Não há calouros pretos em 6 dos 10 cursos mais concorridos da Fuvest

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(G1, 03/06/2015) Termo ‘preto’ é usado pela Fuvest para classificar cor de pele de alunos. USP diz que porcentagem total de calouros pretos cresceu 8,4%.

Em seis das dez carreiras mais concorridas da Fuvest 2015, nenhum candidato preto foi aprovado no vestibular e se tornou calouro da Universidade de São Paulo (USP) neste ano. O termo preto é uma das cinco opções de resposta para a pergunta “Qual é a sua cor ou raça?” feita para o calouro no momento da inscrição. Há ainda as opções branca, parda, indígena e amarela.

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Levantamento feito pelo G1 com dados divulgados nesta quarta-feira (3) pela Fuvest comparou o perfil dos calouros nos cursos mais concorridos.

Considerando todos os mais de 10 mil calouros que ingressaram na USP neste ano, o número de calouros que se autodeclaram pretos cresceu de 3,2% para 3,5%.

Procurada pelo G1, a USP informou que, “em 2015, o número de ingressantes oriundos de escolas públicas na USP cresceu 8% em relação ao ano anterior e o número de alunos matriculados que se declararam pretos, pardos e indígenas (PPI) cresceu 8,4% em comparação a 2014. Ressalte-se, também, que está em andamento a discussão sobre as novas formas de ingresso na Universidade”.

FUVEST 2015: PERFIL RACIAL DOS CALOUROS DOS DEZ CURSOS MAIS CONCORRIDOS
Brancos (%) Pretos (%) Pardos (%) Amarelos (%) Indígenas (%) Total
Medicina (SP) 234 (78%) 4 (1,3%) 30 (10%) 32 (10,7%) 0 300
Medicina (RP) 77 (77%) 0 20 (20%) 3 (3%) 0 100
Psicologia 55 (78,6%) 0 7 (10%) 8 (11,4%) 0 70
Eng. cIvil (S. Carlos) 47 (78,3%) 2 (3,3%) 6 (10%) 5 (8,3%) 0 60
Artês cênicas (bac.) 11 (73,3%) 0 4 (26,7%) 0 0 15
Audiovisual 25 (71,4%) 0 6 (17,1%) 4 (11,4%) 0 35
Jornalismo 50 (83,3%) 4 (6,7%) 5 (8,3%) 1 (1,7%) 0 60
Publicidade e prop. 38 (77,6%) 0 8 (16,3%) 3 (6,1%) 0 49
Rel. internacionais 48 (80%) 2 (3,3%) 8 (13,3%) 2 (3,3%) 0 60
Arquitetura (S. Carlos) 38 (84,4%) 0 6 (13,3%) 1 (2,2%) 0 45
Total na USP 8.282 (74,7%) 391 (3,5%) 1.642 (14,8%) 733 (6,6%) 32 (0,3%) 11.080

As dez carreiras mais procuradas na última edição da Fuvest foram medicina (São Paulo), medicina (Ribeirão Preto), psicologia, engenharia civil (São Carlos), artes cênicas (bacharelado), audiovisual, jornalismo, publicidade e propaganda, relações internacionais e arquitetura (São Carlos). Dessas, só há calouros pretos em 2015 nos cursos de medicina (São Paulo), engenharia civil (São Carlos), jornalismo e relações internacionais.

Esses dez cursos somam 794 vagas preenchidas no vestibular 2015. Os calouros pretos respondem por 12 delas, ou 1,5% do total. Já a porcentagem de calouros que se autodeclaram brancos varia entre 71,4% (no curso de audiovisual) e 84,4% (no curso de arquitetura de São Carlos). Os brancos respondem por 623 das 794 matrículas mais cobiçadas entre os candidatos da Fuvest (média de 78,5%).

