Aborto: é possível diminuir riscos? Médica arrisca carreira para dizer que sim

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Desespero. Essa é a principal sensação de quem bate à porta de Débora Anhaia de Campos. Médica de família, ela ficou conhecida por ajudar mulheres que desejam interromper a gravidez. Primeiro, as pacientes querem tirar dúvidas básicas: “Estou mesmo grávida? De quanto tempo?”. Depois, muitas fazem logo a pergunta que as levou ao consultório: “Como posso abortar?”. Outras, com medo de uma denúncia, guardam o questionamento para si. Foi pensando nelas que Campos decidiu criar um vídeo-manual de redução de danos de abortos.

(The Intercept, 17/12/2018 – acesse a íntegra no site de origem)

A médica ainda estava na faculdade quando sua irmã interrompeu uma gravidez e foi deixada sangrando por profissionais de saúde. A experiência em casa e a falta de informações sobre o assunto no curso de medicina, onde, diz ela, o aborto ainda é tabu, a levaram a mergulhar no tema. Quanto mais vulnerável a mulher, diz Campos, maior a chance de recorrer a “métodos inseguros”. Cabides, arames, agulhas de crochê e até soluções de água com soda cáustica ou sabão são usados por mulheres em tentativas de aborto, enumera. Em maio deste ano, Ingriane Barbosa tentou interromper uma gravidez colocando um talo de mamona no útero – a mamona é uma planta com propriedades tóxicas, comumente encontrada em jardins. A mulher de 30 anos morreu e deixou órfãos seus três filhos, ainda crianças.

São esses riscos desnecessários à saúde de quem já está decidida a interromper a gravidez que Campos quer ajudar a evitar. Seja num posto de saúde de Londrina, Paraná, ou em seu canal de YouTube, ela faz questão de deixar claro: aborto ainda é crime. Mas, ciente de que isso não impede que meio milhão de brasileiras recorram à prática, a médica fala abertamente sobre o assunto – que, feita de forma insegura pelas mais pobres, negras, adolescentes e periféricas, pode levar à morte.

Na Argentina, as leis restritivas sobre aborto são semelhantes às nossas, mas prestar informações sobre o tema é permitido. Lá, existe até uma rede de voluntárias que ajuda as mulheres a completar um aborto com segurança. Já a legislação brasileira não é clara quanto à divulgação dessas informações – o que levou Campos a sofrer perseguição. Em 2017, Filipe Barros, vereador de Londrina do PRB, denunciou a médica ao Ministério Público do Paraná, ao Ministério Público Federal, ao Conselho Regional de Medicina e à corregedoria do município de Londrina por “apologia ao crime de aborto”. O MPPR, o CRM e a corregedoria arquivaram os processos, mas o do MPF continua em andamento. Ela também sofre ataques pelas redes sociais e conta ser menosprezada por colegas de profissão pelo jeito como atua.

Em uma conversa por telefone, Campos falou sobre o manual, o tratamento que as mulheres que abortam recebem nos serviços de saúde e o que cada mulher pode fazer para evitar complicações.

Vale lembrar: Uma ação que pretende descriminalizar o aborto no Brasil até a 12ª semana de gestação está sendo discutida no Supremo Tribunal Federal. Mas, atualmente, só é permitido por lei o aborto em caso de estupro, risco de vida da mulher ou anencefalia do feto. Ou seja, no Brasil, interromper uma gravidez ainda é crime – que pode ser punido com prisão de um a três anos. Quem facilita um aborto também pode ser condenado à mesma pena.

Acesse a publicação com dicas sobre redução de riscos para situação de abortamento

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