Violência de gênero é um problema da educação

31 de março, 2026 Folha de S. Paulo Por Amanda Sadalla

  • Estudo aponta que 7 em cada 10 professores presenciaram, no último semestre, meninos sexualizando meninas
  • Enquanto recursos seguem concentrados no enfrentamento, e não na prevenção, Brasil falha em proteger jovens

A sociedade brasileira está mobilizada diante de mais uma sequência de casos de violência contra meninas e mulheres. Mas é preciso dizer com todas as letras: estamos enxugando gelo. Enquanto a violência de gênero não for tratada como parte central do currículo escolar, esse cenário não vai mudar.

Os sinais estão por toda parte. No mesmo período em que o país se mobilizava diante de casos brutais, a trend “caso ela diga não” viralizava entre meninos e homens. Esses episódios não são desconexos. A violência extrema é apenas a ponta de um problema estrutural que está sendo alimentado diariamente.

E esse problema também está dentro das escolas. A pesquisa “Livres para Sonhar,” realizada pela Serenas — ONG que previne a violência de gênero no país via educação— com mais de 1.300 professores, mostra que 7 em cada 10 presenciaram, no último semestre, meninos sexualizando meninas ou fazendo cantadas indesejadas.

Quase metade dos professores afirma que os próprios colegas fazem comentários machistas sobre alunas ao menos algumas vezes no período letivo.

O impacto dessas violências é profundo e a escola não está preparada para enfrentar esse cenário. Apesar de 77% dos professores afirmarem que precisam de formação para lidar com o tema, apenas 1 em cada 3 teve acesso a alguma capacitação.

Mas é preciso lembrar que o problema começa antes mesmo da violência explícita. Estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com adolescentes mostra que meninos concordam mais frequentemente do que meninas com ideias como a de que homens são melhores líderes políticos ou mais aptos à tecnologia, enquanto mulheres seriam mais sensíveis ou mais preparadas para o cuidado.

Ou seja, enfrentar as violências exige atuar nas suas raízes, transformando as crenças e normas sociais que as sustentam, desde cedo. Daí a importância da escola.

E, apesar de isso já estar previsto na Lei Maria da Penha, que estabelece desde 2006 o papel da educação na prevenção da violência contra a mulher, na prática, isso não acontece. Na última semana, o Governo Federal anunciou a inserção de conteúdos sobre violência contra a mulher no currículo escolar, um passo importantíssimo. Agora, é preciso compromisso local para sua implementação.

Não há no Brasil investimento consistente em prevenção à violência de gênero no campo educacional. Os recursos seguem concentrados no enfrentamento. As políticas educacionais, em sua maioria, não contam com orçamento, formação docente, materiais ou diretrizes para trabalhar o tema de forma estruturada.

E isso se reflete no cotidiano escolar. Quando uma menina é sexualizada em sala e isso é tratado como brincadeira, a escola ensina que aquilo é aceitável.

Quando professores desestimulam meninas em áreas como matemática e tecnologia, contribuem para a reprodução de desigualdades. Quando o currículo ignora a produção intelectual de mulheres, especialmente negras e indígenas, reforça a ideia de que certos espaços não lhes pertencem.

Educar para prevenir violência de gênero passa por tudo isso e também por ensinar sobre consentimento, garantir que meninas reconheçam seus direitos e que meninos aprendam formas saudáveis e não violentas de exercer sua identidade.

O Reino Unido, por exemplo, colocou a educação no centro da estratégia de enfrentamento à violência, incorporando consentimento, relações saudáveis e o enfrentamento da misoginia no currículo. No Brasil, seguimos tratando esse tema como uma agenda trabalhada pela educação somente (e quando) no mês de março.

Sem políticas educacionais com recursos específicos para prevenção de violência de gênero, continuaremos indignados e enxugando gelo.

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