Sexo sem nexo, por Helena Celestino

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(O Globo, 02/04/2014) Estupro é o novo tema da guerra cultural americana, um recém-chegado na lista dos assuntos que dividem conservadores e liberais em visões de mundo radicalmente diferentes. Lá, como aqui, os números são horrorosos; uma a cada cinco americanas conta já ter passado pelo trauma do estupro em algum momento na vida, número não muito menor do que o de brasileiras que sofreram violência sexual. E aqui, como lá, na hora de refletir sobre a barbárie, nós mulheres levamos a culpa. “Se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”, dizem 58% dos pesquisados pelo Ipea e repete uma turma muito diplomada em programas de rádio e colunas de jornais nos EUA. “Se as meninas bebessem menos, o estupro praticamente desapareceria”, afirmou num debate semana passada uma intelectual cinquentona do Manhattan Institute, do alto dos seus diplomas de Yale, Stanford e Cambridge. Foi entendido, claro, como declaração de guerra contra as mulheres, só que outras vozes vêm ecoando opiniões semelhantes, em tribunas importantes com o a revista “Time” ou a “Slate”.

“É uma onda conservadora aqui nos EUA e na França. Faltou o Ipea perguntar se os homens merecem ser atacados quando estiverem de short e mamilos de fora”, provoca a escritora Shuma Shumaher, da ONG feminista Redeh, envolvida na campanha “Quem ama, abraça”.

A grande polêmica é se existe uma cultura do estupro nos EUA. As feministas chamam assim as atitudes e comportamentos que dão aparência de “normais” aos ataques sexuais, amparados por um sistema que não dá ajuda adequada às vítimas e é benevolente com os agressores. “Estupro é tão americano como torta de maçã”, disse a blogueira Jessica Valente. E indiretamente concordou a Casa Branca, defendendo mudanças na cultura de tolerância com o assalto sexual nos campi universitários.

Puro exagero, diz a outra turma. Acostumados a pensar em estupro como coisa da África ou Índia, os americanos ficam chocados quando são confrontados com uma realidade de violência contra mulheres nas universidades, nas Forças Armadas e nas famílias perto de casa, exatamente como acontece em países considerados — digamos — menos civilizados por eles. Um quarto das mulheres soldados — 28 mil por ano — é estuprada por colegas de farda e uma a cada cinco universitárias já foi atacada sexualmente por alunos da faculdade. Eles confessam: 7% dizem que estupraram jovens no campi, dois terços deles repetiram a cena muitas vezes — seis em média, constatou pesquisa da Pew University. Poucos são presos ou processados, porque elas não dão queixa e/ou os policiais acham um delito desimportante.

Para minimizar o impacto na autoestima da nação, sobra para as mulheres — numa reação semelhante a de 65% dos entrevistados pelo Ipea, que consideram aceitável a violência sexual contra mulheres com roupas justas ou decotadas. Os argumentos? Elas bebem demais, provocam os homens e inventam coisas. Os pobres homens são sempre considerados culpados, por juízes intoxicados pelo discurso da blogosfera feminista.

Parece opinião de gente simplória ou religiosa? Nada disso, é uma narrativa com aspirações libertárias. “É tempo de acabar com a histeria da cultura do estupro”, escreveu Caroline Kitchens, na edição de 20 de março da “Time”. Segundo ela, a teoria do estupro como parte “bastarda” da cultura está fazendo pouco para ajudar as vítimas, mas muito para envenenar mentes de jovens e criar ambientes hostis para machos inocentes. Há alguns meses, a colunista de comportamento da “Slate” tornou-se viral com a palavra de ordem: “universitárias, parem de ficar bêbadas”. Repetiu-se a polarização: uma turma acusou-a de culpar a vítima e desculpar o estuprador. Já o outro lado defendeu a tese da colunista, as meninas precisavam tomar mais cuidado com elas.

Tá bom, pode ser exagerado pedir para derrubar a escultura de um homem de pé porque lembraria às meninas momentos traumáticos. Ou proibir o show de um músico no campus porque as letras das músicas eram pesadas, estilo funk proibidão.

Mas vamos combinar, estupro é crime violento, esteja a mulher sóbria ou bêbada, de burca ou biquíni, vestida com farda ou minissaia. Sinal de que não avançamos muito como civilização é a necessidade de realizar, em pleno século XXI, uma megaconferência, com 141 países e Angelina Jolie de hostess, para criar políticas contra o assalto sexual como arma de guerra.

A brasileira Nana Queiroz tem toda razão, nenhuma mulher merece ser estuprada.

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