América Latina despertou para a violência contra mulher, diz organizadora de protesto argentino

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(BBC Brasil, 26/06/2016) A mobilização de milhares de pessoas em protestos pelo continente mostra que a América Latina “despertou para a violência contra a mulher”, afirma uma das organizadoras das manifestações conhecidas como Ni Una Menos (Nenhuma a menos), nascidas em Buenos Aires e replicadas em outros países da região.

“A América Latina despertou para esta violência que antes parecia normal, parecia ser parte do nosso cotidiano”, diz à BBC Brasil a jornalista e escritora Hinde Pomeraniec, parte de um grupo de dez mulheres que convocou os protestos.

Protesto no dia 3 de junho reuniu milhares de pessoas na Argentina

Protesto reuniu milhares de pessoas na Argentina no início do mês (Foto: Reuters)

“Recentemente, a marcha Ni Una Menos ocorreu em outros países. Foram realizadas manifestações no México e na Colômbia, por exemplo”, acrescentou a ativista, que acompanhou os protestos ocorridos recentemente no Brasil após o estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio.

Coincidentemente, a segunda edição do protesto argentino foi realizado no início deste mês, mesmo período em que o tema da violência contra a mulher dominou o noticiário brasileiro.

A passeata ocorreu em 3 de junho, exatamente um ano após a primeira – organizada em reação à morte de uma adolescente grávida, assassinada e enterrada no quintal da casa do namorado, confessado por ele e que chocou os argentinos.

Em muitos casos, famílias inteiras, incluindo crianças pequenas, aderiram ao protesto. O movimento, organizado pelas redes sociais, ganhou apoio dos principais comunicadores do país.

Familiares das vítimas e mulheres que sofreram agressões participaram da manifestação levando cartazes com fotos pedindo justiça.

Questionada sobre os desdobramentos práticos das manifestações, Pomeraniec afirma que o movimento tem conseguido alertar a sociedade para a violência, seja ela física ou não.

“Acho que todos estamos cada vez mais atentos. O feminicídio antes saía nas páginas policiais da imprensa. Agora é em sociedade. Ao mesmo tempo, fica evidente que a polícia já não pode mais definir um feminicídio como crime passional”, diz.

'Ni Una Menos'

Entre 2015 e 2016, 275 mulheres morreram vítimas de violência na Argentina (Foto: AFP)

Na sua opinião, é um avanço também o fato de a própria palavra “feminicídio” ser conhecida hoje por muitas crianças – o que não ocorria no passado.

“A educação é fundamental porque fatos que antes outras gerações consideravam normais, não são, e as crianças começam a entender isso”, diz.

Segundo ela, ao se falar no assunto, as mulheres ameaçadas perdem o temor de denunciar o vizinho e não se sentem mal em tocar a campainha da casa ao lado se escutarem indícios de violência doméstica. “Existe maior conscientização social para o problema”.

Mortes

Ainda assim, ela reforça que muitas mulheres ameaçadas acabam mortas, mesmo tendo registrado queixa e solicitado proteção da polícia ou da Justiça.

“Entre uma marcha Ni Una Menos e outra (2015 e 2016), morreram 275 mulheres (vítimas de violência na Argentina)”, afirma.

Entre as propostas de seu grupo está a de que homens denunciados por violência sejam obrigados a usar tornozeleiras, para evitar que se aproximem das vítimas – elas próprias já usam um botão antipânico no país.

O dispositivo é entregue pela polícia ou pela Justiça àquelas pessoas que fazem denúncias de agressoes ou ameaças sofridas. Elas apertam o dispositivo que diz SOS, e a polícia é imediatamente acionada. Para isso, ela saberá que està sendo monitorada permanentemente pelos órgãos que devem protegê-la.

No entanto, às vezes essa medida não é suficiente. No ano passado, uma professora de educação infantil foi assassinada pelo ex-marido diante dos alunos, sem ter tido tempo de acionar o botão de pânico, explica Pomeraniec.

Índice

A ativista acredita que a cultura machista está tão instaurada no continente que muitas mulheres sequer se dão conta de que são vítima da violência de gênero – só percebem quando são questionadas mais a fundo.

'Ni Una Menos'

Fotos das mulheres mortas vítimas de violência na Argentina (Foto: AFP)

Marcia Carmo

Acesse no site de origem: América Latina despertou para a violência contra mulher, diz organizadora de protesto argentino (BBC Brasil, 26/06/2016)

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