Feminismo pra quem? Protagonizado por quem?, por Raylane Batista

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Quais vozes são de fato ouvidas? Quantos problemas de mulher preta periférica são colocados na pauta principal na agenda ordinária dos movimentos feministas?

(Geledés, 19/09/2016 – acesse no site de origem)

Quando o dia-a-dia da mulher negra é contado de forma a conscientizar essa massa que se diz educada?

Onde lutar por direitos, lutar por uma vida digna está na pele de toda mulher negra que tenta caminhar em uma corda bamba presa a um precipício de limites impostos, de desvantagens postas todos os dias nas nossas caras, assim como quem não quer nada te dizem num único golpe: O que você está fazendo aqui? Esse lugar não te pertence.

Tenho 23 anos e descobri a pouco a importância que o feminismo possui para nós mulheres, para que a voz que tantas vezes foi silenciada possa ser ecoada por todos os espaços, para que os direitos que são nossos possam de fato ser alcançados, que a escolha possa ser nossa.

Descobri a pouco também que sou NEGRA, descobri que ser negro não se define pelo tom de pele, descobri a ancestralidade, descobri a beleza de se autodeclarar negra e sentir orgulho, porém também descobri a dor, tomei um gole de verdade e em uma manhã me vi em frente ao espelho me analisei, me enxerguei, notei traços, notei meus cabelos, recordei situações vividas, garganta presa, me senti isolada, nenhum pouco representada, onde estão os homens, as mulheres com as quais me reconheço?

Onde está o povo preto que não vejo?

Acabei de encontrá-los, eles estão nas manchetes de jornais, ora como o assassino, ora como o assassinado, moradores de rua, drogados, aqueles que só encontram no crime o meio para viver (ou morrer). Nascer negro em um país que exalta sua miscigenação, usando termos como: “todo mundo tem um pé na senzala” ou “Eu tenho alma de negra” só torna obvio a falta de conhecimento de sua história, não compreende os meios utilizados para se obter lucro nessa sociedade malformada e de caráter duvidoso, onde o branco sofre racismo reverso e o preto, coitado, se coloca sempre no papel de vitima, querendo causar discussões que de nada servem, não entendem nada esses pretos, não entendem nem de si mesmos?

A luta é diária, o reconhecimento é todo dia quando ao acordar e se olhar no espelho precisamos erguer a cabeça e entender que a nossa beleza nada tem de exótica, nossos traços são só nossos, nos definem como filhas de reis e rainhas, como filha de um povo rico em cultura, nas formas de se professar a fé, rico em cores, sorrisos e lágrimas, nossas referencias são varias descendemos de mulheres como Dandara, Aqualtune, Tereza de Benguela, Anastácia, Zeferina e tantas outras mulheres negras, falar seus nomes é invocar força, ancestralidade, se reconhecer entre as nossas todos os dias, formando esse quilombo de afeto que nos guarda enquanto caminhamos em meio a tempestades.

Raylane Batista – Graduanda em Ciências Sociais – UNIVASF

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