Após frases racistas, símbolo nazista é pichado em banheiro da Unesp

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(G1, 07/08/2015) Desenho foi feito em cartazes que repudiavam o ato racista no campus.  Sindicância já havia sido aberta para apurar o caso em Bauru (SP).

Pela segunda vez em 15 dias, um dos banheiros masculinos da Unesp em Bauru (SP) recebeu pichações discriminatórias. Nesta sexta-feira (7), foram encontrados símbolos nazistas desenhados nos cartazes onde um grupo de alunos havia manifestado o repúdio às frases racistas pichadas há duas semanas. 

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Na ocasião, as frases racistas foram escritas contra estudantes negros e o coordenador do Núcleo Negro de pesquisas da Universidade. Nas paredes e nos cartazes com frases de líderes negros como Nelson Mandela foi escrita a palavra hipócritas e também o desenho da suástica.

A suástica foi um símbolo usado pelo exército alemão na Segunda Guerra Mundial e indicava do ponto de vista nazista a superioridade das pessoas de pele branca. Os estudantes Júlia Conceição, Solon Neto e Ana Carolina Moraes fazem parte de um grupo formado por estudantes que debatem na universidade a discriminação racial e temas ligados à comunidade universitária afro-brasileira.

Símbolo da suástica foi desenhado sobre as frases de líderes negros (Foto: Reprodução / TV TEM)

Símbolo da suástica foi desenhado sobre as frases de líderes negros (Foto: Reprodução / TV TEM)

“A gente vê com muita preocupação o que está se desenvolvendo na universidade, que deveria ser um local de conhecimento, em prol da ciência, de uma sociedade melhor e, na verdade, estão sendo reproduzidos valores como esses, tão ultrapassados”, ressalta Solon.

Para os estudantes as novas pichações só vão fortalecer o debate da presença dos negros e de outras minorias na universidade. “Nós estamos aqui não só para ser um coletivo que discute o racismo, mas também que luta contra essas manifestações tanto dentro da universidade como na sociedade como um todo”, afirma Ana Carolina.

A direção da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp deve concluir neste mês a investigação sobre a autoria das primeiras pichações. Caso algum estudante seja identificado poderá ser expulso da universidade. A congregação da faculdade, formada por professores, funcionários, alunos e professores já se reuniu para debater o assunto no campus no final do mês passado.

Em nota, a Unesp disse que repudia o desenho da suástica realizado em banheiro da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da Universidade em Bauru. Após ser documentada, a inscrição, realizada com caneta esferográfica sobre um cartaz que condena o racismo, foi retirada.

A documentação passa a integrar a Comissão de Apuração Preliminar, de natureza investigativa, em razão dos fatos e atos racistas praticados em 24 de julho último no Câmpus de Bauru. A referida Comissão, instaurada dia 27 de julho, é composta por dois docentes e um servidor técnico administrativo e tem prazo de 30 dias para concluir os seus trabalhos.

A Unesp condena pichações racistas ou que defendam movimentos que atentem contra o Estado Democrático de Direito. Informa ainda que conta com um Grupo de Prevenção da Violência que atua na conscientização da comunidade e no fomento aos Direitos Humanos e com um Observatório de Educação em Direitos Humanos.

Cabe à Comissão de Apuração Preliminar levantar informações, obter nomes, datas e horários que possam resultar em provas substanciais de comprovação de responsabilidades da infração ao Regimento Geral da Unesp, o que pode levar às sanções previstas no seu artigo 162, que vão da advertência verbal ao desligamento dos responsáveis.

Cartazes com frases de apoio foram colocados no banheiro  (Foto: Giuliano Tamura/ TV TEM)

Cartazes com frases de apoio foram colocados no banheiro (Foto: Giuliano Tamura/ TV TEM)

Entenda o caso
As frases pichadas no banheiro foram encontradas no dia 24 de julho e ofendiam mulheres e estudantes negros, além de ofensas pessoais contra o professor Juarez Xavier, que é coordenador do Núcleo Negro para Pesquisa e Extensão (Nupe). As pichações foram apagadas no dia seguinte e no local foram colocados cartazes contra a discriminação e que traziam frases de líderes negros.

No dia 27 de julho, uma comissão de professores foi formada para averiguar o caso. De acordo com a reitoria da universidade, o processo aberto irá averiguar os fatos, o que inclui levantamento de informações e obtenção de nomes, datas e horários que possam indicar a autoria das pichações racistas. E caso seja identificado o autor, ou autores, poderá haver punições que vão desde advertência verbal até expulsão dos envolvidos.

Para o professor Juarez Xavier, que foi citado nas pichações, os debates devem criar mais envolvimento da comunidade acadêmica quanto ao problema.

“Deve provocar a retomada do debate e, em um cenário positivo, a possibilidade de apontar mudanças no comportamento de professores, alunos e funcionários quanto a questão racial”, acredita o professor.

Medidas e propostas
O diretor da FAAC (Faculdade de Artes e Comunicações) Nilson Ghirardello presidiu a congregação. “Nós vamos fazer um evento ligado a questão racial. A própria congregação vai fazer um documento a ser lido no conselho universitário da Unesp. Então são medidas muito importantes para o futuro da nossa unidade.”

Na congregação, alunos envolvidos com o movimento Coletivo Negro tiveram voz e falaram sobre as políticas de permanência dos negros nas universidades. Para eles, a presença dos negros incomoda e deve-se promover a expansão dos debates na universidade  para que, segundo eles, os racistas também escutem as ideias e possam entender. Os alunos também falaram de tomar medidas além das cotas raciais para que os negros sejam bem recebidos e aceitos na universidade.

Participantes relembraram o “rodeio das gordas” que aconteceu durante jogos estudantis da Unesp em 2010 e discriminava as mulheres. Eles lembraram que há outros tipos de preconceitos que precisam ser debatidos, para que eles deixem de acontecer.

A pedagoga Ivanilda Amado Cardoso, de 26 anos, é mestranda da Ufscar e participou da congregação. Ela acredita que o racismo é um processo estrutural e que não falar sobre o assunto é prejudicial. “A educação é uma parte importante para essa mudança, como uma reeducação das relações sociais. Mas também é preciso mudar em outros âmbitos também, como no mercado de trabalho, na área da saúde.”

Mensagens racistas foram escritas em um banheiro da Unesp em Bauru (Foto: Juarez Tadeu de Paula Xavier / Arquivo pessoal)

Mensagens racistas foram escritas em um banheiro da Unesp em Bauru (Foto: Juarez Tadeu de Paula Xavier / Arquivo pessoal)

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