Da ‘academia do estupro’ às pedagogias da violência sexual, por Carol Bonomi

20 de maio, 2026 AzMina Por Carol Bonomi

O caso revela menos sobre a pornografia em si e mais sobre a forma como consentimento, masculinidade e violência continuam sendo ensinados socialmente

A recente investigação sobre a chamada “academia do estupro”, divulgada pela CNN, não revela apenas a existência de comunidades organizadas de violência sexual. Ela escancara algo ainda mais profundo: nossa sociedade continua ensinando determinados homens a compreender sexo como dominação, acesso irrestrito ao corpo feminino e exercício de poder. Segundo a reportagem, grupos de homens utilizavam a plataforma pornográfica Motherless para compartilhar milhares de vídeos de estupro de companheiras, produzindo uma verdadeira rede de circulação, validação e consumo da violência sexual.

Longe de descrever toda a brutalidade desses crimes, quero pensar sobre outra questão: o que esse caso nos revela sobre as concepções de sexo, consentimento e violência na sociedade contemporânea? Porque, diante de episódios como esse, rapidamente reaparece uma explicação simplista e moralizante: a culpa seria da pornografia. Mas essa resposta, além de insuficiente, desvia o olhar de estruturas muito mais profundas.

Evidente que não foi por acaso que esses conteúdos foram armazenados em uma plataforma pornográfica. Há um imaginário social consolidado que aproxima pornografia e violência, como se todo conteúdo sexual explícito fosse necessariamente degradante ou não consentido. No entanto, essa associação ignora algo fundamental: a diferença entre violência e fantasia negociada.

Diferenciar pornografia e violência é fundamental

Mesmo práticas pornográficas que encenam coerção, dominação ou situações extremas envolvem acordos prévios, definição de limites, negociação de práticas, autorização de gravação e consentimento para a circulação das imagens. O consentimento não desaparece nesses atos realizados para uma produção comercial. Ao contrário: ele é justamente o que diferencia fantasia de violência.

Talvez uma das maiores dificuldades contemporâneas seja justamente compreender isso. Falamos muito pouco sobre desejo, prazer, corpo, limites, fetiches e sexualidade fora do ideal heterossexual, reprodutivo e considerado moralmente aceitável. Ainda existe enorme dificuldade em discutir sexo para além de valores religiosos, familiares ou médicos que historicamente enquadraram a sexualidade, sobretudo pelo controle dos corpos.

E é exatamente nesse ponto que o debate sobre pornografia costuma se tornar raso. A pornografia não é uma verdade sobre sexo, é uma representação sexual historicamente atravessada por disputas morais, econômicas, tecnológicas e culturais. Como aponta o pesquisador Jorge Leite, a pornografia pode ser entendida como um campo de regulação cultural dos corpos, desejos e práticas sexuais. O que é considerado pornográfico — ou aceitável — nunca foi algo natural, mas uma construção histórica produzida por instituições jurídicas, médicas, religiosas e midiáticas.

Homens aprendem que sexo é posse, acesso e poder

Por isso, o problema central não é simplesmente a existência da pornografia, mas as pedagogias sociais e sexuais que têm ensinado homens a compreenderem o sexo como posse, acesso e poder. Muito antes da internet, mulheres já eram socializadas para a disponibilidade sexual dentro do casamento e das relações afetivas. Durante séculos, o estupro marital sequer era reconhecido como crime. Dentro do casamento, o sexo era tratado como dever conjugal, obediência e lealdade sexual.

Não por acaso, religiões, códigos jurídicos e convenções sociais ajudaram a consolidar a ideia de que determinadas mulheres valiam mais do que outras, e que a sexualidade feminina poderia definir quem merecia respeito, proteção ou violência. O sexo, muitas vezes, era mais associado ao controle e à punição das mulheres do que ao prazer. Essas ideias não desapareceram, apenas se reorganizaram nas plataformas digitais.

Como a violência sexual vira comunidade e lucro

A escolha da Motherless como espaço de circulação desses conteúdos revela justamente isso. Não se trata apenas de ausência de fiscalização. Muitas plataformas lucram diretamente com a circulação de conteúdos violentos, explorando modelos econômicos baseados em engajamento, tráfego e permanência de usuários. Essas imagens também são distribuídas em redes de compartilhamento que articulam sites pornográficos, fóruns e aplicativos como Telegram — ambientes digitais pouco regulados. A violência sexual produz audiência, comunidade e lucro.

Esse talvez seja um dos aspectos mais perturbadores do caso: homens violentavam suas companheiras, e ainda gravavam, compartilhavam, comentavam e transformavam essas agressões em capital simbólico e econômico dentro dessas redes. Há uma dimensão coletiva dessa violência que não pode ser ignorada. O estupro deixa de ser um ato individual e passa a funcionar como performance masculina validada socialmente por outros homens.

Durante minha pesquisa de doutorado, acompanhei diferentes universos da produção pornográfica: desde produtoras profissionais até o chamado pornô amador — conteúdos produzidos pelos próprios trabalhadores sexuais, sem mediação de grandes estúdios.

O pornô amador de plataformas mobiliza fortemente a ideia de “realidade”, como se representasse sexo espontâneo, sem roteiros ou mediações. Mas mesmo o vídeo mais caseiro envolve negociação, antes da gravação existem conversas sobre o que pode ou não ser feito. A fantasia da espontaneidade não elimina os acordos prévios.

O problema é que casos como o da “academia do estupro” se alimentam justamente da destruição dessa fronteira entre consentimento e violência. O que circula ali não é fantasia sexual negociada, é crime sexual transformado em mercadoria digital. A violência sexual não nasce nas plataformas pornôs. Ela emerge de uma longa história social que ensinou homens a interpretar o desejo feminino como algo secundário, negociável ou dispensável.

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