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Medo da dor é motivo mais citado por mulheres que escolhem cesariana, método mais invasivo
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Projeto-piloto da Fiocruz com a Embaixada da França será aplicado em dez maternidades do país
Evelin Cristina Pereira, 37, estava pálida, tremendo e com sinais de exaustão quando a doula Rafaela Assis conseguiu acompanhá-la no hospital onde teria sua primeira filha, em fevereiro de 2022, na cidade de Campo Largo (PR).
Algumas horas depois, durante o parto, quando Evelin estava delirando de dor e tão cansada que não conseguia fazer força, a doula solicitou analgesia. Durante o parto vaginal, explicam especialistas, a anestesia peridural pode ser usada para que a mãe descanse e sinta menos dor.
A médica teria respondido que não fornecia anestesia nem para parturientes de planos de saúde, muito menos para as do SUS (Sistema Único de Saúde), conforme os autos da ação em que foi condenada por violência obstétrica no final de 2025.
A fala, reproduzida três vezes na sentença, ajuda a ilustrar uma realidade nacional. Entre 2022 e 2025, em hospitais particulares, 32% das mulheres receberam anestesia durante o parto vaginal. Nos hospitais públicos, essa porcentagem cai para 8,6%. Em geral, a oferta de anestesia se restringe a 11,6%.
Os dados preliminares são do inquérito Nascer no Brasil 2, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, que acompanhou mais de 22 mil mulheres em 395 maternidades. O relatório será publicado em 2027.
A baixa disponibilidade da anestesia peridural nas redes pública e privada representa uma naturalização da dor do parto, segundo obstetras. Isso ajuda a explicar por que o Brasil tem um alto índice de cesarianas, afirma a coordenadora da pesquisa, Maria do Carmo Leal, médica sanitarista e especialista em saúde pública.
Como médicos, nossa função é tirar a dor. Então, somos muito sensíveis às pessoas com dor. Mas quando é uma gestante, perdemos essa sensibilidade
Rômulo Negrini
Vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Parto da Febrasgo
A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que as cesarianas representem de 10% a 15% do total de partos. No Brasil, esse percentual chega a 47,6% em hospitais públicos e a 81,3% em hospitais privados.
Em gravidezes de baixo risco, a cesariana é associada a piores desfechos tanto para a mãe como para o recém-nascido. Estudos apontam que recorrer ao procedimento sem indicação médica pode triplicar o risco de morte materna e aumentar em cinco vezes a chance de embolia amniótica.
No estudo Nascer no Brasil 1, publicado em 2014, o motivo mais citado por mulheres que escolheram passar por cesárea foi o medo da dor (46,6%).
Sobre a experiência do parto em 2022, Evelin conta que, após ter a analgesia negada, pediu uma cesariana para o médico que havia assumido o plantão. “Eu já não tinha mais forças”, lembra. “Ele falou que não dava mais, que já tinha passado o momento.”
Após o nascimento da filha, Evelin recebeu diagnóstico de transtorno do estresse pós-traumático e precisou fazer acompanhamento psicológico por quase dois anos. Após o episódio, no qual diz ter sido tratada com negligência e descaso, decidiu que queria ser enfermeira. Hoje ela está no terceiro ano da graduação e diz ter certeza de que seu tratamento poderia ser melhor.
“Por mais que você não possa fazer uma intervenção muito grande, pode trazer alívio da dor. Poderiam ter me oferecido tomar um banho quente”, afirma. O alívio à dor é um direito da parturiente garantido por lei, apesar de não haver especificação por analgesia.
A pesquisa Nascer no Brasil 2 mostra que métodos alternativos para alívio da dor foram usados em pouco mais de 50% dos partos vaginais.
“Como médicos, nossa função é tirar a dor. Então a gente é muito sensível às pessoas com dor. Mas quando é uma gestante, perdemos essa sensibilidade. Parece que ela tem que passar por isso [a dor]. E não, ninguém tem que passar por isso”, diz Rômulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Parto da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia).
“A Febrasgo defende a analgesia. Não que a gente obrigue ninguém a tomar, mas se esta é uma escolha da mulher, precisa ser respeitada”, acrescenta Negrini.
Em fevereiro de 2026, foi protocolado na Câmara dos Deputados um projeto de lei que busca obrigar a oferta de anestesia quando solicitada pela grávida no SUS. Desde 2013 também tramita na casa o PL do parto humanizado, que inclui o direito à anestesia.
Projeto-piloto quer aumentar oferta de anestesia
“A maioria das mulheres ainda quer ter um parto vaginal no Brasil, mas acaba que, na hora do parto, quando está sentindo muita dor, uma grande quantidade pede cesariana. A nossa troca é que não se peça uma cesariana, mas que se peça uma analgesia”, diz Maria do Carmo.
Maria do Carmo é uma das coordenadoras de um projeto-piloto para ampliar a disponibilidade de anestesia nas maternidades. A experiência é conduzida pela Fiocruz e pelo Instituto de Saúde Coletiva da Ufba (Universidade Federal da Bahia), em acordo com o Ministério da Saúde e apoio da Embaixada da França.
O objetivo é implementar o projeto em dez maternidades do SUS, duas em cada região do país —ainda não há prazo definido. Pela proposta, bombas de analgesia seriam controladas pela paciente. Usado em hospitais de referência na França, o método permite que a mulher acione um botão para aumentar a quantidade de analgésico se sentir mais dor, dentro de um controle interno.
“A França oferece há 40 anos analgesia a todas as mulheres que desejam e tem resultados perinatais de mortalidade materna muito baixos e apenas 20% de cesarianas”, diz Maria do Carmo.
Os especialistas afirmam que as mulheres não são informadas no pré-natal sobre a anestesia peridural, tampouco sobre os riscos da cesariana sem indicação médica. Embora teoricamente essa oferta ocorra no SUS, não há anestesistas nem insumos suficientes para atender a todas.
“Com certeza não há disponibilidade nem financiamento para anestesista em todos os lugares. E os hospitais não são exclusivamente maternidades. Então, chega lá um esfaqueado, um baleado, uma emergência, acaba passando na frente da gestante que está com dor”, diz Negrini.
Em audiência na Câmara dos Deputados sobre parto humanizado, em novembro, a pesquisadora da Ufba Mônica Almeida Neri, cocoordenadora do projeto-piloto, usou uma frase popularizada por uma música do Olodum, famoso bloco afro e grupo cultural brasileiro, para argumentar que a dor do parto é glorificada e naturalizada. Na música ‘Protesto do Olodum’ é cantado que “mãe que é mãe no parto sente dor”.
“Não podemos mais ter este pensamento”, disse Mônica. “A gente tem que disponibilizar métodos não farmacológicos e, se para a mãe não for confortável, que tenha acesso a um método que lhe dê conforto.”
Evelin diz querer trabalhar com saúde da mulher para garantir esse acolhimento. Segundo ela, a própria dor foi tão desvalorizada que, ao fazer exame de corpo de delito para denunciar o hospital, ouviu que deveria apenas ser grata pelo fato de a filha estar bem. “E eu?”, questiona.