- Estudo da Universidade de Northumbria aponta que meninos são vistos como ‘filhos do inimigo’ e potenciais terroristas
A repórter especial Patricia Campos Mello esteve na semana passada no campo de detenção de Roj, no norte da Síria. A maior parte dos moradores é composta por famílias de combatentes do Estado Islâmico, predominantemente esposas, viúvas e seus filhos.
Ela relata que essas mulheres vivem em um limbo: muitas não podem retornar a seus países de origem, seja porque eles as rejeitam ou porque elas têm medo; ao mesmo tempo, vivem há anos nas estruturas precárias, sem perspectiva de saída.
A situação delas pode mudar com a chegada à região dos campos do governo de Ahmed Al-Sharaa, que derrubou em 2024 o ditador Bashar Al-Assad. Antes, a região era controlada pelas Forças Democráticas da Síria. Um funcionário da nova gestão afirmou à agência de notícias Reuters que Damasco pretende fechar duas das instalações, incluindo Roj.
A questão das mulheres do Estado Islâmico começou nos anos 2010, quando um grande número de estrangeiras migrou para a Síria e o Iraque para se tornar parte do grupo terrorista. Muitas delas deixaram seus países de origem ainda adolescentes, atraídas por conteúdos de radicalização virtual.
Com o desabamento do Estado Islâmico em 2019, essas mulheres —e seus filhos— se tornaram um problema internacional.
A maior parte dos países não quer recebê-las de volta, por considerar que são uma ameaça à segurança. A Inglaterra, em um caso que atraiu grande atenção midiática, revogou a cidadania de Shamima Begum. Filha de imigrantes de Bangladesh, ela fugiu do Reino Unido em 2015, aos 15 anos. Sua defesa afirma que a adolescente, hoje adulta, foi vítima de tráfico internacional de pessoas.
Um estudo realizado por pesquisadoras da Universidade de Northumbria, na Inglaterra, e publicado em dezembro de 2025 no International Feminist Journal of Politics explora uma outra dimensão do problema: como a perspectiva de gênero aplicada às famílias dos combatentes impacta a decisão sobre quem pode ou não ser repatriado.
A maioria das esposas e viúvas de combatentes teve filhos, que vivem com elas nos campos. E os meninos, em particular, são afetados por noções de gênero que dificultam a sua repatriação.
Eles são vistos, argumentam as pesquisadoras, como “filhos do inimigo” e como potenciais terroristas, mesmo que, por serem crianças, não tenham tido nenhum papel nos conflitos. Essa diferenciação de gênero impacta a capacidade de retorno das famílias.
Alguns desses meninos são separados das mães com apenas 11 anos, aponta o estudo de Northumbria, e muitos são enviados para prisões com ex-combatentes do Estado Islâmico.
A fronteira de envolvimento das esposas e viúvas nas atividades terroristas também é nebulosa. Um relatório do governo dos Estados Unidos, publicado em 2024, afirma que é possível que parte das mulheres nos campos do norte da Síria seja vítima de tráfico humano, como diz a inglesa Shamima Begum.
O direito à repatriação daquelas que se juntaram voluntariamente ao grupo é altamente polêmico, principalmente na Europa. Na Inglaterra e na França, políticos já expressaram que, independentemente do gênero, quem deixou o país para se unir ao Estado Islâmico não deve poder voltar.
O Brasil foi na direção contrária: em 2025, Karina Aylin Rayol Barbosa, 28, pôde retornar ao país. A ex-estudante de jornalismo na UFPA (Universidade Federal do Pará) fugiu em 2016 e tem um filho de sete anos, fruto de um relacionamento com um ex-combatente.
“Te procuro. No dia 30 de outubro de 2003, você me atropelou com seu carro no cruzamento da Colón com a Domingo Bondi. Foi minha culpa. Quase morro. Gostaria de poder conversar com você.”
O anúncio em um jornal do Chile, em meados de 2023, não era trote. A jornalista Catalina May tentava encontrar quem a havia atropelado duas décadas antes, quando ela tinha 23 anos. A investigação foi registrada na série “Te Busco”, do premiado podcast chileno Las Raras. Para narrar seu acidente, Catalina deixou de lado o modelo de uma história por episódio para mergulhar na trama da sua vida durante nove capítulos.
Ao longo da série, entendemos, junto com a protagonista, de onde vinha a obstinação por encontrar a pessoa que a havia atropelado. É uma daquelas histórias profundamente singulares que se mostram universais –nesse caso, um lembrete de que os nós da vida não se desatam sem esforço.