatinada pela diretoria completa.

O estuprador foi afastado, mas voltou três meses depois, sem que ninguém me avisasse ou desse qualquer explicação. Voltaram minhas crises de pânico, dessa vez mais fortes. O via todos os dias e não conseguia respirar nem raciocinar. Pedi demissão e falei o motivo. Ouvi do diretor: ‘Não posso fazer nada’.” Joana*, 25 anos, redatora publicitária.

Na rua movimentada

“Foi o comentário machista de um tio que me fez quebrar quatro anos de silêncio. ‘Tem algumas que pedem’, disse, e eu explodi. Falei o que tinha ocorrido em 2011, enquanto andava numa rua movimentada de Santo André, na Grande São Paulo, de moletom e camiseta, rumo ao jornal onde fazia meu primeiro estágio. Senti duas mãos me pegando pela cintura e, por um segundo, achei que fosse um amigo. O homem anunciou um assalto, disse que estava armado e me abraçou. Eu só tinha 10 reais, ele seguiu andando agarrado em mim.

De repente, o cara me empurrou para o barranco que separava a calçada da avenida abaixo. Tentei fugir, ele me puxou e caí. Ele dizia: ‘Se gritar, vai morrer’. Foi rápido, algo entre cinco e dez minutos, mas para mim pareceu uma eternidade. Tentava me desvencilhar e ele segurava meus braços, travando meu corpo com o dele, por cima. O mato denso do lugar nos fez desaparecer da vista dos transeuntes.

Num dos movimentos, consegui liberar a mão, tateei seu tronco e confirmei que não estava armado. Gritei. Ele só disse: ‘Não era para gritar’ e saiu correndo. Estava com as calças abaixadas e havia puxado as minhas até o joelho. A polícia pegou meu telefone e nunca me ligou. Fiquei com uma luxação no braço e um trauma para a vida.” Daniela, 28 anos, jornalista.

Droga na balada

“Foi no Carnaval deste ano, no galpão da escola de samba Rosas de Ouro, em São Paulo. O ingresso custou caro, havia segurança e controle de pulseira na porta. Lá, nesse lugar onde me senti segura, conheci um cara bonito, com cabelo escuro e barba. Lembro que era branco, que falava com sotaque gaúcho e que nos beijamos. E só. Depois disso, a noite é um grande branco na minha memória.

Acordei numa casa desconhecida. Segundo o agressor, gritei e chorei tanto que ele desceu à sala e chamou minha prima, que havia ficado com o amigo dele. Ele ainda disse a ela que eu era louca e retardada. Minha prima me encontrou desacordada e começou a me vestir. Minhas lembranças começam aí: despertei, vomitei e quis ir embora.

Chegando em casa, vi os roxos nas minhas pernas, principalmente nos joelhos. E senti a genitália doer. No banho, a vulva ardia, o ânus doía demais. Entendi o que havia ocorrido e fiquei sozinha no quarto, decidida a poupar minha mãe dessa história. Contei o episódio a uma amiga e ela me sugeriu ir ao Hospital Pérola Byington, referência na acolhida de vítimas de violência sexual.

Me deram contraceptivo de emergência, vacinas e o coquetel anti-HIV. Os remédios me acompanharam ao longo de um mês e acabaram com meu organismo. Senti vertigem e dor de estômago, fiquei pálida e faltei no trabalho algumas vezes. Tudo isso enquanto cuidava dos meus machucados e absorvia o que tinha vivido.

Cresci numa família que tratou primos e primas de forma igual e não conhecia o machismo assim. Hoje, vejo que a dor física passou, mas a vontade de vingança não. Sinto muita raiva ainda. Quebrei o celular do namorado de uma amiga porque ele falou uma besteira machista. E perdi minha autonomia. Tenho 23 anos e não consigo sair sozinha de casa à noite.” Paula*, 23 anos, estudante de administração.

Marido da amiga

“Coordenava uma equipe de e-commerce numa empresa familiar e tinha 27 anos quando fiquei bem amiga de uma nova funcionária. Combinamos de ir ao Opinião, um bar conhecido de Porto Alegre, e topei quando ela me ofereceu uma cama na sua casa. Morava longe e o favor vinha bem. Bebemos e, depois da festa, me lembro de ter deitado de calcinha e sutiã no quarto que me cederam. De manhã, pedaços do que parecia um sonho apareceram na memória: o sutiã se arrebentando; alguém me pegando por trás e dando três golpes bruscos; a visão de um vulto sob a porta. Saímos juntas para trabalhar.

No fim de semana, visitava minha mãe no interior quando recebi uma mensagem da amiga. Ela ‘sabia’ do ocorrido. Me acusou de transar com o marido e, aí, os flashes de lembrança voltaram com força. Telefonei alarmada: ‘Ele me estuprou’. Ela se apressou em desligar e, em seguida, alegou que eu havia inventado a história por ciúme.

Fiquei chocada. O policial da delegacia me orientou a fazer a denúncia na capital. Peguei o primeiro ônibus e fui direto a uma delegacia da mulher. ‘Se fosse um estupro mesmo, ela teria deletado essa foto com o marido’, disse a delegada enquanto via o perfil de Facebook do casal. Registrei o B.O. e fui ao Hospital de Clínicas chorando.

Lá, depois de ler a ocorrência, a médica avisou que não tinham os remédios para vítimas de estupro. Fui a outro hospital e consegui ser atendida, não sem antes ouvir da enfermeira que talvez eu pensasse melhor antes de beber de novo. Passei um mês de horror com os efeitos do coquetel antirretroviral e precisei de tempo e informação para entender quantas irregularidades a polícia e os hospitais cometeram. Essa segunda violência, do Estado, ainda me choca.” Lorena*, 31 anos, funcionária pública.

* os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.

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