O que é consentimento e por que homens acreditam não precisar dele?, por Lívia Reis

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

25 de fevereiro, 2026 Portal Catarinas Por Lívia Reis

O que homens que despem mulheres e meninas com ferramentas de IA e um participante do BBB que importuna sexualmente sua colega têm em comum?

A utilização de ferramentas de inteligência artificial para a prática de violência de gênero através da criação de deepfakes ganhou alcance sem precedentes com a liberação da função no Grok, da rede social X. Após a mudança, o bot começou a gerar um número assustador de imagens falsas de nudez, a partir de solicitações de homens que enviavam fotos de meninas e mulheres, pedindo que suas roupas fossem removidas. Um relatório do Centre for Countering Digital Hate (Centro de Combate ao Ódio Digital) estimou que o Grok gerou cerca de 3 milhões de imagens sexualizadas de mulheres e crianças em um período de 11 dias, uma média de 190 por minuto.

Nas mesmas semanas em que o mundo discutia a gravidade desses fatos, Pedro, então participante do Big Brother Brasil 2026, chama sua colega de confinamento, Jordana, para a despensa da casa. Ele a leva para um canto, segura seu pescoço e tenta beijá-la à força. À primeira vista tais acontecimentos podem parecer desconexos, no entanto, eles convergem para a mesma raiz que origina todo tipo de violência sexual: a convicção de que o corpo feminino é um território disponível onde a vontade da mulher é um detalhe irrelevante.

Em ambos os casos, homens agiram sem pedir permissão e sem qualquer pudor, pois, é importante lembrar, estamos falando de violências publicizadas, praticadas em uma rede social acessível no mundo todo e na “casa mais vigiada do Brasil”, com câmeras transmitindo “ao vivo” 24 horas por dia. Para eles, consentimento não é um critério importante ou sequer necessário, o que importa é atender ao próprio desejo, que não é de prazer sexual, mas de poder.

Autonomia sobre o próprio corpo deturpada por discursos conservadores
O consentimento pode ser entendido como uma expressão de autonomia sobre o próprio corpo, intimidade e vontades. Deve ser livre e espontâneo, uma manifestação afirmativa, cristalina e independente de contextos sociais ou comportamentais prévios da vítima, podendo ser revogado a qualquer momento.

Isso significa que o consentimento não pode ser implícito e não deve ser inferido a partir de suposições ou qualquer fator que não ateste certeza absoluta de que a prática do ato é permitida.

Ao longo da história, o conceito de consentimento vem sendo deturpado por discursos conservadores que julgam vestimentas e atitudes femininas com base no grau de adesão a padrões impostos de recato e submissão, criando mitos de estupro que acabam legitimando a prática de violência sexual e isentando os agressores de responsabilidade sobre a violação. A teoria jurídica aplicada a inúmeros julgamentos que determina ser indispensável a resistência inequívoca da vítima para a caracterização do crime de estupro é um exemplo da concretização desses mitos nas decisões do judiciário.

Essa distorção tem consequências graves: em 2025, o Brasil registrou mais de 83 mil casos de estupro e estupro de vulnerável — uma média de 227 vítimas por dia, ou um crime a cada seis minutos, segundo dados de estados e do Distrito Federal reportados ao Ministério da Justiça.

Promovem as mesmas ideias os conteúdos digitais que repetem à exaustão que mulheres que usam roupas curtas, postam fotos de biquíni ou manifestam qualquer autonomia sobre seus corpos são vulgares e não seriam boas parceiras, pois com esse comportamento estariam “permitindo” que outros homens as objetificassem e as tratassem com desrespeito. São materiais amplamente divulgados que classificam mulheres como disponíveis, sem valor, e que interpretam a violência praticada contra elas como consequência natural dos seus próprios atos.

Mas se aquelas que exibem seus corpos não são desejáveis, por que homens estão pedindo a uma ferramenta de inteligência artificial que remova as roupas mesmo das que se comportam dentro do padrão?

O desejo predominante é o de poder

A normalização da violência sexual a partir da normatização do corpo feminino, que é a imposição de regras que limitam a autonomia desse corpo, funciona como um poderoso instrumento de manutenção de uma estrutura de dominação masculina que depende da submissão feminina para se sustentar. Homens que despem mulheres artificialmente ou forçam um beijo sem consentimento não agem motivados por desejo sexual incontrolável, mas pela necessidade de afirmar domínio, de impor a própria vontade sobre a outra pessoa. Crimes sexuais não são impulsos instintivos, são demonstrações de poder.

A antropóloga Rita Segato, a partir do que chama de “mandato da masculinidade”, define a virilidade não como um dado biológico, mas como um status que o homem é obrigado a adquirir e reconfirmar regularmente através de provas de conquista e domínio. Ensinados desde muito cedo que sua masculinidade deve ser reafirmada a todo momento, homens internalizam a ideia de que precisam tomar o que desejam e que não podem aceitar “não” como resposta, sob pena de serem hostilizados pelos seus iguais. Nessa lógica, o consentimento deixa de ser requisito obrigatório, passando a ser visto como um obstáculo a ser vencido para o alcance do objeto de desejo e, consequentemente, para a conquista da admiração pelos pares.

A IA que “despe” mulheres e meninas e divulga em massa essas imagens adestra o olhar masculino para que veja o corpo feminino como um objeto manipulável e sem vontade própria. Essa técnica de desumanização opera sob o que Segato define como “pedagogia da crueldade”, um processo social que atua na redução sistemática da empatia humana, treinando as pessoas para que consigam executar, tolerar e conviver com atos de crueldade cotidianos.

A violência sexual é mecanismo de controle pelo medo

Se a necessidade de consentir de forma livre e inequívoca é invalidada, qualquer ação pode ser interpretada como “convite” e até um olhar pode ser usado como justificativa para a prática de agressões sexuais. Quando o consentimento é desvirtuado e substituído por suposições do que os homens acreditam que isso seja, não há margem de segurança e qualquer interação será sempre um risco para as mulheres. Isso faz com que passemos a restringir nossa liberdade e nosso modo de ocupar o mundo por sabermos que a ameaça de violação é constante.

Pedir a um robô que remova as roupas de mulheres que têm suas fotos publicadas em plataformas digitais é uma forma de humilhar a vítima e reafirmar o domínio da vontade masculina, desprezando a autonomia de quem é alvo. A violência digital transforma a internet em um ambiente hostil que leva mulheres e meninas a se retirarem de espaços públicos online e a monitorarem seu próprio comportamento na tentativa de evitar ataques.

A normalização de agressões sexuais como a manipulação de imagens ou um “beijo roubado”, muitas vezes retratadas como brincadeiras ou equívocos inocentes, minimiza a gravidade desses atos e transfere a responsabilidade dos homens que os praticam para as mulheres agredidas. A reação social, em regra, endossa e justifica o comportamento masculino enquanto aconselha mulheres a se preservarem, impondo limites para nós e garantindo liberdade total para eles.

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