Racismo na Web: Como denunciar?, por Maria Lidiane

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(Carta Potiguar, 05/07/2015) O crime impera no país como algo normal. Essa frase poderia estar sociologicamente incorreta, mas o racismo que se realiza todos os dias no cotidiano nacional, foi nesta última semana direcionada a Maria Julia Coutinho, jornalista da Rede Globo de Televisão, primeira mulher negra a apresentar a previsão do tempo, que sofreu nas redes sociais e sites, foram vários os ataques racistas!

Leia mais: 
Polícia identifica suspeito de publicar agressões contra Maju Coutinho (Correio Braziliense, 07/07/2015)
Brasil: onde racistas só se surpreendem com o racismo dos outros (Carta Capital, 06/07/2015)

Antes de qualquer coisa gostaria de me posicionar, ou seja, informar de onde eu falo, eu sou quilombola, sou mulher, sou negra e sou estudante de direito.

Evidenciar as diferentes formas de desigualdades é urgente no Brasil, mas me coloco entre aqueles que têm nas desigualdades de gênero e de raça seus eixos de luta. Mas existem outras formas que não podemos deixar de citar (a geracional, a educacional, a política e a econômica).

Fala-se muito no problema da corrupção, mas sem dúvida o maior problema do nosso país é a desigualdade.

Dentre as diversas formas de desigualdade já citadas, a racial é a que deve ser enfrentada com maior perseverança, pois antes mesmo do negro ou da negra ter que superar as desigualdades de classe (econômica) tem que se afirmar como ser humano.

É evidente que muitos saíram da miséria nos últimos vinte anos, no entanto a distância entre riscos e pobres ainda é imensa, sobretudo se compararmos as condições sociais da população negra e branca.

No Brasil a marca da raça faz com que a superação das desigualdades seja um enorme desafio, pois o ódio racial dificulta a emancipação, por exemplo, o acesso à universidade pela população negra, ou mesmo a própria permanência nestas instituições. Um exemplo disso é o discurso de ódio contra as cotas, ora! a legislação brasileira impõe cotas femininas aos partidos que concorrem as cadeiras parlamentares (vereadoras, deputadas estaduais, federais e senadoras) e não há uma grande aclamação contra essas cotas, que inclusive são espaços de poder e tomada de decisão, mas quando se fala em cotas para universidade então os proclamadores da “meritocracia” entre muitas aspas, dizem que é errado, que não pode, que não é certo…

Estar em uma universidade no Brasil é muito mais do que ter acesso à educação superior é afirmar-se como cidadão, pois se uma negra me vê na universidade ela pode se reconhecer em mim, e, sonhar com um futuro melhor para ela e para sua família, até mesmo para sua comunidade, mas se só há brancos nas faculdades então não há com o que sonhar…

Mas como enfrentar as dificuldades que a desigualdade racial impõe? Entrar na universidade é o suficiente? Sem dúvida é um grande desafio, mas permanecer e concluir um curso superior com qualidade é um desafio maior ainda, para aquelas que saem muitas vezes da casa dos seus pais como é o meu caso (vindo de um quilombo) e fazer um curso historicamente destinado aos brancos das elites. Não, não é uma tarefa nada fácil, pois se enfrenta vários obstáculos, racismo institucional, dificuldades econômicas, saudade de casa… são vários os elementos que concorrem contra aqueles que querem romper limites e sonhar…

O que devemos fazer? Sem dúvidas não existem formulas prontas e acabadas, mas podemos encarar os nossos maiores obstáculos como o combustível para superar nossas dificuldades, pois sendo o Brasil historicamente racista, economicamente racista, esteticamente racista, culturalmente racista, ai é que temos cada vez mais que fortalecer as nossas lutas e organizações políticas, tentar ao máximo superar nossas diferenças e interesses internos no movimento negro, para que no futuro próximo não seja mais uma realidade que a elite branca predomine nos cargos públicos de alto escalão, nas chefias empresariais e na direção da grande imprensa.

A militância dos movimentos negros (juventude, mulher, urbanos e rurais) é a melhor maneira de fazer frente à opressão racial. Pois é através da resistência, que manifestamos nosso projeto de justiça e nos definimos como sujeitos políticos, seja ocupando espaços antes destinados exclusivamente aos brancos, seja cobrando e pressionando aqueles que ocupam os cargos de poder e tomada de decisão.

Por fim, gostaria de destacar enfaticamente que no Brasil há distorções em sua estrutura social e racial que não favorecem ao debate público e o aprofundamento dos argumentos em prol da equidade racial e das importantes mudanças necessárias na esfera pública. Resta-nos, portanto impor o tema, desigualdade racial, como uma das principais ordens do dia!

A Polícia Federal tem um canal exclusivo para denúncias de racismo na internet. Acesse para denúncias: PF – Denúncia de Racismo na WEB

Acesse no site de origem: Racismo na Web: Como denunciar?, por Maria Lidiane (Carta Potiguar, 05/07/2015)

 

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