‘Nossa cultura é permissiva com relações abusivas’, diz especialista sobre caso Jessyka

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Famílias não acreditam que agressões chegarão a feminicídio, diz doutora em psicologia Valeska Zanello. Leia a entrevista.

(G1, 13/05/2018 – acesse no site de origem)

O feminicídio de Jessyka Laynara, de 25 anos – assassinada no início do mês ao levar cinco tiros do ex-namorado, o soldado Ronan Menezes do Rego – é resultado de uma cultura “extremamente permissiva com relações abusivas contra as mulheres”, avaliou a especialista em saúde mental e gênero Valeska Zanello, doutora em psicologia pela Universidade de Brasília (UnB).

Leia mais: 2 mil pessoas marcham por Jéssyka Laynara e contra o feminicídio (Correio Braziliense, 12/05/2018)

“A gente precisa sensibilizar a sociedade de que a violência [doméstica] não é um problema de quem a está vivendo, é de todos nós. Em briga de marido e mulher se mete a colher, sim.”

Em entrevista ao G1, a especialista disse que o conceito de masculinidade no Brasil está “adoecido” e, por isso, constrói homens controladores e agressivos. “A violência [doméstica] é, muitas vezes, virilista. É uma tentativa de resgatar um lugar identitário pros homens.”

“O Ronan não é exceção. Ele é só a ponta do iceberg”

Na outra ponta deste iceberg, estariam as mulheres vítimas de agressões – que, segundo Valeska, também estão adoecidas pelo que a “cultura sexista” impõe a elas.

Para Valeska, o caso de Jessyka e outros feminicídios poderiam ter sido evitados caso familiares, amigos e vizinhos que tinham conhecimento da violência tivessem denunciado logo nas primeiras agressões.

“A família, às vezes, não acredita que isso [morte] vai acontecer. Por isso, é importante que não se desqualifique a violência.”

Valeska Zanello é formada em filosofia e psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e coordena um grupo de pesquisa sobre saúde mental e gênero na mesma instituição. Ela também é integrante do Grupo de Estudos Feministas e da Comissão de Direitos Humanos da universidade.

Em 2015, participou do ciclo de palestras TEDx com a conferência “Por que xingamos homens e mulheres de formas diferentes?” e, recentemente, lançou o livro “Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação”.

Leia a entrevista com Valeska Zanello:

G1: Vamos começar com a pergunta que é recorrente depois de casos de violência doméstica e feminicídio: por que Jessyka não denunciou?

Valeska Zanello: Porque ela estava adoecida no dispositivo amoroso. A mulher nunca sai com um homem e ele dá, de primeira, um soco na cara dela. O que ocorre é um aumento da tolerância à violência.

Eu faço uma analogia com as drogas [ilícitas] e o álcool. Eu não costumo beber e, quando resolvo tomar uma cerveja long neck, fico bêbada. Se no outro dia eu beber de novo, daqui a pouco vou ter de tomar 10 long necks pra ter o mesmo efeito.

O relacionamento abusivo começa insípido, com um brincadeira, uma palavra. Vejo mulheres em relações mega abusivas que dizem “ele não me bate, só me empurrou”, porque o nível de tolerância está alto.

G1: Por que os familiares, amigos e vizinhos que tomam conhecimento da violência doméstica, muitas vezes, não denunciam?

Valeska: A família, às vezes, não acredita que isso [morte] vai acontecer. Por isso, é importante que não se desqualifique a violência.

Essa tragédia poderia ter sido evitada se a amiga [da Jessyka] tivesse denunciado. Poderia ter procurado a Deam [Delegacia Especial da Mulher] ou até o Ministério Público, mesmo que perdesse a amizade.

A gente precisa sensibilizar a sociedade de que a violência doméstica não é um problema de quem tá vivendo, é de todos nós. Nossa cultura é extremamente permissiva com relações abusivas contra mulheres.

Em briga de marido e mulher se mete a colher, sim. Tem que meter.

Essa mulher, vítima de violência doméstica, está adoecida. A última coisa que se deve fazer é abandoná-la. Já ouvi juízes falando que “é a quinta vez que ela vem e não faz nada”, dizendo que é “mulher de malandro” – um estereótipo que não dá conta de que ela está adoecida.

O que se mostra é que, quanto mais cedo intervir, quanto mais cedo se quebrar o segredo do ciclo de violência, melhor. Quando não há denúncia formal, o agressor se sente fortalecido. O Ronan se sentiu no direito total de fazer aquilo. Fiquei impressionada com a facilidade que ele teve de entrar na casa da Jessyka.

Pelo nível de violência que ela estava vivendo, não dava pra esperar que fizesse [a denúncia] por ela mesma.

G1: Falando do agressor, o que leva um homem a não apenas violentar a companheira, mas a matá-la?

Valeska: As masculinidades no Brasil estão adoecidas e o Ronan não é exceção. Ele é só a ponta do iceberg. São dois fatores cruciais: o controle, que é algo muito importante para os homens, e a questão narcísica – de que ele tem que ser tudo para aquela mulher.

Todo feminicídio está ligado a uma cultura sexista.

