Estupro ainda é estupro, mesmo que ocorra sexo consensual mais tarde

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Jessica Mann manteve relacionamento consensual com Weinstein depois de ser violentada por ele. Para especialistas, acusações dela podem ser totalmente válidas.

(HuffPost Brasil, 17/02/2020 – acesse no site de origem)

Pouco tempo depois de Jessica Mann mudar-se para Los Angeles em 2011 para tentar uma carreira de atriz, ela diz que Harvey Weinstein a atacou sexualmente em um quarto de hotel em Beverly Hills. Conforme o depoimento que ela prestou na semana passada no julgamento de Weinstein em Nova York por agressão sexual, o famoso produtor fez sexo oral nela sem seu consentimento, enquanto sua amiga estava no quarto ao lado.

“Quanto mais eu resistia, mais furioso ele ficava”, ela disse ao júri. O produtor  enfrenta cinco acusações de agressão sexual criminosa que vêm de múltiplas alegações feitas por Mann e por Miriam Haley, ex-assistente de Weinstein.

Mann disse que saiu do encontro no hotel confusa, mas procurou manter um relacionamento com o produtor, em parte porque ele prometera chamá-la para atuar em um de seus filmes.

“Eu tinha feito sexo com muito poucas pessoas. Não podia desfazer o que já tinha acontecido”, disse Mann. Foi nesse ponto, declarou, que ela decidiu “estar em um relacionamento” com Weinstein. A primeira agressão alegada marcou o início de um relacionamento de quatro anos entre Mann e Weinstein, que, segundo o depoimento dela, incluiu atos sexuais consensuais e não consensuais. Ela alegou que Weinstein a estuprou duas vezes durante esse período.

A defesa de Weinstein tentou fazer parecer que os encontros consensuais invalidaram as alegações de estupro feitas por Mann. “Você teve a opção de sair daquele quarto de hotel e nunca ver Harvey Weinstein de novo, certo?”, indagou a advogada de Weinstein.

Mas ao longo do julgamento Mann falou com muita clareza sobre o que lhe aconteceu. “Sei da história do meu relacionamento com ele”, ela disse em seu depoimento. “Sei que ela é complicada e diferente, mas isso não modifica o fato de que ele me estuprou.”

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O relacionamento de Mann com Weinstein pode ter sido complicado, mas não é inimaginável. Vários especialistas disseram ao HuffPost que alguns sobreviventes de agressão sexual de fato fazem sexo consensual com seus agressores depois do primeiro ataque.

“Entendo que isso parece bizarro, é claro”, comentou a Dra. Laura Wilson, psicóloga clínica e professora adjunta da University of Mary Washington, falando ao HuffPost pelo telefone na quinta-feira. “Mas, na realidade, quando você pensa em como as pessoas reagem quando são vitimadas, faz muito sentido.” Wilson, que pesquisa como agem vítimas de agressão sexual depois de sofrer o trauma, explicou que a maioria das vítimas não usa os termos “agressão” ou “estupro” inicialmente para descrever o que lhes aconteceu. Em vez disso, às vezes racionalizam a agressão, dizendo que foi “sexo ruim” ou “erro de comunicação”.

Com frequência, segundo a psicóloga, a vítima está em um relacionamento com um parceiro abusivo. As pessoas tendem a pensar que o estupro é cometido por desconhecidos – não por pessoas que a vítima conhece, como um parceiro, colega de classe ou de trabalho. Assim, quando a violência sexual é cometida por uma pessoa que a vítima conhece (o que ocorre em 80% dos casos, segundo uma entidade americana de apoio a vítimas de estupro, violência e incesto, a Rape, Abuse & Incest National Network), a vítima muitas vezes não tem a linguagem correta para descrever o que aconteceu.

“Sabemos, graças a pesquisas, que as pessoas possuem o que chamamos de ‘um roteiro de estupro estereotipado’”, explicou Wilson. “A maioria das pessoas presume que um estupro geralmente envolve um homem desconhecido violentando uma mulher num beco escuro, que geralmente há uma arma envolvida e que a mulher geralmente resiste. Se qualquer coisa não se enquadra nesse roteiro, não sabemos como encarar. Não sabemos como conceitualizar.”

