Parlamentares europeus pedem ações contra rede antiaborto

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Investigação apontou que centros de associação antiaborto em vários países divulgam informações falsas sobre a prática para pressionar mulheres a continuarem com gravidez indesejada, mesmo em casos de estupro.

(Deutsche Welle, 11/02/2020 – acesse no site de origem)

Diversos defensores de direitos da mulher, incluindo parlamentares europeus, pediram nesta terça-feira (11/02) uma ação contra a associação cristã antiaborto Heartbeat Internacional, após a divulgação de um relatório revelando que a rede dissemina informações falsas sobre o procedimento.

De acordo com seu site, a Heartbeat Internacional oferece conselhos sobre gravidez, porém sem recomendar ou indicar o aborto, segundo políticas alinhadas com os princípios bíblicos e a ética cristã. Uma investigação da ONG britânica Open Democracy revelou que a rede, com sede nos Estados Unidos, divulga, porém, “informações falsas e enganosas” a suas clientes, contradizendo seu compromisso de assistência, que garante “informações precisas”.

Repórteres alegando estarem grávidas procuraram centros da Heartbeat Internacional em 18 países. Lá, receberam informações imprecisas sobre questões de saúde em muitos destes locais e foram pressionadas a continuar com a gravidez indesejada, mesmo em supostos casos de estupro ou de violência doméstica.

Sua investigação revelou ainda que, em centros na América Latina, África e Europa, mulheres foram erroneamente informadas de que o aborto aumentaria os riscos de câncer, doenças mentais e problemas em gestações futuras.

Em quatro países não identificados, afirmou-se que elas precisariam da autorização de seus maridos ou namorados para realizar o procedimento. Uma repórter que alegou sofrer violência doméstica recebeu a seguinte resposta: “Agora você é vítima, mas o aborto a faria se tornar parte dessa violência, pois você será violenta.”

Questionada sobre essas revelações, a Heartbeat Internacional afirmou que se mantém firme em seu compromisso com a assistência. Em comunicado à DW, Cindi Boston-Bilotta, uma de suas vice-presidentes, afirmou que o grupo apoia todos os recursos de treinamento projetados para a comunidade de ajuda à gravidez: “Com amor e verdade, nosso objetivo é ajudar a cliente a entender o aborto mais completamente, para que possa tomar uma decisão informada.”

A organização alegou conhecer as normas culturais e leis de cada país em que atua, e que a definição do procedimento, que seria “encerrar a vida de bebê”, é igual em todo o mundo. “Toda mulher tem direito de receber todas as informações antes de decidir sobre o aborto. Negar-lhes a conscientização sobre seus riscos emocionais, psicológicos e físicos poderia ser negligente e perigoso”, disse Betty McDowell, também vice-presidente da Heartbeat Internacional.

A ONG não respondeu as perguntas da DW relativas às acusações do relatório, afirmando não ter tido tempo para tal.

Violação de direitos humanos

Os métodos da Heartbeat Internacional colocaram em alerta vários integrantes do Parlamento Europeu, que divulgaram uma carta expressando sua “profunda preocupação quanto à violação de direitos humanos fundamentais e à discriminação de gênero”.

Entre os signatários da carta estão Vera Tax (Holanda) e Sylvie Guillaume (França), da bancada Aliança Progressista ds Socialistas e Democratas, Gwendoline Delbos-Corfield (França), do Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia, e Hilde Vautmans (Bélgica), do Renovar a Europa.

Outros parlamentares e organizações também expressaram ressalvas sobre a organização. “As descobertas são profundamente preocupantes, e precisam ser tratadas nos níveis apropriados”, declarou o eurodeputado croata Fred Matic, do grupo social-democrata.

“As organizações envolvidas nas chamadas consultorias para crises na gravidez costumam alegar que se inspiram em crenças cristãs, mas não hesitam em mentir para grávidas”, frisou Neil Datta, do Fórum Parlamentar Europeu para Direitos Sexuais e Reprodutivos.

Para Ana Maria Bejar da ONG americana Planned Parenthood, que oferece aconselhamento e também aborto, esses grupos estão perpetuando mitos prejudiciais, além de intimidar as mulheres que não desejam seguir com uma gravidez. “Essas táticas perigosas e abusivas estão enfraquecendo e colocando em risco a saúde e dignidade de mulheres. Nenhuma mulher deve ser forçada a manter uma gravidez”.

Segundo a feminista mexicana Marta Lamas, a investigação comprova algo que ativistas já suspeitavam: a existência de “uma campanha de mentiras e engano praticada por grupos fundamentalistas de direita”.

A investigação ocorreu em centros da Heartbeat Internacional na África do Sul, Argentina, Canadá, Coreia do Sul, Costa Rica, Croácia, Equador, Espanha, Estados Unidos, Irlanda, Israel, Itália, México, Nigéria, Romênia, Sérvia, Ucrânia e Uganda.

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