Violência contra a mulher avança com coronavírus na América Latina

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Com isolamento social, milhares de mulheres são obrigadas a ficarem em casa com seus agressores. Região é a mais perigosa para se ser mulher no mundo

(EFE, com R7, 13/04/2020 – acesse no site de origem)

Silêncio e resignação. É assim que milhares de mulheres têm sobrevivido em casa durante as quarentenas impostas por governos locais para evitar a propagação do coronavírus mas se encontram diante de outra ameaça, uma ainda mais cruel, visível e, por vezes, inevitável: a violência contra a mulher.

América Latina é o lugar mais perigoso do mundo para se ser mulher e registra taxas recordes de violência de gênero todos os anos. Agora que casais são obrigados a viver juntos por tempo indeterminado, as mulheres se encontram em uma situação ainda mais delicada que antes.

As mulheres não podem deixar as casas devido ao isolamento social e muitas nem têm outro lugar para ir. Outras têm mais medo de irem para algum hospital e correrem o risco de serem infectadas pelo coronavírus e morrerem sozinhas.

Sendo assim, a única solução que essas mulheres encontram são ligações para denunciar os parceiros, e o número de denúncias já subiu no Brasil, Argentina e Colômbia. Na República Dominicana, porém, o número de reclamações caiu.

Com a expansão das quarentenas e das incertezas, as agressões contra as mulheres podem aumentar em todos os países da região, dizem governos e ONGs.

E como se fosse um gráfico de contágio, espera-se que a violência dentro de casa chegue a uma curva ascendente que possa atingir seu pico quando o confinamento terminar, alerta a presidente da Comissão Interamericana de Mulheres (CIM) Janet Camilo.

“Quando essa crise começa a se acalmar e as pessoas começarem a sair às ruas para tentar normalizar suas vidas, acho que então poderíamos ter picos ao solicitar serviços (assistência às vítimas), poderíamos ter picos de violência “diz Camilo, também ministra da Mulher da República Dominicana.

Aumento da tensão

Valeria Caggiano, uma das porta-vozes do Intersocial Feminista, que agrupa 31 grupos feministas no Uruguai, esclarece que não é “durante a noite” que as casas se tornam violentas, mas que a tensão do confinamento faz com que as situações vão “se escalando”.

“Existe a tensão de não ter um sistema de atendimento, de não ter um sistema educacional e, em algumas casas, de não ter acesso ao ar livre. Tudo o que o confinamento envolve em casas que já passem por esse tipo de tensão, se multiplica”, sublinha.

Na mesma linha, Teresa Herrera, presidente da Rede Uruguaia contra Violência Doméstica e Sexual (RUCVDS) diz que é “senso comum” entender por que o confinamento é “uma bomba-relógio” para mulheres e crianças vítimas de agressões e violência doméstica.

“Sabemos que entre a quarta e a quinta semana de isolamento é quando as coisas ficam mais complicadas, e é isso que queremos evitar”, acrescenta.

Na China, Itália ou Espanha, houve um aumento nas queixas de violência de gênero e “em alguns casos, os casos de violência até dobraram”, destaca.

Medo do vírus e morrer sozinha

Os números de violência, coletados pelas centrais de atendimento da vítima, surpreendem na América Latina.

Um dos casos mais surpreendentes é o da República Dominicana, o país com a quinta maior taxa de feminicídios da América Latina e onde o número de reclamações diminuiu durante esses dias de confinamento em casa.

Isso não significa, aponta Janet Camilo, um nível mais baixo de violência. A presidente da CMI diz que muitas mulheres preferiram ficar cara a cara com seu agressor do que lidar com a solidão de um hospital ou de um lar adotivo.

“As pessoas têm mais medo de morrer sozinhas, do que ficar em casa e enfrentar a morte iminente. Elas têm mais medo de enfrentar a morte sozinhas em um hospital, ou ir a um lar adotivo e ter um membro da família contraindo a doença e não poder visitá-los”, resume Camilo.

De fato, desde que o estado de emergência foi declarado, várias vítimas de violência deixaram os abrigos em busca de refúgio nas casas de parentes que se ofereceram para recebê-las, para que não fiquem sozinhas no momento.

Nos primeiros dez dias de confinamento, houve 238 pedidos de socorro na República Dominicana, um número abaixo da média, e uma mulher haitiana foi assassinada na cidade de Barahona, um número baixo para um país com uma média de quase sete feminicídios por mês.

Violência que não para

Mas em outros países como o Brasil ou a Argentina, a violência contra as mulheres simplesmente não parou.

A Argentina decretou a quarentena total do coronavírus em 20 de março e, desde esse dia até o final do mês, havia 9 femicídios, quase um por dia, que somam aos 60 registrados desde o início de março.

Em 29 de março, as associações feministas convocaram um “barulho” nas varandas para denunciar o agravamento da violência de gênero, um dia depois que mais cinco feminicídios foram rregistrados, segundo a organização Mujeres de la Matria Latinoamericana (Mumalá).

O Ministério da Mulher, Gêneros e Diversidade informou à agência Efe que havia “um pico de consultas” no telefone 144 do aplicativo de quarentena, mas isso pode “responder a vários fatores”, pois as consultas podem estar relacionadas a outros questões não relacionadas à violência de gênero.

No Brasil, o país que mais mata mulheres na América Latina, as queixas por telefone aumentaram 17,97% nos nove dias seguintes à data em que o confinamento entrou em vigor em vários estados, segundo dados do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

E no Rio de Janeiro, uma das regiões que mais registra esse tipo de agressão, os pedidos de medidas restritivas aumentaram 50%.

Houve até um aumento de reclamações nas delegacias de polícia, apesar de os serviços do sistema judicial terem sido oferecidos remotamente desde que a medida foi implementada.

“Embora essas mulheres tenham dificuldade de se deslocar devido às medidas de restrição, elas conseguiram chegar nas delegacias”, disse à Efe Flávia Nascimento, coordenadora de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Rio de Janeiro.

Dificuldades das mulheres mais pobres

Como forma de facilitar a comunicação, o governo brasileiro, e outros países da América Latina, implementaram um aplicativo através do qual não apenas os casos de violações domésticas podem ser denunciados, mas também qualquer tipo de violação de direitos fundamentais.

Mas para muitas pessoas que vivem nas periferias e nas favelas do Brasil, principalmente mulheres negras e mulatas, isso não é uma solução.

Seus telefones celulares não são de última geração, a internet é um luxo para se ter em casa, além de que as delegacias estão a quilômetros de suas casas.

O reforço dos canais de atenção às mulheres tem sido uma tendência geral na região: o Ministério da Mulher, Gênero e Diversidade do Uruguai reforçou sua equipe de atenção e criou novos canais de comunicação direta on-line.

Na República Dominicana, o serviço é mantido 24 horas e as mulheres são aconselhadas a entrar em contato pelas redes sociais, caso não consigam fazer a denúncia por telefone.

Com esse panorama, a coordenadora nacional da organização feminista argentina Mumalá, Silvia Ferreyra, destaca que as soluções são ainda mais complexas para as mulheres que, diante do confinamento, pensam na possibilidade de procurar um lugar alternativo para passar a quarentena devido à “vulnerabilidade econômica”.

Diante disso, Ferreyra recomenda “não se isolar” durante o confinamento.

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