Episódio exibido em rede nacional ajuda a entender por que a violência contra mulheres segue crescendo no Brasil, mesmo em um cenário de maior visibilidade e denúncia. Ressentimento masculino, radicalização digital e avanço do ultraconservadorismo são pano de fundo desse cenário.
Não foi excesso, nem mal-entendido, muito menos, “parte do jogo”. Foi assédio. E assédio é crime.
O caso envolvendo o ex-participante do Big Brother Brasil 2026, Pedro Henrique Espindola, agora investigado por importunação sexual, escancara uma cena fortemente conhecida pelas mulheres: a tentativa de controle do corpo feminino, exercida mesmo sob vigilância máxima. Mais de 70 câmeras, gravação ininterrupta, exposição total a todo o país. Ainda assim, o agressor acreditou que encontraria um “canto” para assediar. Uma porta, um espaço para acuar e dominar.
Esse “canto” não foi exceção do BBB. O reality apenas mostrou, em cadeia nacional, o que acontece diariamente longe das câmeras: homens que se sentem autorizados a avançar, encurralar, trancar, tocar, dominar. Homens que confundem convivência com posse, proximidade com permissão, desejo com direito.
Houve um tempo em que a violência contra mulheres não virava notícia. Não porque não existisse, mas porque não era nomeada. Não havia câmeras, estatísticas sistematizadas, redes sociais ou debate público. Agressões aconteciam entre quatro paredes. Isso quando não eram tratadas como destino, parte do casamento, da criação dos filhos, da vida privada. A geração das nossas avós cresceu aprendendo a suportar, silenciar, “normalizar” e seguir.
Hoje, a violência está exposta. Filmada. Denunciada. Repetida. Escancarada. Acontece dentro de casas, mas também nas ruas, em estacionamentos, elevadores, condomínios, bares, escolas e transportes públicos. É registrada por câmeras de segurança, celulares e testemunhas ocasionais. Circula diariamente nos noticiários, nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens. O Brasil acorda, quase todos os dias, com um novo caso de agressão brutal ou feminicídio em alguma região do país.
A violência contra mulheres deixou de ser invisível. Mas isso não significa que ela tenha diminuído. Ela persiste , mas, agora, muito mais exposta e problematizada.
O agressor é, geralmente, alguém conhecido
No mundo, cerca de uma em cada três mulheres sofrerá violência física ou sexual ao longo da vida, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), em parceria com a ONU Mulheres e outras agências das Nações Unidas. Na maioria dos casos, o agressor é alguém conhecido — parceiro, ex-parceiro, parente ou pessoa do convívio próximo.
Segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, elaborado pelo Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, foram 718 feminicídios registrados no Brasil, apenas no primeiro semestre de 2025, o que equivale a quase quatro mulheres mortas por dia em crimes motivados por gênero.
Entre as vítimas de estupro, meninas e adolescentes seguem representando uma parcela expressiva. Dados oficiais do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), com base em registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde, indicam que mais da metade das vítimas de violência sexual no Brasil tem menos de 14 anos.
Em grande parte dos casos, o crime ocorre em ambientes que deveriam ser de proteção, como o domicílio ou o círculo familiar, e também é cometido por pessoas conhecidas da vítima. Ou seja, o ambiente doméstico, idealizado como abrigo, nem sempre é seguro para as meninas.
Diante desse cenário, a pergunta que se impõe é direta: a violência contra mulheres realmente aumentou ou estamos apenas percebendo melhor o que sempre esteve ali?
Quando os dados não permitem relativização
Parte do crescimento das estatísticas está, sim, associada a avanços importantes: mais canais de denúncia, maior conscientização, melhor tipificação dos crimes e notificação compulsória na área da saúde. Tudo isso é resultado direto de décadas de luta das mulheres e de construção institucional. Mas essa explicação não dá conta de tudo.
Nos últimos anos, o Brasil passou a conviver com um fenômeno inquietante: enquanto determinados indicadores gerais de criminalidade apresentaram retração, a violência letal contra mulheres permaneceu elevada. A dissociação é reveladora.
O país pode ter se tornado menos violento para a população em geral, mas segue perigosamente letal para mulheres, sobretudo no contexto doméstico e de relações pessoais.
A triangulação entre dados da segurança pública, registros da saúde e pesquisas de autorrelato reforça esse diagnóstico. Houve mais visibilidade, sem dúvida.
Mas os marcadores de severidade seguem altos demais para serem explicados apenas por melhora no registro. A violência, portanto, não está apenas sendo mais revelada. Ela está sendo reiterada.
Ressentimento, ultraconservadorismo e permissividade simbólica
Para compreender por que essa violência persiste e, em alguns aspectos, se intensifica, é preciso olhar além dos números e examinar o ambiente cultural, político e emocional em que ela se produz. Desde meados da década de 2010, o Brasil vive o fortalecimento de agendas ultraconservadoras, marcadas por reação às pautas de igualdade de gênero, hostilidade ao feminismo e ataques sistemáticos a políticas de prevenção e educação.
O discurso que transforma direitos em “excessos” e igualdade em “ameaça” não apenas empobrece o debate público; ele cria permissividade simbólica para a violência. Nesse contexto, o ressentimento emerge como afeto estruturante.
A psicanalista Maria Rita Kehl define o ressentimento como um afeto que nasce da incapacidade de elaborar perdas. Quando transformações sociais profundas — como a ampliação da autonomia feminina — não são simbolizadas como processos coletivos, elas tendem a ser vividas como injustiça pessoal. A frustração sempre busca um culpado.
Em uma sociedade em que mulheres passaram a estudar mais, trabalhar fora do ambiente doméstico, decidir sobre seus corpos, limites e relações, parte dos homens assimilou essa mudança não como avanço civilizatório, mas como expropriação de privilégios historicamente naturalizados.
O ressentimento, então, encontrou um alvo conveniente.
O filósofo Byung-Chul Han ajuda a compreender esse processo ao descrever uma sociedade marcada pela autoexploração, pela individualização do fracasso e pela frustração silenciosa. Quando o insucesso não pode ser atribuído ao sistema, ele se converte em humilhação — e frequentemente em agressividade direcionada ao outro.
Nesse ambiente, a misoginia deixa de ser apenas preconceito. Ela se torna linguagem emocional.