“Gosta de apanhar”: por que é tão difícil sair do relacionamento violento?

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Uma relação violenta se dá em fases. A primeira parte do ciclo é a lua-de-mel, a sedução. A pessoa promete o céu e a terra até ter a parceira na palma da mão e torná-la sua “posse”.

(Universa, 04/10/2018 – acesse no site de origem)

Aí vem a segunda fase do ciclo – e o fim da fantasia – o parceiro despreza a vítima, age maneira grosseira ou se torna muito ciumento.

Então vem a terceira fase: agressões verbais, diminuição da pessoa. É no ápice dessa etapa que se dá o ataque físico. E, na sequência, pedidos de desculpas, flores… atitudes que levam de volta ao ciclo que aprisiona mulheres como a modelo Jessica Aronis, 28 anos.

A história dela é um exemplo de como é difícil tomar a coragem de quebrar esse ciclo. Mas também fez muita gente se perguntar por que ela se manteve em uma relação dessas por tanto tempo. Ao longo dessa reportagem, colocamos os comentários de leitores na matéria que foi publicada na quarta-feira (3 de outubro). Aqui, fazemos uma tentativa de explicar o que leva a mulher a se manter em situação de risco. E tentamos encorajá-las a dar um basta na violência.

Como no drama de Jessica, milhares de mulheres vivem relações física e psicologicamente abusivas, mas não se dão conta porque, por amor, se prendem na parte “romântica” do ciclo e nas promessas de melhora.

Comentários em reportagem sobre a história de Jessica (Imagem: Reprodução/UOL)

Comentários em reportagem sobre a história de Jessica (Imagem: Reprodução/UOL)

Jessica se viu na situação nos últimos seis anos, quando manteve relacionamento com um companheiro que a agredia. Como consequência de todo o abuso psicológico que sofria, perdeu muito peso e ficou fraca. Pode ser difícil mesmo acreditar como uma mulher como ela, que tem uma família estruturada e condições financeiras, pôde ficar tanto tempo em um relacionamento violento. A razão, como vemos a seguir, é emocionalmente complexa.

Mulher foi criada para salvar a relação

Valéria Scarance, promotora de justiça coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo, enfatiza que uma mulher não escolhe estar em um relacionamento abusivo. “Ela começa a se relacionar com um homem que, aos poucos, se torna violento. A violência física só acontece quando a mulher já está fragilizada, quando ela já está dominada”, pontua a especialista.

Jacira Melo, diretora do Instituto Patrícia Galvão, organização que trabalha na divulgação do direito das mulheres, diz que o afeto cultivado na fase da sedução também pode ser um fio que aprisiona esta vítima. “As mulheres foram socialmente criadas para fazer o casamento dar certo”, diz Melo. “Elas se permitem ficar numa situação dessas porque acreditam que podem salvar o parceiro”, complementa a psicóloga Raquel Baldo, de São Paulo (SP).

Além de sentir afeto pelo par, a mulher fica encurralada pelo ciclo de violência, que é psicologicamente muito destrutivo. “Essa alternância do comportamento do agressor, ora violento, ora amoroso, gera uma confusão na mulher sobre ela realmente ser vítima ou estar provocando essa situação”.

Adeus, autonomia

O resultado deste processo lento de dominação é uma mulher sem autonomia e autoestima. “Faz a pessoa perder a própria identidade e se sentir em uma situação em que ela não consegue ver uma saída”, explica a neuropsicóloga Carla Salcedo. “Ela acha que não conseguiria fazer as coisas sozinha, então chega a ficar grata pelo que está passando”, diz Raquel.

O agressor, ainda, tende a isolar a mulher da família e dos amigos, o que torna a ruptura difícil, uma vez que a vítima não conta com uma rede de apoio que pode socorrê-la. “A mulher fica desamparada na própria existência”, afirma Baldo.

Pessoas não compreendem razões de mulher continuar no relacionamento (Imagem: Reprodução/UOL)

Pessoas não compreendem razões de mulher continuar no relacionamento (Imagem: Reprodução/UOL)

Sozinha, a mulher costuma ficar muito tempo sem falar para outras pessoas sobre o que está passando em seu âmbito íntimo. “Como é algo que só ela percebe, acaba ficando muito tempo dentro disso”, fala Salcedo. E se calam por causa do sentimento de constrangimento e culpa por estarem naquela situação. “Elas se perguntam se não são a causadora das ações do marido, se precisam mudar para não sofrer mais”, explica Raquel.

Quebrar o ciclo é possível

Porém, mesmo quando quebram o silêncio e compartilham as situações de violência com um conhecido, muitas vezes as vítimas ouvem frases como “você não tem amor próprio para largar esse homem?” ou “você é idiota de ficar apanhando todos os dias?”. Esta abordagem dificulta que as mulheres busquem ajuda e continuem em silêncio. “Estas pessoas então repetindo o padrão do agressor”, comenta Valéria Scarance. “Enquanto a pessoa tiver uma postura de julgamento em relação à vítima, ela está do lado agressor”, fala Salcedo.

Medo de chamar a polícia

Tudo isso é complicado. Porém, vivemos em um país onde, a cada 2 segundos uma mulher é vítima de violência física ou doméstica no país. Elas também levam em consideração o medo de sofrer uma retaliação por parte do companheiro, caso deem um basta na situação. É uma mistura de esperança com muito medo.

“A lei aqui no Brasil não motiva a buscar ajuda. É um processo longo”, explica Raquel Baldo. “Os dados mostram que as principais vítimas de feminicídio são mulheres que estavam no processo de romper um relacionamento”, explica Jacira Melo. Apenas no ano passado, 1.133 mulheres morreram vítimas de feminicídio no Brasil, de acordo com o anuário sobre crimes violentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Valéria Scarance afirma, no entanto, que mulheres que acionam a polícia são potencialmente salvas. “De acordo com o Raio X do Feminicídio, feito pelo do Ministério Público de São Paulo, em 2018, em apenas 3% dos casos a mulher tinha pedido medida protetiva. Pedir ajuda policial estatisticamente salva vidas”, explica a especialista.

Ao perceber que uma mulher próxima está nessa situação, a melhor forma é amparar a vítima e incentivá-la a buscar ajuda. “Ela não pode se sentir sozinha. Ela precisa compartilhar com as pessoas de forma íntima o que está passando. Enquanto estiver falando sobre o que está passando, maiores as chances de encontrar uma saída dessa situação”, finaliza Jacira. Incentivá-la a ter autonomia pessoal e financeira também é uma rota de fuga. Só pode sair de casa quem tem a chave da porta”, explica Valéria.

Como denunciar?

  • Em casos de emergência, como agressões físicas, é preciso ligar para a Política Militar por meio do número 190.
  • Todas as delegacias no Brasil podem registrar um boletim de ocorrência por violência doméstica, crime amparado pela Lei Maria da Penha.
  • Caso se sinta mais confortável, busque uma Delegacia da Mulher – procure a mais próxima de sua residência na internet. O atendimento especializado funciona em todos os estados brasileiros. Também é possível pedir uma medida protetiva de urgência em qualquer delegacia.
  • Demais denúncias podem ser feitas pelo Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher em Violência), serviço que envia o caso ao Ministério Público e dá orientações jurídicas e de saúde. O número funciona todos os dias da semana, inclusive feriados, 24h.

Natália Eiras

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