A catarse brasileira contra o assédio que veio antes de Hollywood

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Antes do episódio do poderoso diretor de Hollywood vir à tona, um escândalo sexual abalou a maior emissora de televisão do Brasil, coroando a primavera feminista iniciada em 2015

(El País, 24/12/2017 – acesse no site de origem)

Muito antes do escândalo que rasgou o silêncio sobre abuso sexual no mundo do entretenimento dos Estados Unidos, o Brasil viveu seu próprio caso Weinstein dentro da emissora de televisão mais poderosa do país. No dia 30 de março, tornou-se pública a denúncia contra o ator José Mayer, um dos maiores galãs da televisão, que brilhava nas telenovelas da rede Globo. Segundo a vítima, a figurinista Susllen Tonani, o ator a perseguia nos bastidores da emissora, com investidas vulgares no estilo “fico olhando a sua bundinha e imaginando o seu peitinho” e “você nunca vai dar pra mim?”.

O caso veio à tona quando Tonani, de 28 anos, decidiu escancarar o drama que vivia há mais um ano toda vez que precisava interagir com o ator de 68 anos. A gota d’água foi quando Mayer, dentro de um camarim, colocou a mão na genitália da figurinista para forçar o contato físico. Tomada por uma rara coragem, a figurinista quebrou o silêncio ao divulgar seu relato em uma carta publicada na Folha de S. Paulo.

Poucos dias após a carta, atrizes famosas do grande público, incluindo colegas de longa data de Mayer, e funcionárias de vários departamentos da Globo abraçaram o slogan Mexeu com uma, mexeu com todas. Em um gesto de solidariedade à figurinista, ao menos uma centena de mulheres foram trabalhar uniformizadas com esses dizeres estampados em uma camiseta. Pouco depois da manifestação, a Globo repercutiu em seus telejornais uma nota declarando a suspensão do ator, que segue até hoje na geladeira.

O caso Mayer encontrou as mulheres de prontidão. A empatia solidária já estava presente em protestos de rua na canção “companheira, me ajude. Eu não posso andar só. Sozinha, ando bem, mas com você, ando melhor”, repetida em um gesto de sororidade que só se multiplicava exponencialmente desde a Primavera Feminista de 2015.

Naquele ano, a campanha na internet #MeuPrimeiroAssédio, promovido pelo grupo feminista Think Olga, encorajou mulheres a contar seus relatos de abusos sexuais sofridos, em muitos casos, desde a infância. A constatação de que se tratava de uma dor coletiva fez milhares de brasileiras protestarem contra quaisquer ameaças de retrocesso, como os projetos de lei moralistas no Congresso Nacional. Um deles, que previa dificultar o atendimento de mulheres vítimas de estupro na rede pública de saúde, teve um efeito catártico. Ali nascia a Primavera Feminista em protestos de rua, que nunca mais parou.

Um ano depois, em 2016, outro caso famoso mostrou que o machismo no Brasil não escolhe classe social. A modelo e atriz brasileira Luiza Brunet, de 54 anos, então casada com o bilionário empresário Lírio Parisotto, tornou públicas fotos de lesões, incluindo um olho roxo, provocadas pelas agressões do seu parceiro. Era mais uma evidência irrefutável da violência a que as mulheres estão submetidas no Brasil. Ele foi condenado a um ano de detenção em regime aberto, e ela, passou de estatística para a militância, se engajando na luta contra a violência doméstica.

As ruas e as redes viveram uma eletricidade feminista jamais vista desde então. Mas, o movimento despertou também a ira de grupos conservadores, impondo uma dinâmica de avanços e retrocessos. Ao mesmo tempo em que o grito das mulheres nas ruas obrigou empresas a voltarem atrás em campanhas publicitárias sexistas, e até o presidente Michel Temer foi obrigado a incluir uma mulher em seu ministério quando assumiu o Governo em 2016 – ele só havia escolhido homens —, há uma visível tentativa de retrocesso do que já foi conquistado. O Congresso, por exemplo, agora trata de passar um projeto que proíbe o aborto até mesmo em caso de estupro, uma das únicas condições asseguradas por lei.

Seja como for, a poderosa rede Globo entendeu que era preciso tomar um lado, e seu novo folhetim televisivo virou uma espécie de mea culpa. A emissora decidiu radicalizar a mensagem voltada às mulheres na novela Do outro lado do paraíso, exibida desde outubro, na qual a protagonista é vítima de agressões por parte do marido. Por meio da ficção, o drama alerta sobre a violência doméstica, um problema que atinge 503 mulheres a cada hora no país sulamericano.

A mais recente demonstração de que a maior emissora do país está, ao menos tentando, acertar as contas com os próprios erros ocorreu na última sexta-feira. Uma das suas estrelas do jornalismo, o apresentador William Waack, foi demitido, depois que um vídeo em que ele fazia um comentário racista vazou na internet. Waack, assim como Mayer, estava suspenso, desde novembro. Em uma realidade onde, estatisticamente, a mulher negra ganha salários ainda menores, sofre mais violência e tem menos oportunidades que as mulheres brancas e, claro, que qualquer homem, o comentário de Waack foi um tiro no pé. Não basta fazer novela e debater o tema, se a prata da casa anda na contramão deste movimento.

Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, quebrar o silêncio tem sido um processo doloroso, com camadas de culpas antes da libertação. Quando a atriz norte-americana Ashley Judd denunciou o assédio sofrido pelo magnata Harvey Weinstein, ela afirmou que não reconhecera na hora o que estava acontecendo. “Levei anos para me dar conta de que era ruim e ilegal”, disse. Como Judd, a figurinista brasileira Susllen Tonani disse algo parecido. “Sinto no peito uma culpa imensa por não ter tomado medidas sérias e árduas antes, sinto um arrependimento violento por ter me calado”.  Se para cada país há um Weinstein, em cada mulher há de haver também uma Su Tonani ou Ashley Judd.

Marina Rossi

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