Safermanas: mulheres correm sérios riscos ao expor dados; ONG tenta ajudar

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Mulheres que vivem em grandes cidades vivem preocupadas com a violência urbana e, consequentemente, com a própria segurança. “Como chegar segura ao meu destino?” ou “vou de táxi ou de aplicativo?” são perguntas comuns. Mas será que elas têm esse mesmo cuidado com a segurança digital e com a exposição de dados pessoais no ambiente virtual? O descuido com as informações tem feito aumentar exponencialmente os casos de crimes como “sextortion” e pornô de vingança.

(UOL, 01/04/2019 – acesse no site de origem)

Para chamar a atenção das mulheres para essas questões, a advogada e pesquisadora Joana Varon criou a Coding Rights, uma organização composta por um conselho só de mulheres, incluindo estrangeiras. O objetivo é produzir conteúdos mais direcionados e que possam aproximar as potenciais vítimas de apoio e orientação.

A campanha Safermanas (um jogo de palavras que quer dizer mulheres mais seguras), por exemplo, usa os Gifs para discutir o que são senhas seguras, qual app de bate-papo é mais seguro ou como mandar nudes seguros. Parece mais do mesmo, mas há uma sutileza muito importante aqui. O conteúdo é feito por mulheres para mulheres. Isso na prática significa que ninguém aqui vai apontar o dedo para quem teve o nude vazado.

Arquivo pessoal

Joana Varon, criadora do Coding Rights (Foto: Arquivo pessoal)

UOL – Como surgiu a ideia de criar a Coding Rights?

Joana Varon – Eu já trabalhava com tecnologia e direitos humanos e resolvi chamar mulheres envolvidas com tecnologia para compor um conselho colaborativo e debater em um ambiente que fosse liderado por elas. Assim que criamos a Coding Rights, as pessoas perguntavam por que tínhamos feito um conselho só com mulheres e eu respondia: ‘Por que não?’. Tem tantos [conselhos e organizações] só de homens e ninguém precisa responder essa pergunta. À época, eu falava que essa iniciativa ia gerar coisas diferentes. E foi o que aconteceu.

UOL – Que tipo de ações vocês desenvolvem?

JV – Nós desenvolvemos um trabalho de conscientização, por meio de produção de conteúdo, para traduzir temas de tecnologia e direitos humanos para um público mais amplo. Temos o Chupadados, que são histórias que mostram como violações de privacidade acontecem no nosso dia a dia, quando usamos apps de namoro, de menstruação etc.

Por que damos tanta informação sobre o que comemos, como dormimos, quando transamos, quando foi nossa última menstruação, qual o nosso humor? Uma série de dados que colocamos nesses apps para ele dar somente duas respostas: quando é a sua próxima menstruação e quando é o seu período fértil. Para onde vão todos os outros dados? Por que precisam perguntar tudo isso? Quem ganha com isso?

Uma das nossas primeiras publicações foi um zine (pequena revista) sobre segurança digital, chamado Safernudes, que trazia uma perspectiva feminista e dicas para enviar nudes mais seguros. Vimos que muitos dos guias que tratavam desse tema tendiam a culpabilizar a vítima por ter tirado esse tipo de foto.

Escrevemos o guia partindo do pressuposto de que se você quer explorar sua sexualidade, sua imagem, sua identidade, por meio de fotos e compartilhar com outras pessoas, é um direito seu, de autodeterminação, de escolher com quem você quer compartilhar, quando, por quanto tempo e como. E se esse tipo de material é divulgado sem consentimento, a culpa não é sua. Quem cometeu uma violação de direitos, quem desrespeitou o outro foi quem divulgou as imagens sem consentimento.

Também tentamos influenciar as políticas públicas e, nesse sentido, temos o projeto Radar Legislativo, um código que desenvolvemos para auxiliar a sociedade civil a mapear e acompanhar melhor as atividades do Congresso.

Há ainda o projeto Oráculo, no formato de cartas, como as de tarot, com valores transfeministas. É um exercício de ficção especulativa para imaginar valores que podem ser embutidos na tecnologia que usamos ou que queremos conceber para resolver problemas.

UOL – Quais são os tipos mais comuns de violência contra a mulher no ambiente virtual?

JV – São o discurso de ódio, a censura e a violação de privacidade. É preciso nomear essas práticas como violência e tratá-las como tal. Quando isso acontece nas redes sociais, os caminhos de denúncia nas plataformas são confusos. Você começa a fazer a queixa em português e depois acaba caindo em páginas só em inglês, o que é uma dificuldade para as pessoas. Se a denúncia for por vias jurídicas, é preciso conscientizar as delegacias e o Judiciário para que o atendimento evite machismos que ocorrem em crimes de violência de gênero.

É importante reconhecer que não há separação entre online e offline; essa divisão é fictícia. O que acontece no ambiente virtual afeta nossa vida.

No ambiente online, porém, há alguns desafios extras, como a facilidade de publicação e propagação e, além da pessoa que inicia o ataque, a violência, tem também as empresas que prestam serviço, que são intermediárias e propagadoras.

UOL – Que medidas de segurança digital vocês recomendam para mulheres?

JV – O primeiro passo é ter senhas fortes e não compartilhá-las com ninguém. É importante também criptografar seus dispositivos. Muitos telefones já vêm com isso; em outros, tem de habilitar. No computador, é preciso habilitar [a criptografia]. Com uma senha forte e o computador criptografado, é mais difícil que pessoas acessem seus arquivos. Também recomendamos minimizar a quantidade de dados disponíveis, limitar a quantidade de pessoas e empresas que podem acessar seus dados.

UOL – Como a tecnologia pode ser uma ferramenta de combate à violência de gênero?

JV – Uma forma é empoderar as mulheres para que essas ferramentas não sirvam só para defesa, mas para divulgação de sua voz de forma consciente, sem que elas fiquem vulneráveis. Nas escolas, é preciso que haja estímulo e também resgate da história das mulheres na ciência. As mulheres estiveram no desenvolvimento de várias descobertas da física e da matemática que possibilitaram a computação, a inteligência artificial. O que aconteceu foi que o machismo histórico apagou essas pessoas, mas elas estavam lá.

Fabiana Maranhão

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