A violência mascarada no carnaval, por Gisele Pereira

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O festejo milenar de canis valle (prazeres da carne) associado à colheita e a deuses da antiguidade, foi assimilado pelo catolicismo, tornando-se o entrudo (entrada) do período da quaresma.

(CartaCapital, 07/02/2018 – acesse no site de origem)

Na tradição católica o carnaval é, portanto, o momento de permissividade que antecede as interdições da quaresma. É quando se pode desfrutar dos prazeres da carne: na alimentação abundante e relações sexuais, sem “culpa”.

Também ao carnaval é associada a ideia de vestir e viver fantasias, subverter normas morais e sociais. Uma subversão controlada, contudo. Podia-se vestir-se de rei, senhor, mas não rebelar-se contra o sistema escravista ou a monarquia, por exemplo.

O festejo adentrou em nossas terra por meio dos portugueses com o nome de entrudo, no século XVII, consolidando-se como a maior festa popular de alcance nacional. Está enraizada em nossa cultura a ideia de que o ano – ou seja, as obrigações, o trabalho pesado, compromissos, restrições – só se inicia depois do carnaval.

Para nós, o carnaval virou sinônimo de alegria, prazer e descontração. Mas não só isso. Altos índices de acidentes e violência são registrados no período.

A ideia de permissividade e imprudência presente na tradição carnavalesca traz dissimulados sob máscaras de diversão aspectos perversos da sociedade. Obviamente não são exclusivos no carnaval, mas neste momento ficam mais evidentes.

Se por um lado vemos ganhar o espaço público cada vez mais blocos de rua que trazem uma crítica social e buscam dar visibilidade a causas como da população LGBTQ+, do feminismo e população negra, por outro, vêm à tona de maneira os preconceitos, racismo, misoginia e LGBTfobia.

O machismo estrutural que, dentre outras ações, se utiliza do corpo feminino como produto a ser consumido e território a ser ocupado e violado, traduz-se na rua cotidianamente em assédio sexual. O assédio nada mais é do que a expressão do não reconhecimento da mulher enquanto SER, que possui vida e vontade próprias, mas um objeto que pode ser utilizado ao seu bel prazer. A negativa diante de uma investida é algo inconcebível para a mentalidade machista. O que vem depois desta negativa que não seja a incontestável aceitação, é assédio.

Ao contrário do que entende o pensamento misógino, não é lisonja ser assediada e existe uma diferença clara entre paquera e assédio. Se a abordagem não respeita os limites do corpo e vontade alheias, seja tocando de maneira libidinosa alguém que não lhe solicitou esse toque, ou com falas agressivas e desrespeitosas, estamos diante obviamente de assédio e não de paquera.

Da mesma maneira poderíamos falar da violência LGBTfóbica que já deu mostras no pré-carnaval deste ano de sua truculência. Foliões relataram assédio, preconceito e agressões no bloco “Quem chupou vai chupar mais” no Distrito Federal. O bloco sofreu com o descaso de autoridades públicas que não providenciaram a estrutura necessária.

Igualmente a violência racista, por meio de agressões verbais ou físicas e dissimuladas por máscaras (fantasias) caricatas que estereotipam e depreciam a figura do/a negro/a. Como é o caso do blackface e perucas de black power utilizados, inclusive, por celebridades que prestam o desserviço de alimentar a ideologia racista.

A violência esconde-se por trás da máscara da liberdade, do “pode tudo”. E são os grupos mais vulnerabilizados por desigualdades históricas e por normas sociais excludentes os que estão mais expostos a ela não só no carnaval, mas cotidianamente.

Vários blocos de carnaval com temática feminista, antirracista e LGBTQ+ estarão nas ruas este ano para se contrapor à tradição de um carnaval misógino e violento. Entre eles, estarão o Bloco Legaliza Pra Nóis Não Morrê, o tradicional Cortejo do Bloco Afro Ilú Obá De Min, o Bloco da Gaymada São Paulo e o Bloco Siga Bem Caminhoneira. Ocuparemos as ruas com nossa resistência para impedir o avanço sobre nossos corpos e direitos. Bom carnaval!

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