Em entrevista ao Intercept Brasil, a socióloga Camila Galetti explica como o antifeminismo, o ataque aos direitos reprodutivos e a violência política são usados pelo conservadorismo para cooptar o eleitorado feminino e definir quem pode ocupar o poder no Brasil.
As mulheres são 83,8 milhões de eleitoras no Brasil e representam 52,8% do eleitorado. Mesmo assim, quase um século depois da conquista do voto feminino, o direito das mulheres de participar das decisões políticas voltou a ser questionado. O discurso, que antes circulava em nichos da extrema direita na internet, agora ganha espaço no debate político brasileiro e entre conservadores nos Estados Unidos.
Segundo a socióloga e pesquisadora Camila Galetti, a extrema direita aceita a participação de mulheres na política, mas de forma seletiva: o espaço é concedido para aquelas que defendem a família tradicional, enquanto a escalada da violência política de gênero afasta candidaturas progressistas e converte debates sobre saúde pública e autonomia feminina em julgamentos morais.
Para Camila, o ataque aos direitos das mulheres e da população LGBT+ não é uma pauta lateral, mas parte central da estratégia da extrema direita para criar inimigos políticos. Temas como aborto e educação sexual são usados para mobilizar eleitores conservadores e limitar a autonomia das mulheres.
Em uma narrativa contraditória, a extrema direita atrai eleitoras ao ceder cargos políticos a figuras antifeministas. E nós devemos observar as campanhas das eleições de 2026 para entender como os discursos sobre gênero, feminilidade e participação política são usados para conquistar o voto das brasileiras.
Intercept Brasil — Por que o gênero é um tema tão central para a extrema direita?
Camila Galetti — O gênero não é uma pauta lateral para a extrema direita. Ele está no centro do projeto político. É por meio das relações de gênero que se organizam algumas disputas fundamentais que estão relacionadas à família, à sexualidade, à reprodução, à educação e também à autoridade. O antifeminismo não aparece só como uma oposição ao movimento feminista porque funciona como uma forma de disputar o próprio significado do que é ser mulher.
A extrema direita fala que vai combater a ideologia de gênero, mas eles não estão falando de uma teoria específica, de algo que tá claro, que a gente sabe exatamente o que é. Eles estão se referindo ao que supostamente é ensinado nas escolas. Essa pauta reúne questões relacionadas à educação sexual, aos direitos LGBT+, ao aborto, sobretudo à família e à reprodução.
A reprodução é uma questão que a extrema direita tem tratado, ao redor do mundo, na Europa, nos Estados Unidos, com mais força. As mulheres estão vendo o peso que é a reprodução porque isso engloba um cuidado que é naturalizado como feminino.
Essa ideologia de gênero é como se fosse um guarda-chuva que vai juntar todas essas questões. Isso permite construir um inimigo, e a extrema direita adora construir inimigos. O feminismo, as pautas LGBT+ e os direitos humanos passam a ser representados como responsáveis pela desorganização ou destruição da família e também pela perda da autoridade masculina.
No caso do Brasil, ainda existe essa articulação entre neoliberalismo, religião e neoconservadorismo. Eles se unem em torno da defesa de um modelo de família tradicional, heterossexual, cristã e branca. Isso acompanha um modelo de feminilidade: a mulher cuidadora, responsável pela família, mas que também pode participar da política desde que não questione essa ordem de gênero.
O que é ser uma “boa mulher” na política da extrema direita? O que fica de fora quando se constrói essa ideia de uma “mulher legítima” para ocupar a política?
Existe uma autorização que é extremamente seletiva para que determinadas mulheres ocupem a política institucional. 2018 foi um marco importante no que diz respeito à representação feminina, porque houve um maior acesso de parlamentares mulheres na política institucional, porém mulheres atreladas ao PSL (Partido Social Liberal) na época, que hoje estão no PL. O PSL nunca tinha eleito nenhum deputado, nenhuma deputada e do nada eles elegem 10 parlamentares nas eleições de 2018 na esteira de Jair Messias Bolsonaro.
Essas mulheres adentram na política institucional com discursos declaradamente antifeministas, mas ocupam um espaço que foi conquistado justamente pelos movimentos feministas. Essa figura da boa mulher pode ser politicamente ativa, mas ela deve ser feminina e heterossexual. Tem muitas parlamentares de extrema direita que não são heterossexuais, mas que não evidenciam isso e não vivem a sua sexualidade no âmbito da esfera pública – elas vivem no privado.
