Violência contra mulheres: evidências podem salvar vidas, por Ilona Szabó de Carvalho

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Ser mulher é um dos principais fatores de risco de quase todo tipo de violência

(Folha de S.Paulo, 04/12/2019 – acesse no site de origem)

Há 59 anos, no dia 25 de novembro de 1960, Patricia Mercedes Mirabal, Minerva Argentina Mirabal e Antônia María Teresa Mirabal —as irmãs Mirabal— foram brutalmente assassinadas ao se opor à ditadura de Rafael Leónidas Trujillo na República Dominicana.

Mais do que outras vítimas de ditaduras truculentas que se instauraram na América Latina na segunda metade do século 20, elas foram violentamente atacadas por serem mulheres.

Quase quatro décadas depois, a data marcaria o Dia Internacional para Eliminação da Violência contra Mulheres pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1999. A data marca também o início dos 16 dias de luta pelo fim desse tipo de violência.

A violência contra mulheres é silenciosa. Na maioria das vezes, ocorre em seus lares e é perpetrada por aqueles que estão mais perto delas.

Por outro lado, há uma face pública, que, inclusive, viola seus direitos políticos e coloca uma série de barreiras para que possam representar seus próprios interesses.

Ambas têm em comum a naturalização de uma crença de que homens e mulheres não têm o mesmo status na sociedade.

É diante dessa aparente desigualdade que, por muitas vezes, os seus corpos viram propriedade do outro, seja para satisfazê-lo, seja para puni-las.

Para jogar luz sobre a dimensão e a gravidade da questão, a plataforma de dados e informações sobre violência contra mulheres Eva (Evidências sobre Violências e Alternativas) para mulheres e meninas, foi lançada pelo Instituto Igarapé.

Inicialmente com dados sobre o Brasil, Colômbia e México, identifica os padrões de vitimização de mulheres e contribui para a elaboração de políticas públicas para prevenir, reduzir e eliminar a violência contra elas. O que Eva nos mostra é chocante: ser mulher é um dos principais fatores de risco para sofrer qualquer tipo de violência.

Mulheres são as mais frequentes vítimas de todos os tipos de violência no Brasil, com exceção da letal: violência física (73%), patrimonial (78%), psicológica (83%) e sexual (88%). A maioria das vítimas —40%— são mulheres jovens, entre 15 e 29 anos.

Isso gera um impacto não somente na vida delas, como também na das pessoas ao seu redor e até mesmo na produtividade do país, já que a violência gera ausências no trabalho, demissões e diminuição de performance.

Nossas crianças, em especial meninas, também são as mais atingidas: as de 0 a 14 anos aparecem como principais alvos de violência sexual, com 56,4%. O perfil de vitimização é distinto.

Enquanto desconhecidos estão entre os principais agressores, com 44% para mulheres adultas, no caso das meninas são os conhecidos os maiores algozes, representando 65% dos casos. Somente os familiares chegam a quase 30%.

Há outra evidência da Eva que merece destaque. É gritante a ausência de dados sobre o perfil demográfico de vítimas e agressores, e sobre os fatores de risco relacionados ao ambiente, como local, dia e horário do crime.

Esses e outros dados são fundamentais para compreendermos o padrão desse tipo de violência silenciosa e entranhada em certos valores e crenças com os quais convivemos há muitas gerações.

Demos um primeiro passo para reunir informações oficiais e desagregadas sobre violência contra mulheres.

Agora, é preciso que as autoridades públicas melhorem a produção de informações e se baseiem nelas ao produzir políticas públicas dedicadas a preveni-las.

Apenas assim mortes como as das irmãs Mirabal e de milhares de mulheres no Brasil, na América Latina e no mundo afora, poderão ser evitadas.

Por Ilona Szabó de Carvalho

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