Tenho 20 anos de clínica e vejo que é muito angustiante pro cara quando ele não é o centro [da vida da mulher]. Quando ele é uma das coisas importantes pra ela, isso abala muito.

Eles se perguntam “como ela é capaz de se divertir sem mim, de ter um orgasmo sem ser comigo?”. A violência [doméstica] é, muitas vezes, virilista. É uma tentativa de resgatar um lugar identitário pros homens.

O que significa pro homem se tornar homem? A masculinidade se constrói no negativo, no oposto do que é ser “mulherzinha”, no embrutecimento de si – tanto na relação com os próprios sentimentos como na relação com as mulheres. A masculinidade é ser reconhecido pelos pares, dentro da “casa dos homens”.

Quando ele não consegue ter esse reconhecimento e não tem o controle da mulher, isso coloca em xeque a honra dele. Isso, claro, dentro de um tipo de masculinidade hegemônica no Brasil, que é um dos países que mais mata mulheres, mais mata LGBTIs e mais mata jovens negros.

E quem está matando? Os homens, porque as nossas masculinidades estão doentes.

G1: Como a cultura brasileira se reflete nas violências contra a mulher?

Valeska: Eu digo que o sexismo é ruim pra todos, mas o sentimento de quem oprime e de quem é oprimido é diferente. Gênero, no Brasil, é uma relação de poder, e o grupo de homens lucra com este sexismo. Ser heterossexual e ter relações abusivas no Brasil é pleonasmo.

As mulheres se subjetivam em dois dispositivos: no amoroso e no materno. O primeiro é o que interessa neste caso. Ela se subjetiva na relação com ela mesma, mediada pelo olhar de um homem que a “escolha” amorosamente.

As mulheres se subjetivam na prateleira do amor, que é desigual – mediada por um ideal estético construído desde o século passado em cima do loiro, magro e jovem. Então, as mulheres e, principalmente, as mulheres negras estão no pior lugar da prateleira.

Essa prateleira também fala do grau de objetificação sexual das mulheres, que aprendem a se auto-objetificar para ser escolhidas por um homem. As mulheres ficam com a responsabilidade de encontrar um homem e de manter este cara com elas. Por isso, terminar uma relação acaba sendo o mesmo que fracassar como mulher.

Na nossa cultura, os homens aprender a amar muitas coisas e as mulheres aprendem a amar os homens.

A Jessyka ainda exaltou que não consegue fazer nada, porque suportar uma relação abusiva é viver “A Bela e a Fera”. Ela exaltou isso. A mulher vai entrando numa patologia em que o homem é extremamente violento, mas vira o coitadinho.

[Em um áudio enviado a uma amiga, Jessyka disse: “Eu sou de boa demais, até o pai dele falou […] E eu falei pro pai dele que não queria prejudicar […] É por que eu sou de boa. Eu falei pra ele, eu falei bem assim: você tem sorte, porque eu sou uma pessoa muito de boa, porque outra pessoa no meu lugar teria ido na delegacia, corregedoria.]

G1: Ter um histórico de feminicídio na família, como tinha Jessyka, pode interferir na maneira como esta mulher vai lidar com a violência do “parceiro”?

Valeska: Acho difícil fazer este tipo de afirmação. Acredito que é mais o sintoma de uma sociedade que cria condições de adoecimento das mulheres na forma de amar do que no histórico da família delas.

G1: Qual é o principal sinal de uma relação abusiva?

Valeska: É o controle. É não conseguir controlar a subjetividade da mulher – aí, a mulher é transformada numa coisa. E o ciúme é uma forma de controle.

O feminicídio não é uma coisa que acontece do nada. São relações que têm um histórico de abuso, por isso é importante ficar atento aos sintomas. Ele [o Ronan] já havia mostrado que era impulsivo, descontrolado, controlador, que perdia as estribeiras.

Se a pessoa é muito ciumenta, pede senhas, precisa saber onde você está e com quem está. Se o seu celular acaba bateria e ele fica enlouquecido ou tem imaginação muito fértil para traição… Estes são sinais.

É preciso ficar atenta a alguns sinais enquanto você ainda não está completamente doente, porque aí é hora de pular do barco.

Muitas mulheres que estão na prateleira do amor têm como botão de vulnerabilidade serem escolhidas. Passa um cara “perebado” e ele se transforma em príncipe encantado quando ele a escolhe.

É comum ver mulheres que se relacionam com os homens que elas querem que eles se tornem. Elas têm uma expectativa onipotente de que vão conseguir mudar o cara, mas a tendência é piorar, ainda mais quando ele é violento.

G1: O que o governo e a sociedade precisam fazer para mudar este cenário?

Valeska: É preciso intervenções públicas nas escolas para criar caminhos de subjetivação diferentes dos existentes. Outras formas de existir para as mulheres, que não se baseiem em ser ou não ser escolhida por um homem. Porque isso é o que ainda é vendido nos filmes, na mídia.

A objetificação da mulher é deprimente.

E, para os homens, [é preciso encontrar] formas menos violentas de masculinidade, porque os homens no Brasil estão doentes.

Luiza Garonce

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