Marina Silva é o principal alvo de ofensas contra candidatas no X

Marina Silva – Ministra de Estado do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil Marina Silva - Ministra de Estado do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil

18 de setembro, 2026 Núcleo Por Jeniffer Mendonça

Levantamento do MonitorA revela que 63% dos ataques e insultos foram feitos contra candidatas ao Senado; disputa por cargo considerado estratégico nas eleições deste ano mobilizou comentários ofensivos contra mulheres

Marina Silva (Rede), que concorre ao Senado por São Paulo, é o principal alvo de ataques e insultos contra candidatas no X, segundo levantamento do MonitorA. Ela concentrou 32% das 1.318 ofensas coletadas pelo projeto na rede social entre 16 e 24.ago.2026. No total, candidatas ao Senado Federal foram alvo de seis em cada 10 comentários ofensivos identificados no período.

MonitorA é o observatório de violência política de gênero nas redes sociais durante as eleições, realizado pelo InternetLab em parceria com o Núcleo Jornalismo e o Instituto Democracia em Xeque. Esta é a quarta edição do projeto, fundado em 2020 com a participação do Instituto AzMina.

O conteúdo ofensivo direcionado à Marina reflete casos de misoginia, sobretudo em ataques à sua aparência, e desumanização, ao associá-la a figuras como “tartaruga”, “ET”, “rata”, “parasita” e “vagabunda”.

Os comentários, tanto em texto quanto em uso de imagens, também se destacam pelo etarismo, com ofensas como “múmia” e “velha”, inferiorização e discriminação regional, como “volta para o Acre” e “o que esta parasita sabe sobre o estado de SP?”, a fim de desqualificar sua presença e legitimidade na disputa pelo cargo por São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

A deputada federal Bia Kicis (PL-DF), que tenta uma vaga no Senado pelo Distrito Federal, aparece em terceiro lugar no ranking geral de ofensas recebidas no X e em segundo entre as candidatas ao cargo, concentrando 11% das interações agressivas. Ela também foi alvo de comentários misóginos, com xingamentos como “vaca”, “louca” e “vagabunda”.

Para a coordenadora do InternetLab, Catharina Vilela, o Senado se tornou mais um espaço de amplificação das ofensas à medida que mais mulheres estão almejando um cargo que é estratégico na disputa eleitoral. “Essa foi a primeira eleição desde 2014 que a gente tem mulheres candidatas ao Senado em todos os estados do Brasil”, explica.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 69 mulheres disputam o cargo nas eleições deste ano, representando um aumento de 19% em relação a 2022, quando esse número foi de 58.

Já entre as postulantes a uma cadeira na Câmara dos Deputados, a deputada federal Erika Hilton (Psol-SP), que busca a reeleição, concentra 23% dos comentários ofensivos no X, dos quais 75% eram de cunho transfóbico. É a candidata que recebeu mais ataques e insultos depois de Marina Silva.

As agressões utilizavam o nome morto da parlamentar e pronomes masculinos para descredibilizar sua identidade de gênero, além de uso de trocadilhos e termos que remetem a órgãos genitais masculinos, como menção a ovos, por exemplo, como forma de chacota e humilhação.

Isso significa que parte dos ataques identificados não depende do uso de palavras explicitamente ofensivas. Vilela aponta que essa pode ser uma estratégia para encontrar brechas na moderação de conteúdo. “É um desafio grande de moderação porque exige uma percepção muito clara do contexto em que aquilo está sendo aplicado”, sinaliza.

O X se destacou entre as plataformas analisadas como o que mais concentrou comentários negativos às candidatas. De acordo com Vilela, a dinâmica de funcionamento da plataforma associada historicamente a uma falta de moderação podem indicar essa hostilidade. “O X tem um pouco mais essa proximidade com quem fez aquela publicação, permite mais troca e atrai pessoas que estão ali para discordar de você para fazer comentários negativos”, afirma.

Isso não significa que as demais plataformas monitoradas sejam mais eficazes na moderação. No YouTube, 71% dos comentários ofensivos dirigidos às mulheres monitoradas tiveram como alvo candidatas ao Senado, com Simone Tebet (PSB) aparecendo como a candidata mais atacada na plataforma. Aparecem trocadilhos com seu sobrenome, como “estepe”, e ofensas de desumanização, como “cobra”. Ela, assim como Marina Silva, disputa uma cadeira por São Paulo.

No TikTok, por sua vez, Benedita da Silva (PT), também postulante ao Senado no Rio de Janeiro, foi a mulher que mais recebeu comentários ofensivos entre as candidatas monitoradas. No caso dela, o MonitorA verificou insultos com viés de raça, ou seja, comentários que relativizam a importância das desigualdades raciais ou rejeitam a mobilização da raça por candidatas negras, frequentemente por meio de expressões como “independentemente da cor” ou pela caracterização desse debate como “vitimismo”.

Catharina Vilela, do InternetLab, aponta que essa é uma estratégia semelhante ao do caso da deputada Erika Hilton, em que o conteúdo ofensivo é menos explícito, mas mobiliza a dimensão racial como parte da desqualificação da candidata. Por outro lado, o levantamento também identificou ataques diretos em relação à raça, gênero e idade de Benedita, como “negra filha da puta”, “múmia” e “negra velha”, inclusive com uso de imagens geradas por inteligência artificial, não só no TikTok, mas também nas demais plataformas analisadas.

Com relação aos candidatos homens, o vereador Pedro Rousseff (PT), sobrinho-neto de Dilma Rousseff, e postulante a uma vaga de deputado federal por Minas Gerais, foi o candidato que mais concentrou comentários ofensivos tanto no X (32%) quanto no TikTok (39,6%).

Os conteúdos direcionados a ele foram marcados principalmente por ataques de teor homofóbico e misógino, a exemplo de ofensas como “putinha do PT”, “chupador de rola” e “viadinha nojenta”, além de tentativas de inferiorização e questionamento de sua capacidade intelectual.

Os conteúdos ofensivos também costumam fazer referência ao parentesco com a ex-presidenta a fim de desqualificar sua trajetória, capacidade e legitimidade políticas, como “sobrinha da estocadora de vento”, “como você pode ser tão medíocre? só pode ser genético”, “bosta, arrombando, filhote de puta, sua tia vagabunda fudeu o Brasil”, entre outros.

A pesquisadora destaca como a violência política de gênero extrapola os alvos originais. “A gente está falando de uma pessoa que também escolheu a vida política, mas que é da família dela, e até hoje está sendo atacada. Essa vinculação e por não ser um homem heterossexual são marcadores mobilizados como uma forma de violência”, avalia Vilela.

Acesse a reportagem no site de origem.

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