Cansei de ser forte: por que precisamos repensar elogio à mulher guerreira

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Uma cena da novela “Amor de Mãe” do dia 13 de janeiro repercutiu ao mostrar a personagem Camila (Jéssica Ellen) respondendo à mãe, Lurdes (Regina Casé), que lhe dizia: “Você tem que ser forte”.

(Universa/UOL, 30/01/2020 – acesse no site de origem)

Camila desabafa. Estava cansada de ser forte. O texto repercutiu nas redes sociais entre muitas mulheres, a maioria delas negras, que se identificaram e levaram a discussão adiante: a ideia da “mulher guerreira” pode ser considerada mais um tipo de opressão.

A gente tem q ser forte desde que nasce que o gente quer é poder ser fraco por pelo menos um dia! Eu tô cansada de ser forte #AmorDeMãe
pic.twitter.com/FxcpLO9S4M
— Mari (@thecarterstwins) January 14, 2020

Autora da novela, Manuela Dias conversou com Universa sobre o texto da cena. “Esse desabafo é meu também. Estamos cansadas de forma ancestral. E a repercussão dessa cena é prova disso”, diz ela.

“O patriarcado sufoca a mulher por um lado e a explora por outro. A mulher hoje em dia sustenta a casa e cuida dela integralmente. É o motor principal da sociedade brasileira e mesmo assim seguimos sendo vistas como minoria”, continua Manuela. “Salários menores, menos reconhecimento profissional, ascensão mais difícil na carreira. Queremos poder ser frágeis também, sem que isso comprometa o resultado do nosso desempenho.”

O peso do elogio

Ser chamada de guerreira, batalhadora e forte pode ser, sim, um elogio. Mas tem um outro lado. Quando se presume que uma mulher vai dar conta de todos os percalços que aparecerem em sua vida, há uma desumanização da sua existência, afirmam especialistas consultadas por Universa. E esse peso recai com muito mais força sobre as mulheres negras.

Psicóloga e gerente do Instituto Avon, Mafoane Odara fez uma pesquisa para sua tese de mestrado que aponta, na prática, o efeito prejudicial que o discurso da força feminina tem sobre a população de mulheres pretas e pardas.

A análise foi feita a partir de um dado de uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz que mostrava que, entre negras, os casos em que se aplica anestesia na gestante no momento do parto são 50% menores em relação às brancas.

“Quando os médicos eram questionados sobre por que não aplicavam a anestesia nas pacientes negras, diziam que elas sentem menos dor. E falavam: ‘Todo mundo sabe disso’. Mas não há nenhum dado científico comprovando”, lembra Mafoane.

“É automático, eles não param para pensar, é uma percepção tão profunda que nem notam. A ideia de a mulher ser encarada como forte traz uma avalanche de violência que não conseguimos enxergar”, diz.

O abandono parental, como explica Mafoane, também vem da ideia de que mulher é forte e vai aguentar criar os filhos sozinha. De novo, o impacto é maior entre negras, que são a maioria entre as mães solo no país, diz a psicóloga.

“A forma como encaramos esse adjetivo coloca nos ombros das mulheres a culpa por falhar, quando, na verdade, deveria mostrar que estamos exigindo daquelas que são as mais discriminadas na sociedade a responsabilidade de lidar com situações muito maiores do que as condições que elas têm.”

Mafoane ressalta que não devemos deixar de ver a fortaleza das mulheres como merecedora de admiração. “De fato é isso que as mantêm vivas. Mas podemos nos corresponsabilizar para garantir que elas não carreguem esse fardo sozinhas, porque fomos nós, como sociedade, que as colocamos nos piores índices de todos os determinantes sociais — salário, trabalho, gravidez na adolescência, feminicídio, suicídio, moradia e possibilidade de ascensão social.”

O mito da mulher guerreira é racista

Os dois adjetivos comumente dirigidos à mulher negra, “forte” e “guerreira”, escondem, segundo entrevistadas, resquícios do passado escravocrata do país, que ainda aparecem em situações cotidianas de racismo.

