Dandara pedia por mim, diz mãe de travesti assassinada no Ceará

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RESUMO Em 15 de fevereiro, a filha da aposentada Francisca Ferreira de Vasconcelos, 74, foi agredida e assassinada a tiros, em Fortaleza (CE). Nascida Antônio Cleilson Ferreira de Vasconcelos, 42, adotou o nome Dandara Kethlen. Quatro homens foram presos e outros quatro adolescentes, apreendidos, suspeitos de participarem da morte da travesti. Eles gravaram um vídeo com as agressões, que viralizou na internet.

(Folha de S.Paulo, 26/03/2017 – acesse em pdf)

Franscisca Ferreira de Vasconcelos, 72, Aposentada, mãe de Dandara Kethlen, 42, travesti morta a tiros em 15 de fevereiro passado, na periferia de Fortaleza, segura foto de Dandara em sua casa, no Conjunto Ceará. Um mês depois do crime, a família espera punição dos assassinos (Foto: Jarbas Oliveira/FolhaPress)

Franscisca Ferreira de Vasconcelos, 72, Aposentada, mãe de Dandara Kethlen, 42, travesti morta a tiros em 15 de fevereiro passado, na periferia de Fortaleza, segura foto de Dandara em sua casa, no Conjunto Ceará. Um mês depois do crime, a família espera punição dos assassinos (Foto: Jarbas Oliveira/FolhaPress)

Está difícil viver nessa casa, pretendo vendê-la. Morava aqui [imóvel de seis cômodos no bairro Conjunto Ceará, na zona oeste de Fortaleza] com Cleilson, a Dandara, com mais uma filha e uma neta. Tudo me lembra ele.

Ainda estão aqui as roupas que meu filho vendia. Roupas usadas, que ganhava de amigos. Ele era muito querido.

Neste mais de um mês desde que ele morreu, já chorei muito, já fiquei com raiva, dei muitas entrevistas, já falei com o governador [Camilo Santana, do PT, que recebeu Francisca no Palácio da Abolição, no dia 10 de março], mas o que mais me deixa agoniada é que Cleilson me pediu para ter um animal de estimação, um gato, e não deixei. Isso me agonia agora.

As lembranças dessa casa são também de meu outro filho que morreu, o Alisson. Ele também era travesti, se chamava de Sheila. Ele morreu numa queda. Ele tinha convulsões, e em uma delas acabou caindo, batendo a cabeça e morrendo. Em maio agora faz dois anos.

NASCEU MULHER

O Cleilson, a Dandara, era extrovertido. Falava “que já havia nascido mulher”. Estudou só até a oitava série. Tinha uma veia de humorista. Pessoas vinham até em casa para ouvi-lo contar piadas. Eu sempre achei que ele seria humorista.

Uma vez perguntei por que havia escolhido Dandara, e ele disse que era um nome internacional. Era Dandara Kethlen. Não entendo até agora porque a imprensa escreve Dandara dos Santos, esse dos Santos nunca existiu.

Uma das minhas netas disse que é porque agora o Cleilson vai virar um santo. Nós, familiares, só o chamávamos de Cleilson. Os amigos o chamavam de Dandara.

O Alisson era mais fechado. Ele era sete anos mais novo que Cleilson, mas quando completou 25 decidiu ir para São Paulo. Disse que um amigo arrumaria emprego. Lá colocou silicone, fui contra. Ele gastou R$ 6.500, e tentou ir para a Espanha, dizia que trabalharia por lá.

Olha só o que falaram para o meu filho Alisson: que ele chegasse lá no aeroporto, em Barcelona, e falasse que passaria férias na Espanha, em um hotel cinco estrelas. Mas ele tinha R$ 900 no bolso. Na entrevista no aeroporto viram o pouco dinheiro, não acreditaram na história, e o deportaram.

AIDS E PRECONCEITO

O Cleilson também morou em São Paulo e no Rio. Mas os dois acabaram voltando para casa, principalmente quando ficavam doentes. Eles tinham HIV. Eu gostava de tê-los aqui perto, nunca achei que algum mal aconteceria, apesar de todo o preconceito por eles terem assumido a homossexualidade.

Nunca percebi que os dois poderiam ser homossexuais, quando crianças. Nenhum dos dois me contou diretamente, eu descobri.

No caso do Cleilson, uma menina um dia veio aqui e pediu para falar com ele. Ficaram ali dentro mais de uma hora. De repente ela saiu chorando. Me falou que se declarou, mas ele disse que não gostava de meninas, gostava de homens. Tinha 17 anos.

“Não sinto atração por mulheres, mãe”, ele me dizia assim desde então.

Nunca rejeitei meus filhos, sempre tive muito carinho por eles. O que vamos fazer, matá-los pela opção que escolheram seguir?

Meu ex-marido foi embora faz 20 anos. Ele sempre teve uma relação distante com os filhos, mas anos depois uma colega me disse que ouviu da boca dele que iria embora porque dois dos filhos estavam virando ‘baitolas’.

MORTES

Eu tive dez filhos. Três já morreram. Além de Cleilson e do Alisson, perdi uma garotinha quando ainda era pequena. Tenho 23 netos e três bisnetos. A família é grande, mas agora tenho um vazio.

Meu filho estava debaixo de umas árvores, que ficam aqui no fim da rua, depois do almoço. Pegaram ele lá e levaram para o Bom Jardim [bairro distante 4 km do Conjunto Ceará]. É um bairro bonito, mas falam que está muito perigoso. Muito.

Estava em casa, quando um homem chegou e pediu para ver uma foto do Cleilson. Mostrei, ele disse que não era o homem morto no Bom Jardim, mas vi que ele mentia. Depois ele cochichou com os vizinhos e eu soube.
Me dói que eu não estava lá. Falam que ele pedia por mim, que ele pedia água. Os moradores do local onde ele morreu se esconderam nas casas, mas ligaram para a polícia, que chegou só tempos depois, e porque os moradores diziam que os bandidos ateariam fogo no corpo.

Eles atiraram pedra no meu filho, chutaram, bateram. O caixão precisou ficar fechado no velório e no enterro, ele estava desfigurado.

MENTIRAS

Não vi todo o vídeo, só uma cena, quando participei de um programa [de TV em São Paulo]. Ouvi muitas mentiras, de que meu filho tinha dívida por droga, de que havia brigado. Meu filho vendia roupas usadas para me ajudar, e dizia que o sonho era poder ter dinheiro para terminar essa casa. Morreu por ódio e preconceito.

Foi ainda mais dor para enterrá-lo. O único lugar inicialmente que teríamos para enterrá-lo era num cemitério no Bom Jardim, justamente no bairro em que ele morreu.

Quando o Alisson se foi, o [jazigo] que temos em Antônio Bezerra [bairro da zona oeste de Fortaleza] já estava cheio, então tivemos que enterrá-lo em um emprestado lá no Bom Jardim.
O Alisson continua lá, vai ficar mais três anos até eu poder tirá-lo. Mas o Cleilson não queria colocar lá. Conseguimos dinheiro emprestado, R$ 1.500, para enterrá-lo em um cemitério novo. Seria horrível ter que voltar ao Bom Jardim toda vez que quisesse visitar meu filho.

Espero Justiça, que todos que fizeram mal ao meu filho paguem por isso. E que seja algo que faça as autoridades olharem mais para o preconceito e o ódio. O pior é o ódio que sentiam pelo meu filho. O que ele fez para merecer morrer desse jeito?

Depoimento a
Marcel Rizzo
Colaboração para a Folha, em Fortaleza

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