Levantamento mostra que um em cada cinco brasileiros já teve contato com imagens íntimas falsas criadas por IA

Woman waiting and playing on her phone

Foto: Freepik

28 de setembro, 2026 O Globo Por Esther Gama

Estudo destaca que 37% da população está nos níveis alto ou muito alto de conscientização sobre violência contra mulheres; os conteúdos são mais acessados por homens

Uma em cada cinco pessoas teve algum contato com imagens íntimas falsas geradas por Inteligência Artificial (IA) em 2025, aponta o Índice de Conscientização sobre Violência contra Mulheres, divulgado nesta terça-feira, pelo Instituto Natura e pela Avon. O estudo também mostra que, em 2026, 37% da população foi classificada nos níveis “alto” ou “muito alto” de conscientização em relação à violência contra as mulheres, o resultado é oito pontos percentuais acima do apurado em 2025. Entre as mulheres, 44% estão nesses dois níveis de conscientização, já entre os homens, 28%.

É a primeira vez que o levantamento aborda a percepção e a experiência da população em relação à violência digital contra as mulheres, incorporando o tema em um contexto de popularização da IA e a expansão dos chamados “Red Pill”, comunidades online que disseminam discursos de ódio contra as mulheres.

Os dados foram coletados com pessoas acima de 18 anos e mostram que o contato com imagens íntimas falsas produzidas por IA é mais frequente entre homens e jovens de até 25 anos. Foram realizadas 2.845 entrevistas de forma online, por meio de captação em redes sociais.

A psicóloga especialista em psicanálise, Cláudia Melo, explica que os discursos de comunidades Red Pill conseguem atrair principalmente homens jovens, que vivem rejeições e frustrações, que encontram no grupo um lugar que parece explicar tudo o que sentem.

— A questão começa a ficar preocupante quando eles encontram uma explicação pronta para o que está sentindo: “o problema são as mulheres”. Porque aí ele não precisa entrar em contato com a própria frustração. E, aos poucos, deixa de enxergar a mulher como uma pessoa e passa a representar aquilo que o frustrou. Quando isso encontra um grupo que reforça continuamente a mesma ideia, pode surgir muito ressentimento e hostilidade. Existe uma relação entre o consumo frequente de conteúdos Red Pill e a radicalização de determinadas percepções sobre gênero, a pessoa começa a enxergar o mundo por essa lente — analisa Melo.

Medo da própria vida

O levantamento também aborda dados sobre situações de violência vividas por mulheres. No estudo, metade das entrevistadas afirmou já ter sentido medo pela própria vida durante uma discussão ou confronto e seis em cada dez relataram já ter passado por situações em que suas opiniões, ideias ou sugestões não foram levadas em consideração, comportamento associado à violência psicológica.

Entre as mulheres que vivenciaram essas situações, 32% relataram já ter deixado de receber pensão alimentícia do ex-companheiro, situação que pode ser classificada com violência patrimonial contra a mulher.

Do total dos entrevistados, 81% acreditam que existem formas de violência contra as mulheres que vão além da física e da sexual, cada pessoa mencionou, em média, apenas 1,71 tipos de violência contra a mulher.

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