Pesquisadora especializada no estudo de opressões ligadas à raça, gênero e classe social, Jackeline Romio, pós-doutoranda em Psicologia Social na USP (Universidade de São Paulo), afirma que a ideia da mulher forte, atribuída geralmente às negras, vem do sentido literal da palavra. “Remete às qualidades necessárias ao trabalho braçal comumente ofertado, seja nas lavouras, casas de patroas, fábricas e demais trabalhos insalubres que exijam do corpo longas jornadas, além do carregamento de pesos e resistência à dor física”, explica.

“Dessa forma, a característica da força, que também tem seus aspectos positivos, cola ao fato de se nascer mulher e negra uma série de condicionamentos que, de certa forma, concretizam o lugar dela no mundo do trabalho bem como suas aptidões. Assim, deixa de ser um mero adjetivo, ou se preferir elogio, para operar como estereótipo e imagem de controle, passando a agir como limitador das possibilidades de vida”, afirma.

Para Jackeline, a palavra “guerreira” não deve ser tratada como um “elogio inocente”. “Nele encontramos os significados de uma vida sempre ameaçada e, por isso, pronta para a guerra como condição para sua sobrevivência”, afirma.

“Muitas vezes, em conversas com outras companheiras negras, chegamos à conclusão de que, na atualidade, o oposto de guerreira é herdeira. Como mulheres negras não tiveram, em sua maioria, acesso à propriedade ou mesmo aos bens herdados dos patriarcas, a luta por conquistas de lugar nas cidades e mercado de trabalho. ou mesmo pelo reconhecimento dos seus outros talentos, é uma motivação constante para estar em estado de guerra.”

A fortaleza solitária

Presidente do Geledés Instituto da Mulher Negra e da Comissão de Igualdade Racial da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo), Maria Sylvia Aparecida de Oliveira associa a obrigação de ser forte a outra característica da vida das mulheres negras: a solidão.

“É a partir de violências que sofremos desde pequenas que vamos nos habituando a viver sozinhas. Na escola, e isso é muito recorrente, crianças não querem brincar com a menina negra, não querem dançar com ela, ela não é escolhida para ser a princesa ou a noiva nas brincadeiras. Tudo isso vai isolando a pessoa”, explica.

“Aí a gente cai na armadilha que desumaniza a mulher: ela vai ter que ser forte porque sabe que está sozinha. Tem que ser forte para aguentar as demandas, pois não tem esteio.”

Para Mafoane, a falta da rede de apoio é o ponto crucial da exigência da força. “Toda vez que trago a fortaleza como principal ferramenta, tiro a possibilidade de ela chorar, de reconhecer que não dá conta. Mas, para dar conta, precisa ter alguém do lado apoiando.”

Mas não era o sexo frágil?

A contradição da discussão aparece quando nos voltamos ao senso comum: a mulher não era o sexo frágil? E, sendo assim, considerá-la forte não significaria quebrar o estereótipo da fragilidade feminina?

Em partes, sim. Para a socióloga e cientista política Jacqueline Pitanguy, diretora-executiva da ONG feminista Cepia e pesquisadora da história do feminismo, é positiva a desconstrução
da ideia de fragilidade feminina e de subordinação a uma figura masculina que vai protegê-la e, consequentemente, dominá-la.

Reivindicar, portanto, a percepção da força é um ganho. Mas isso não significa que devemos ser vistas como supermulheres. “Não é que você, como mulher, não seja poderosa, não seja forte. Mas nem mulher nem homem são onipotentes, é necessário uma complementação. Os dois podem ser vulneráveis e frágeis.”

Para Jackeline Romio, o discurso da fragilidade feminina se volta para mulheres brancas. “Devemos evidenciar o quão prejudicial pode ser a cristalização da ideia de que a mulher negra é naturalmente forte, pois o oposto subentendido é que ela é mais forte do que a mulher branca. Se há uma mítica em que mulheres são frágeis e fracas fisicamente, então este mito é racialmente selecionado.”

Por Camila Brandalise

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