Quem não é homem?, repetia agressor antes de mais um feminicídio em SP

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“Quem não é homem?”, perguntou André Luis Martins Santos repetidas vezes, enquanto estrangulava a mãe de seu filho, Mizaelly Mirelly da Silva, de 22 anos. Antes de morrer, a vítima ainda respondeu: “Você não é homem”, segundo depoimento de André à polícia, após ter confessado o assassinato.

(Folha de S.Paulo, 23/08/2017 – acesse no site de origem)

Além de Mizaelly, o homem matou um bebê de sete meses, Miguel, registrado como seu filho. Segundo a investigação, os jovens tiveram um relacionamento, mas André era contra a gravidez e teria pedido que a mulher abortasse. Pernambucana, Mizaelly trabalhava em um supermercado em São Paulo e morava com a irmã, que estava fora da cidade no dia do crime.

Os corpos foram encontrados em 16 de agosto, na casa de Mizaelly, no Jaguaré, zona oeste de SP. A mulher estava seminua, com um lençol amarrado no pescoço. O filho foi achado em uma banheira de bebê, também despido.

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No depoimento à polícia, André, de 25 anos, afirma que foi até a casa de Mizaelly, e os dois teriam dormido juntos, até o bebê acordar de madrugada. Neste momento, André afirma ter começado uma discussão com a vítima, porque ela se negava a continuar o relacionamento com ele.

“A vítima teria dito que não podia mais sair com ele, porque estaria saindo com uma outra pessoa. E que essa pessoa era um homem de verdade, que queria assumir um relacionamento sério e que o bebê talvez nem fosse filho dele [de André]”, relatou a delegada Ana Paula Rodrigues, da 5ª delegacia de crimes contra a criança e o adolescente.

Durante a briga, André contou ter imobilizado e estrangulado Mizaelly. Em seguida, levou o bebê para o banheiro, mas afirma não ter lembrança do que fez com a criança. Voltou ainda ao quarto para amarrar uma ponta do lençol no pescoço da mulher e a outra na cabeceira da cama, para “finalizar”. “Esse foi o termo que ele usou”, disse a delegada. André está preso temporariamente por 30 dias.

Não é exceção a forma como Mizaelly foi morta, descrita pela delegada responsável como feminicídio, quando a motivação do assassinato de uma mulher está ligada ao fato de ela ser mulher.

Ao menos outros quatro casos foram registrados em São Paulo em apenas dois dias.

Na segunda (21), o policial militar Mauricio de Oliveira Gama, 47, matou a ex-mulher Celina Moura Mascarenha Gama, 35, com dois tiros na cabeça. Segundo a polícia, o filho de sete anos do casal presenciou o crime, cometido na casa da vítima, no Bom Retiro, centro de São Paulo.

Na delegacia, o menino disse que viu a mãe caída no chão após os disparos. Ele perguntou ao pai o que tinha acontecido e ouviu: “Isso aqui é para a sua mãe descansar um pouco.”

Maurício Gama informou em depoimento que estava separado de Celina por quase um ano, e o casal disputava a guarda do filho. Após o crime, o PM se entregou e foi levado para um presídio exclusivo para policiais. O caso também será acompanhado pela Corregedoria da PM.

O militar vai responder na Justiça por homicídio, lesão corporal e violência doméstica. Mas o delegado Eder Pereira e Silva, que investiga o caso, não descarta o crime de feminicídio. “A lei é muito clara. Ela foi morta numa circunstância de violência doméstica e o feminicídio está qualificado nisso”,disse.

No mesmo dia, por volta das 16h, Jailson Ferreira de Souza estrangulou e matou a namorada Siria Silva Souza, após uma discussão na rua, na região do Jardim Ângela, zona sul da capital paulista. Jailson se apresentou na delegacia e está preso.

Em outro caso, no domingo (20), o delegado Cristian Lanfredi, 42, que trabalhava na Assembleia Legislativa, matou a tiros sua mulher, a juíza Cláudia Zerati, e depois se suicidou na casa do casal, em área nobre da zona oeste.

Ainda no domingo, em Guarujá, no litoral sul, a atendente de enfermagem Nathalia Aparecida dos Santos Silva, 20, e o irmão dela, o estudante Matheus Santos Silva, 12 anos, foram mortos a facadas. O suspeito do crime é um garçom de 24 anos, ex-namorado de Nathalia, que estaria inconformado com o fim do relacionamento entre eles.

MAIS ATENÇÃO

Para a delegada Ana Paula Rodrigues, que investiga o caso de Mizaelly, não há um aumento dos casos de homicídios de mulheres. “Esses crimes sempre existiram, mas estão aparecendo mais. Agora os órgãos estatais dão mais atenção, na investigação e atendimento da vítima.”

O diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, concorda e destaca avanços legais, como a Lei Maria da Penha, 2006, e a Lei do Feminicídio, de 2015.

“Elas deram mais visibilidade a crimes do tipo, ao discriminar agressões contra a mulher de uma agressão comum.” Lima, da ONG que reúne especialistas no tema, aponta a profunda crise na segurança como agravante no combate ao feminicídio.

Já a representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, afirma que é fundamental atacar as raízes desse tipo de crime. “A causa é estrutural. É um crime de ódio, com crueldade. É a mesma coisa do estupro –o que motiva não é o desejo [sexual], é o desejo de dominação. ‘Agora eu vou demonstrar que tenho força, que eu sou seu dono, que tenho poder’. Essa é a base do machismo”, diz.

Assim, a especialista reforça a importância de debater o tema na educação. “Tem gente que ainda discute sobre educar ou não sobre gênero nas escolas, quando a base desses crimes é justamente essa desigualdade.”

Marina Estarque, Dhiego Maia e Paulo Gomes. Colaboraram Martha Alves e o “AGORA”

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