Por períodos de tempo após a agressão, a vítima pode continuar a estar numa amizade, num relacionamento sexual consensual ou até em um casamento com seu estuprador.

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Além do caso de Jessica Mann, outros casos de agressão sexual envolvendo pessoas conhecidas pelo público seguiram um padrão semelhante. Brooke Nevills, a mulher que acusou o ex-apresentador da NBC Matt Lauer de forçar sexo anal com ela em 2014, continuou a manter um relacionamento sexual consensual com Lauer após o estupro alegado. Muitas das supostas vítimas de R. Kelly, a maioria das quais eram fãs adolescentes, continuaram a manter um relacionamento com o cantor depois das alegadas agressões.

O disparidade de poder entre vítima e agressor é, sem dúvida, um fator que contribui para situações como essas, disse Kristen Houser, consultora e especialista em violência sexual que trabalhou no passado para o National Sexual Violence Resource Center.

“As pessoas que cometem esse tipo de violência são extremamente hábeis em reconhecer vulnerabilidades”, ela disse ao HuffPost. “Não se trata de um equívoco de comunicação, mas de uma pessoa enxergar medo ou vulnerabilidade na outra e tirar proveito disso.”

Durante seu depoimento no tribunal, Mann falou longamente sobre o poder que Weinstein exercia sobre sua carreira profissional e sobre como ela tentou convertê-lo numa figura “pseudopaterna”. Quando a advogada de defesa de Weinstein indagou por que Mann não se afastou dele após o primeiro estupro alegado, Mann respondeu: “Teria sido o fim de qualquer tentativa de carreira”.

Esse desequilíbrio de poder frequentemente conduz ou alimenta um relacionamento abusivo, quer seja emocional e/ou físico, algo ao qual Mann aludiu em seu depoimento quando descreveu Weinstein como uma figura do tipo “médico e monstro”.

Para Houser, é um exemplo clássico de gaslighting cometido por um parceiro abusivo.

“Essa descrição de ‘médico e monstro’ de uma pessoa que é simpática, que aparenta se preocupar com a outra, que aparenta ser autêntica, faz parte de um padrão”, ela explicou. “Isso provoca confusão. Leva a vítima a não acreditar no que ela está vivendo. O contato constante é parte do processo de conservar a vítima confusa, colocando em dúvida a natureza do relacionamento.”

Houser acrescentou que, às vezes, as vítimas de violência sexual concordam em fazer sexo com seu estuprador, depois de atacadas, para sentir que estão retomando seu poder.

“Iniciar um relacionamento ou contato sexual com uma pessoa que te deixou em situação de tanta impotência pode te dar uma sensação de ter superado essa impotência”, ela explicou. “Agora você pode estar no controle. Você pode dar seu consentimento.”

O que aconteceu com Jessica Mann parece se enquadrar nesse fenômeno. Em seu depoimento no tribunal, ela leu um e-mail que escreveu a seu então namorado em 2014. “Lembrei o dia que percebi que eu estava controlando meu mundo, porque fui sexualmente agredida, e aquela história aconteceu quando eu entrei numa dinâmica sexual com pessoas para sentir que nunca mais ninguém ia se aproveitar de mim”, Mann leu em voz alta de seu e-mail, começando a chorar.

A acusação concluiu a apresentação de seus argumentos na quinta-feira, e o próximo passo será a defesa de Weinstein apresentar os seus. A expectativa é que os advogados do produtor chamem especialistas para depor, incluindo um psicólogo que poderá falar da memória humana, provavelmente para colocar em dúvida os relatos de Jessica Mann e outras supostas vítimas.

O julgamento de Weinstein estava previsto para durar pelo menos seis semanas, mas está avançando mais rápido que o previsto. Um veredito pode ser anunciado até meados de fevereiro. Acusado de agressão ou assédio sexual por pelo menos cem mulheres, Weinstein enfrenta cinco acusações de agressão sexual criminosa, incluindo a mais grave, agressão sexual predatória. Se for condenado por essa acusação, ele pode passar o resto da vida na prisão.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

By Alanna Vagianos, HuffPost US

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