“Meu marido me estuprou, mas eu não tenho como me separar”, por Regina Navarro Lins

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“Nossa relação era razoável, mas num determinado momento começou uma crise que não acabou mais. Passei a evitar fazer sexo. Ele me cobrava argumentando que era quem pagava as contas. Um dia tentou forçar a relação sexual e eu gritei; fiz um escândalo. Ele recuou. Nos meses seguintes, correu tudo normal, mas como sempre sem sexo. Até que ele perdeu o prumo. Numa noite me pegou à força, tapou minha boca e me estuprou. Desde então só penso em como me livrar desse casamento. Trabalho o dia inteiro, inclusive aos sábados, mas o que ganho não dá para me sustentar sozinha. Não sei o que fazer.”

(UOL, 07/08/2017 – acesse no site de origem)

Ao ouvir esse relato é impossível não nos perguntarmos: Por que um homem se sente com direito de estuprar uma mulher, ainda que ela seja sua própria esposa? Para responder a isso, é necessário compreender as características do sistema em que vivemos há mais ou menos cinco mil anos: o sistema patriarcal.

Trata-se de uma organização social baseada no poder do pai, e a descendência e parentesco seguem a linha masculina. As mulheres são consideradas inferiores aos homens e, por conseguinte, subordinadas à sua dominação.

Superior/inferior, dominador/dominado. A ideologia patriarcal dividiu a humanidade em duas metades, acarretando desastrosas consequências. É evidente que a maneira como as relações entre homens e mulheres se estruturam — dominação ou parceria — tem implicações decisivas para nossas vidas pessoais, para nossos papéis cotidianos e nossas opções de vida.

O antagonismo entre os sexos impede uma amizade e um companheirismo verdadeiros, fazendo com que a relação entre homem e mulher se deteriore. As relações conjugais têm sido de condescendência de um lado e obrigação de outro, cheias de desconfianças, ressentimentos e temores.

Não há dúvida de que as mentalidades estão mudando; muitos homens já compreenderam que a virilidade tradicional é bastante arriscada e cada vez mais aceitam que atitudes e comportamentos sempre rotulados como femininos são necessários para o desenvolvimento de seres humanos.

A consequência é a gradual destruição de valores tidos como inquestionáveis no que diz respeito ao amor, ao casamento e à sexualidade, trazendo a perspectiva do fim da guerra entre os sexos e o surgimento de uma sociedade onde possa haver parceria entre homens e mulheres.

*** Você também vive um conflito amoroso e sexual? Escreva para [email protected] e conte sua história em até 12 linhas. Ela pode ser comentada aqui no blog e sua identidade não será revelada.

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda” e “O Livro do Amor”. Atende em consultório particular há 42 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

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