Sapatão sim, mulher nem tanto: ser lésbica e sapatão fora da categoria mulher, por Ju Motter

19 de agosto, 2026 AzMina Por Ju Motter

Para algumas pessoas, ser lésbica ou sapatão não significa se identificar como mulher cis, mas reivindicar outra forma de identidade de gênero

Quando a pensadora feminista Monique Wittig afirmou que “nós, lésbicas, não somos mulheres”, ela abriu um leque de interpretações possíveis. Talvez a mais importante delas seja a de que a categoria mulher não reconhecia as lesbianidades e as sapatonices enquanto possibilidades, pressupondo que ser mulher implicaria ser heterossexual. A partir disso, temos dois caminhos: ou nos fazemos caber na categoria e a alargamos, ou reivindicamos uma outra via.

Hoje eu escrevo para reivindicar esse outro caminho, para mim e para outras pessoas que, apesar dos trânsitos e das transições, ainda têm um andar sapatão, uma vida sapatão, um amor sapatão e uma luta sapatão. Ainda-e-adiante-sapatão!

Acho que é importante destacar, primeiro, que o reconhecimento de outras formas de experimentar e reivindicar as lesbianidades e sapatonices não implica o apagamento das mulheridades lésbicas e sapatonas. Existem mulheres lésbicas e sapatonas, mas existem, também, pessoas lésbicas e sapatonas que não se enxergam na categoria mulher, que se reconhecem fora da cisgeneridade. Estou falando especialmente de pessoas transmasculinas e não-binárias, mas também daquelas que entendem os termos sapatão, caminhoneira e outros como identidades de gênero específicas.

Me refiro às lesbianidades e sapatonices no plural por entender que há uma multiplicidade dos modos de experimentá-las, vivenciá-las e reivindicá-las. Essa escolha remonta à necessidade de assumir a heterogeneidade do ser-lésbica e do ser-sapatão de acordo com outros fatores e implicações, que vão desde os recortes raciais até as performances de gênero, contextos socioculturais, regionalismos, etc. A maneira de experienciar as lesbianidades e sapatonices não é uniforme nem fixa. Há uma diversidade de experiências corporificadas, coletivas e construídas culturalmente.

Sapatonas, lésbicas, butches e tortilleras

Os termos “lésbicas” e “sapatonas” funcionam como sinônimos em diferentes contextos, além de serem compreendidos como a mesma coisa pela população brasileira. Inclusive, o “sapatão” constantemente é usado como uma ofensa, mesmo que o termo tenha sido reapropriado por pessoas e coletividades ao longo dos anos. Aprendemos, historicamente, a transformar ofensas em orgulho.

Ainda que possamos fazer essa correlação, existem tensões nesse embaralhamento entre questões de sexualidade, identidade de gênero, racialidade e classe, que são todas importantes de serem endereçadas. Nesse contexto, “lésbica” seria apontado como um termo mais adequado às expectativas de uma cisheteronormatividade, mais branco, de classes mais altas, enquanto “sapatão” falaria tanto de uma experiência de gênero fora da mulheridade padrão quanto de experiências de sapatonas negras, periféricas, com outras expressões de gênero, de classes menos favorecidas.

O movimento organizado reconhece essas tensões e aproximações e tem trabalhado, de modo geral, com essa construção de “lésbicas e sapatãos/sapatonas”. Essa correlação entre os dois termos aparece nos resultados da 1ª etapa do LesboCenso: Mapeamento de Vivências Lésbicas no Brasil (2022), onde 51,36% das mais de 20 mil pessoas que participaram do questionário se autoidentificaram como lésbicas e 26,40% se auto identificaram como sapatonas (ou “enquanto sapatão”). As demais formas de autoidentificações — mulher gay, homossexual feminina, sapa e entendida, entre outras — tiveram números bem menos expressivos, não passando dos 3,5%.

Importante ressaltar que a identidade sapatão é muito específica do contexto brasileiro; outros lugares vão ter suas próprias identidades, como a butch, nos Estados Unidos, e as tortilleras ou areperas em alguns países da América Latina. Para além dos idiomas, especificidades e regionalismos, são muitas as maneiras de compreender as lesbianidades e sapatonices e, assim, perceber como as próprias identidades são circunstanciais, sujeitas a outras formulações, nomeações e interpretações.

Ser sapatão sem ser mulher

Nesta coluna, quero esboçar algumas respostas para a pergunta: “Como sapatonices e lesbianidades têm sido experienciadas e elaboradas fora da categoria mulher?”. Não é uma pergunta fácil ou com respostas pacificadas, mas existem dados para nos ajudar. No Eixo Autoidentificação, o LesboCenso questionou de que forma as respondentes se identificavam e qual a sua identidade de gênero. Nas respostas, apresentam-se as sapatonas, as caminhoneiras, as bofes, zamis, entre outras.  Em relação à identidade de gênero, a categoria mais autodeclarada foi a cisgênero (85,23%), seguida de não-binária (6,31%), agênero (1,17%) e pessoa trans (1,07%).

Todas essas pessoas, independentemente da identidade de gênero que reivindicam, se enxergam nas lesbianidades e sapatonices. Podemos apostar que outras tantas também se enxergam, mas são dissuadidas de se identificarem dessa forma porque definimos identidades, especialmente as de gênero e de sexualidade, como fronteiras e não como composições.

Reconhecer essas maneiras de viver as lesbianidades e sapatonices fora das mulheridades cisgêneras nos provoca a discutir como essas vivências desafiam a própria lógica identitária: existem corpos e sujeitos que recusam a rigidez do sistema sexo-gênero colonial e reivindicam novas territorialidades.

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