Por que ela simplesmente não vai embora?, por Gleide Ângelo

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Caros leitores,

No artigo de hoje falarei sobre mulheres que são vítimas de violência doméstica e não conseguem se libertar, ir embora. Converso com muitas mulheres que sofrem esse tipo de violência e observo que o problema está em todas as classes sociais.

(NE10, 21/11/2016 – acesse no site de origem)

O que difere é que nas classes mais altas, as mulheres têm mais vergonha de denunciar. Isso não significa que a violência não existe, apenas que ela é mais silenciosa.

Um caso que me chamou muito a atenção e que pode servir de exemplo para muitas mulheres é de uma mulher que trabalha combatendo a violência doméstica, e ela me confidenciou que é vitima dessa violência há cerca de dez anos. Fiquei por algum tempo olhando e tentando processar aquela informação.

“Como é que uma pessoa que lida diariamente combatendo e vivenciando os problemas da violência doméstica, é vitima dessa violência e não consegue se libertar?”

A resposta para essa pergunta foi dada por ela mesma: “Me casei muito nova, e meu marido me afastou da minha família. Eu dependia dele para tudo, e só tinha a família dele. Quando fui enxergar, era totalmente dependente dele. Hoje, tenho um excelente emprego, com um bom salário, trabalho combatendo a violência doméstica, mas tive muitas dificuldades para deixá­-lo. Quando comecei a trabalhar e ter o meu dinheiro, ele já não conseguia me isolar em casa, por isso o que era apenas gritos, passou para agressões físicas. Muitas vezes fui trabalhar com lesões no corpo, morrendo de vergonha, mas na minha posição, não tinha como falar. Até que chegou um dia em que ele disse que ia me matar, apertou o meu pescoço e puxou uma faca para mim. Precisou chegar a esse ponto para eu enxergar que ele me mataria se eu continuasse com ele. Hoje, estou fazendo um tratamento psicológico e estou me sentindo mais fortalecida. Consegui me afastar dele, e estou tentando me recuperar, mas não quero nunca mais ter outro relacionamento, não confio mais em ninguém”.

Esse relato é o mesmo de muitas mulheres que sofrem violência doméstica. Mas o que mais me chama a atenção é que muitas mulheres só conseguem tomar a decisão de deixar, quando chegam perto da morte, quando são feridas com facas ou com armas de fogo. É como se a rotina de agressões físicas já fizessem parte da rotina em que ela vive. Mas, quando essa violência evolui para uma “quase morte”; ela diz para si mesma: “Se continuar com ele eu morro”.

Com isso, a mulher chega emocionalmente ao fundo do poço, onde ela é obrigada a tomar uma decisão. E, escuto de muitas mulheres: “Agora ele exagerou, passou dos limites”;. Porém, a mulher precisa enxergar que o limite é a primeira agressão, o primeiro grito, o primeiro empurrão. Quando não se deixa passar da primeira agressão, a mulher está exigindo do companheiro o respeito que ela merece. Os limites devem ser colocados no início do relacionamento, onde a mulher deve observar as atitudes do companheiro para ver se ele é violento, dominador ou ciumento em excesso. É para isso que serve o relacionamento, para conhecimento mútuo, sem ilusões ou fantasias.

E POR QUE ELA NÃO VAI EMBORA

No livro “Feridas Invisíveis” da escritora Mary Susan Miller, ela explica o porque de muitas mulheres continuarem em um relacionamento doentio e violento. “A mulher vítima de abuso, que permanece no relacionamento, não o faz porque deseja, mas porque sente­-se incapaz de ir embora. Ao olhar-­se no espelho que o parceiro abusivo segura à sua frente, ela não consegue se ver; tudo o que ela pode ver é a “pessoa ruim” que ele pintou lá. O psicólogo Dr. Lois Veronen explicou que um marido violento pinta aquela imagem dizendo repetidamente o que ela deve pensar e sentir, até não restar nada dos “ Como é que uma pessoa que lida diariamente combatendo e vivenciando os problemas da violência doméstica, é vitima dessa violência e não consegue se libertar ? ”  seus próprios pensamentos e sentimentos. Embora desejando escapar para construir a vida que ela começou, talvez há muitos anos, antes de ingressar no relacionamento, para ser independente, ter amigos, encontrar um homem que a ame ­ ela sabe que não é suficientemente boa ou inteligente para fazê-­lo. Assim ela fica.

Amigas, um relacionamento saudável é embasado em companheirismo, respeito e amor. Onde há violência, não há amor. Não permaneça perto de homens violentos e dominadores. A violência psicológica é silenciosa e vai te destruindo aos poucos. A cada dia o agressor vai fazer você acreditar que é uma pessoa ruim, amarga, feia, gorda, infeliz. E você vai acabar internalizando tudo isso e acreditando. Com a auto estima baixa e destruída, ele passará para as agressões físicas que deixarão marcas não só no corpo, mas na alma.

Não permita que ninguém destrua sua vida, busque ajuda para se fortalecer. No exemplo acima, a mulher culta, bem sucedida, só conseguiu ir embora depois de um tratamento psicológico que a fortalecesse. Isso é a prova de que a violência não escolhe classe social, ela está em todos os lugares. Não seja mais uma vítima de qualquer tipo de violência, se fortaleça, se transforme na mulher forte, valente e com objetivos que você sempre sonhou. Olhe para trás e veja quantos sonhos ficaram perdidos. Retome o seu planejamento e siga em frente, sem olhar para trás. Tudo isso faz parte de um passado que não te pertence mais, pois o seu lugar é no futuro que você planejou e agora está construindo. Seja autora e construtora de sua vida!.

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