Violência e oral banalizado: o retrato da vida sexual das garotas nos EUA, por Rodrigo Casarin

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“Em 2000 […] uma reportagem no New York Times afirmava que estudantes do sexto ano estavam, basicamente, tratando a felação como um aperto de mãos feito com a boca. De acordo com um psicólogo infantil de Long Island, garotas daquela idade teriam lhe dito a sério que tinham a expectativa de esperar até o casamento para ter relações sexuais, embora já tivessem feito sexo oral cinquenta ou sessenta vezes. ‘Para elas, é como um beijo de boa noite’, ele afirmou […].

(UOL, 07/02/2018 – acesse no site de origem)

Foi Oprah, entretanto – não é sempre a Oprah? -, que soou o alarme mais alto. Em 2003, ela convidou para seu programa um repórter da ‘O Magazine’ que havia entrevistado cinquenta garotas sobre suas práticas sexuais. ‘Aguente firme’, o jornalista disse antes de revelar sua última descoberta: a festa do arco-íris. Nessa versão de ‘Girls Gone Wild’, jovens mulheres que mal saíram da fase das Barbies passam diferentes tonalidades de batom e depois fazem sexo oral em grupos de garotos por vez, deixando para trás um ‘arco-íris’ de maquiagem em cada pênis. A garota cuja cor ficasse mais perto da base seria declarada ‘vencedora’”.

Esse é um dos trechos mais impactantes de “Garotas & Sexo” (Zahar), da jornalista Peggy Orenstein. No livro, a autora apresenta um panorama do contexto sexual no qual garotas norte-americanas entre a adolescência e o começo da vida adulta estão envolvidas atualmente. Para tal, Peggy ouviu mais de 70 jovens, além de psicólogas, educadoras e especialistas em diversos temas relacionados ao sexo. Um dos grandes acertos do livro é privilegiar a voz das meninas, dando o tom exato do muitas vezes violento – e aqui não falo apenas de violência física, mas também psíquica e moral – cenário no qual iniciam suas vidas sexuais.

“Vou dizer isso mais uma vez, e depois – porque é óbvio – não vou mais repetir ao longo do livro: nem todos os rapazes se comportam desse modo, nem de longe, e muitos garotos são os aliados mais fiéis das meninas. Entretanto, todas as garotas com quem eu conversei, todas as garotas – independente de classe social, etnia ou orientação sexual, independente do que veste e de sua aparência -, foram assediadas no ensino fundamental ou médio, na universidade ou, muitas vezes, nos três”, aponta a jornalista logo no começo do livro.

“Eu não sabia como sair dali”

Em “Garotas & Sexo”, Peggy mostra como, por um lado, meninas crescem praticamente sem orientações sexuais, com repulsa de sua vagina, sem conhecer direito o próprio corpo e as maneiras que ele pode ser usado para o prazer. Do outro, escancara uma geração de garotos mimados, reizinhos que não sabem ouvir não, que, também afastados de uma boa educação sexual, crescem achando a vida é um filme pornográfico e que, tal qual animais, não podem controlar seus desejos e instintos. Uma prova disso é o trecho a seguir, no qual outra garota revela como, aos 16 anos, fez sexo oral pela primeira vez:

“Eu estava conversando com aquele garoto fazia um tempo, ele parecia legal. Nós estávamos nos beijando no banco traseiro do carro dele. Ele simplesmente… Não sei como aconteceu. Eu estava chapada e foi confuso. Ele foi muito agressivo. Ele queria transar e eu falei: ‘Não acho que seja uma boa ideia’. Ele não aceitou. Ele continuou tentando transar comigo. E eu dizia não. Então ele meio que forçou o sexo oral. Ele empurrou meus ombros para baixo. E eu não sabia como sair dali. Eu fiquei simplesmente chocada. Não era um bom sentimento. E durou bastante. Nunca mais gostei da ideia de fazer sexo oral depois daquilo. Ainda não gosto”.

Ao longo do título, o sexo oral é apresentado como uma espécie de dever de casa para as garotas do ensino médio, uma habilidade que devem dominar porque provavelmente serão avaliadas em público sobre a maneira que praticam a felação. Por outro lado, como disse, o prazer parece não lhes pertencer em nenhum momento, como evidencia outra entrevistada: “É sempre a mesma sequência implícita. Vocês se beijam longamente, ele passa a mão em você, você faz sexo oral nele e pronto. Acho que as garotas não são ensinadas a expressar suas vontades. Somos essas doces criaturas que aprendem apenas a agradar”.

Kim Kardashian

“Cultura mercantilizada saturada de pornografia”

Mas Peggy vai além, evidentemente. A autora lembra que as garotas são expostas permanentemente à hipersexualização, que, de tão presente em tudo o que as cerca, acaba por parecer algo normal, natural. “Sejam elas atletas, artistas, cientistas, musicistas, apresentadoras de TV ou políticas, elas aprendem que devem, como mulheres, projetar sex appeal antes de mais nada”. Também aborda como meninos forçam colegas da escola a mandar fotos nuas pelo celular – inclusive ameaçando o suicídio caso elas não cedam à chantagem -, como o assédio continua na universidade, onde acaba turbinado por drogas como o álcool, e questiona o quanto musas do pop contribuem para reforçar essa cultura de objetificação da mulher, por mais que muitas vezes vendam – a cifras exorbitantes – um discurso de bem resolvidas sexualmente, empoderadas e libertas de qualquer pressão social.

“Mulheres jovens crescem em uma cultura mercantilizada saturada de pornografia e centrada na imagem, na qual o ‘empoderamento’ é apenas um sentimento, o consumo prevalece sobre a conexão, ser ‘gostosa’ é um imperativo, a fama é a principal conquista e a maneira mais rápida de uma mulher ter sucesso é servir-se de seu corpo antes que alguém o faça. Se fez anos atrás Paris Hilton sintetizou o zeitgeist, é sua ex-melhor amiga, Kim Kardashian, quem o personifica hoje […], ela se levanta pela alça do próprio sutiã e transforma o exibicionismo e o talento para a autopromoção em um império impressionante de 85 milhões de dólares”.

E se alguém inocentemente acha que essa é uma realidade exclusiva dos Estados Unidos, no prefácio da edição brasileira de “Garotas & Sexo” a psicanalista Regina Navarro faz o alerta: “Não é surpresa que muitos dos perfis narrados pela autora se assemelhem aos de brasileiras. Se no Brasil a coisa não é exatamente igual, há muitos pontos em comum […]. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, e em todo o mundo, com diferenças sutis ou não, a sexualidade continuou a ser mal compreendida [após a chamada Revolução Sexual]”.

Em contraposição à sociedade norte-americana, onde falar de sexo é, na maioria das vezes, o grande tabu que resulta nos incontáveis problemas, Peggy aponta para o diálogo e a educação sexual como melhores saídas para que as jovens cresçam com uma sexualidade mais saudável e melhor resolvida. Para a autora, o exemplo pode vir da Holanda:

“As meninas holandesas disseram que as professoras e os médicos falaram francamente com elas sobre sexo, prazer e a importância de uma relação amorosa. Mais que isso, no entanto, havia uma diferença radical em como seus pais abordavam esses assuntos. As mães americanas se concentravam nos riscos e danos potenciais do sexo, enquanto seus pais, quando diziam alguma coisa, ficavam com as piadas sem graça. Os pais holandeses, em contrapartida, falavam com suas filhas desde pequenas sobre as alegrias e responsabilidades da intimidade”.

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