Associado a ‘Boa noite, Cinderela’, uso de droga sem consentimento pode ser violência doméstica

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

29 de janeiro, 2026 Folha de S. Paulo Por Angela Boldrini

  • Caso de Gisèle Pelicot é exemplo extremo de forma ainda pouco estudada de abuso em relacionamento

Um homem admitiu ter drogado e estuprado a esposa repetidas vezes ao longo de 13 anos, convidando outros para violentá-la também. As imagens das violências sexuais foram gravadas e armazenadas em seu computador. O caso traz uma assustadora semelhança com o de Gisèle Pelicot, mas aconteceu na última sexta-feira (23), na Inglaterra.

Gisèle Pelicot é a aposentada francesa que descobriu, em novembro de 2020, que seu marido, Dominique, com quem era casada havia 50 anos, passara a última década drogando-a para que ele e outros homens a estuprassem desacordada. Ela adquiriu fama mundial após abrir mão do direito ao anonimato durante o julgamento que condenou seus algozes, em dezembro de 2024.

Mas estamos falando de Philip Young, um ex-vereador britânico acusado de drogar a esposa, Joanne, entre 2010 e 2023. Ele admitiu tê-la estuprado pelo menos vinte vezes. Outros cinco homens foram acusados de crimes sexuais contra a mulher de 49 anos.

As duas mulheres foram vítimas, além de violência sexual, de violência doméstica —por ter sido perpetrada pelo companheiro— e de um termo menos conhecido, a submissão química. Ela acontece quando uma pessoa recebe drogas, lícitas ou não, para diminuir seu poder de consentimento. O tipo mais conhecido é o “boa noite, Cinderela”, comumente associado a estranhos e ao consumo de álcool —numa festa ou bar, por exemplo.

Os casos de Pelicot e Young são particularmente alarmantes porque escancaram que esse tipo de violência também pode ocorrer no âmbito doméstico —tornando-se, inclusive, mais difícil de identificar. A aposentada francesa, por exemplo, recontou no julgamento ter sido drogada por meio de chás, sorvetes e biscoitos. Passou por três médicos, incluindo neurologistas, porque começou a ter apagões de memória.

Jamais desconfiou do marido e só descobriu que ele era a causa de seus sintomas assustadores (quase bateu o carro em 2018 por não conseguir dirigir em linha reta), quando foi chamada à delegacia, em 2020, e policiais mostraram as fotos em que aparecia inerte, sendo violentada por desconhecidos.

Nesta segunda-feira (25), a Folha publicou uma entrevista com Pelicot, que lança seu livro de memórias “Um Hino à Vida: a Vergonha Precisa Mudar de Lado” (Companhia das Letras) em fevereiro.

Ela foi taxativa: os homens que a estupraram não são doentes e tinham consciência de seus atos. “Eles se serviram, vieram satisfazer seu poder sexual sem refletir um segundo sobre seus atos. Espero que, na prisão, eles reexaminem suas consciências”, afirmou.

Pelicot e Young viveram exemplos extremos de um comportamento que pesquisadores de violência contra a mulher chamam de controle químico. Um estudo publicado em 2023 pela Universidade de Bristol, no Reino Unido, catalogou vários comportamentos abusivos e/ou coercitivos relacionados a medicamentos e drogas.

Entre eles estão se negar a fornecer remédios que o parceiro necessita —por exemplo, escondendo o medicamento— ou forçá-lo a consumir drogas ou álcool com o objetivo de fazer sexo com eles incapacitados. Os pesquisadores concluíram que ainda há poucos estudos e políticas públicas voltadas à prevenção do controle químico como forma de violência intra-conjugal.

No Brasil, o sexo com pessoa inconsciente ou incapacitada é classificado como estupro de vulnerável. A Lei Maria da Penha não prevê diretamente a conduta de incapacitação por álcool ou drogas no artigo em que trata de violência sexual, mas especialistas consultados pela Folha dizem que seria possível enquadrar o controle químico na lei.

Na França, Gisèle Pelicot disse que gostaria de encontrar o ex-marido um dia, para lhe fazer esta pergunta: “Por que, se você me diz que sou o amor da sua vida, você pôde chegar a esse ponto? O que eu fiz para sofrer isso?”

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