Há muitas contradições nessa narrativa. Essas mulheres podem ter sim um mandato, mas devem defender o modelo de família. Podem falar sobre violência contra as mulheres, mas não vão mobilizar uma perspectiva feminista, e muitas vezes até culpabilizam as mulheres pelas próprias violências que sofrem. Essas antifeministas podem ser utilizadas como prova de que a extrema direita não seria contrária à participação feminina. É quase como dizer “nós não somos contra as mulheres na política, a gente tem até mulher aqui, né?”
Essa participação é muito limitada. Essas mulheres ajudam, de certa forma, a definir quais formas de feminilidade são consideradas legítimas. Então, os ataques às mulheres trans, como se a gente tivesse milhares de parlamentares trans, sendo que só temos duas, Erika Hilton e Duda Salabert, que cotidianamente são atacadas e questionadas. Isso demonstra que elas defendem o modelo de feminilidade pautado numa restrição de quem é considerado mulher. Isso vai produzindo exclusões que são extremamente concretas, porque ficam de fora as mulheres que não vão corresponder a esse modelo de feminilidade.
A boa mulher defende uma maternidade que na prática elas não estão vivenciando, porque se elas estão na política institucional, elas não têm tempo de ser boa mãe, mas elas mobilizam essa narrativa o tempo todo. Essas mulheres não vão questionar a maternidade, que é considerada até compulsória. Essa autorização vai promovendo legitimações na política e vai transformando a estrutura de poder.
Só que quando elas rompem com essas narrativas, elas são jogadas fora. A Joice Hasselmann, quando rompeu com a família Bolsonaro e com o bolsonarismo, nunca mais se elegeu, nem como vereadora de São Paulo, sendo que ela foi a mais uma das mais votadas como deputada federal. A boa mulher é a mulher que vai funcionar conforme o patriarcado manda.
A extrema direita entendeu que não pode abrir mão do voto feminino. Qual é a próxima etapa dessa disputa?
Todo ano eleitoral é a mesma coisa. Alguns setores da extrema direita passam a questionar publicamente o direito do voto das mulheres, mas ao mesmo tempo precisam disputar esse eleitorado. Não foram todas as antifeministas e mulheres de extrema direita que encabeçaram o não direito ao voto feminino. No Brasil, mais de 52% do eleitorado é feminino. Não existe um projeto eleitoral competitivo que possa simplesmente ignorar as mulheres.
É questionado o tempo todo quem vai capturar o voto feminino, sobretudo o voto evangélico. Na minha leitura, essa contradição revela que a questão não é simplesmente as mulheres na política ou as mulheres fora da política ou o direito das mulheres de votarem. A disputa é sobre quais mulheres podem participar, como devem participar e para quais projetos políticos seus votos têm que ser direcionados.
Há uma diretriz da forma como você tem que agir, e aí entra uma questão do quanto o antifeminismo é palatável. A extrema direita não precisa necessariamente defender que toda mulher fique fora da política. Elas são legitimadas na política institucional como se elas estivessem defendendo o modelo de feminilidade de mulher que está o tempo todo sendo ameaçada.
A mulher legítima pode votar, fazer campanha, ocupar um mandato, ter visibilidade, mas ela tem que ser defensora desse modelo tradicional. Se olharmos os planos de governos que estão à frente das eleições, a violência contra a mulher é questionada o tempo todo, mas, sobre feminicídio, praticamente 80% das respostas são completamente deslocadas da realidade.
Não existe um projeto político conciso de defesa de um problema que está escalando. Falando do voto feminino, qual mulher está sendo convocada? A esposa, cristã, empreendedora e a que o neoliberalismo gosta tanto: a mulher que tem medo da violência. Transformar mulheres em eleitorado estratégico sem necessariamente reconhecer a autonomia e a capacidade cognitiva dessas mulheres é um projeto político da extrema direita.
As mulheres são instrumentalizadas e é importante mencionar que essas mulheres também são recompensadas de alguma forma: quando elas adentram na política institucional, elas têm visibilidade e são escutadas. É muito aquela parada do falo na psicanálise. A política é como se fosse o falo delas. Não é só convencer as mulheres a não votar, o que uma parte da extrema direita está tentando fazer, e sim disputar esse significado da participação feminina na política.
Isso está em disputa desde 2018, não é uma novidade. Conforme as pautas femininas e as pautas da população LGBT+ vão avançando, o conservadorismo também avança. A filósofa Nancy Fraser fala que tudo que a gente está vivendo é uma reação conservadora. Eles vão escalonar na pressão e na tentativa de repressão de determinados corpos e determinadas pessoas.