Já considerando toda a USP, a média de calouros que se autodeclaram pretos é de 3,5%. A autodeclaração é feita no momento da inscrição, e os estudantes podem optar por branca, preta, parda, indígena ou amarela. Nas pesquisas sociológicas, o termo negro é usado para abordar as categorias preta e parda.

Pardos, amarelos e indígenas
Segundo os dados divulgados pela USP, entre as 794 matrículas nos dez cursos mais concorridos, 100 foram preenchidas por alunos que se dizem pardos, 59 por estudantes autodeclarados amarelos, e nenhuma matrícula foi feita por alunos autodeclarados indígenas.

Entre os candidatos autodeclarados indígenas, nenhum chegou a conquistar uma vaga nos dez cursos mais concorridos.

Engenharia na Poli e direito
As carreiras de engenharia na Escola Politécnica e direito na Faculdade São Francisco, que não estão entre os mais concorridos na lista de candidatos por vaga porque oferecem mais de 400 vagas por ano, mas são considerados de prestígio e costumam ter nota de corte alta, também ficam abaixo da média geral da USP considerando a presença de calouros pretos.

Entre os 872 calouros dos cursos de engenharia da Poli que responderam ao questionário, nove se autodeclararam pretos (1% do total), 650 (ou 74,5% do total) se dizem brancos, 79 são pardos (9,1%), 132 amarelos (12,1%) e dois são autodeclarados indígenas (0,2%).

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Segundo a Fuvest, nesse grupo estão inclusos os alunos dos cursos de engenharia da USP Leste e do curso de engenharia de petróleo, que é ministrado em Santos.

Número de pretos cresceu
Na Fuvest 2015, a porcentagem de ingressantes na USP autodeclarados pretos é a mais alta dos últimos 12 anos. Na Fuvest 2003, 1,80% dos matriculados se autodeclararam pretos. No ano anterior, não é possível fazer a comparação só entre calouros da USP  porque a divulgação incluiu também as vagas oferecidas pela Fuvest no curso de medicina da Santa Casa.

Entre as últimas três edições da Fuvest, esse número tem crescido. Na Fuvest 2013, 2,4% dos calouros estavam nessa categoria. Na edição de 2014, a porcentagem subiu para 3,2%. Já neste ano, os estudantes pretos que começaram um curso de graduação na USP somam 3,5% do total.

Presença
No estado de São Paulo, 5,5% da população se declarou preta no censo demográfico do IBGE em 2010, 63,9% dos moradores do estado se declararam brancos, e 29,1% se classificaram como pardos. O percentual de amarelos na São Paulo é de 1,3% e o de indígenas é de 0,1%.

O estudante Emerson Gabriel Santos, de 25 anos, é veterano do curso de história da Universidade de São Paulo (USP). Autodeclarado preto, ele defende as cotas raciais na instituição e é professor do cursinho popular. Segundo ele, os números divulgados pela Fuvest assustam. “Os números falam por si e é muito triste e absurdo. De uma sociedade de 53% de negros, 3,5% estão na USP”, afirmou ele. “São 126 anos da abolição da escravidão e como esse número pode ser tão pequeno? E é preocupante também. A universidade deve fazer algo a respeito.”

Para Emerson, o fato de os estudantes pretos serem minoria também afeta o cotidiano deles na USP. “A recepção desses alunos na universidade é violenta e excludente. O curso de medicina é integral, como as pessoa sque são da periferia vão trabalhar? A universidade não dá permanência para os alunos. Eles não têm auxílio. Sem contar a sociabilidade que é outra”, diz ele. “As universidades federais já aceitaram as cotas e tem sido efetivo. Como a USP ainda está pensando a respeito? É necessário abrir perspectivas para os alunos negros de escolas públicas. Eles precisam saber que tem chances de entrar, que existem vagas para eles.”

Cristiane Capuchinho, Ana Carolina Moreno e Gabriela Gonçalves

Acesse no site de origem: Não há calouros pretos em 6 dos 10 cursos mais concorridos da Fuvest (G1, 03/06/2015)

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