A ameaça do HIV à flor da idade no estado do Rio

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(O Globo, 27/07/2014) Quando a enfermeira revelou o resultado positivo para HIV, os
pensamentos de X., de 22 anos na época, viraram um turbilhão de dúvidas. Ela o orientava sobre a necessidade de marcar uma consulta com um infectologista, fazer novos exames… Ele, com as mãos suadas, imaginava o futuro e presumia como teria adquirido o vírus. Do lado de fora, o namorado do rapaz, de 23 anos, era o próximo a ser atendido, num hospital de Botafogo. Ambos eram soropositivos. Saíram de lá em silêncio. Só em casa soltaram o choro e se abraçaram. Estavam diante de uma realidade presente na vida de um número crescente de jovens do Estado do Rio, que, segundo os últimos números do Ministério da Saúde, registrou 504 diagnósticos de Aids na população de 15 a 24 anos em 2012, uma taxa de 19,3 novos casos por cem mil habitantes na faixa etária.

Leia mais: ‘Essa geração de jovens não viveu o pânico da primeira onda da Aids’, diz Jarbas Barbosa (O Globo, 27/07/2014)

Foi a maior taxa de detecção para esse grupo desde 2001 (ou seja, 34% maior do que
nesse ano, quando era de 14,4 por cem mil habitantes). E acima da média nacional, de 11,8, que também está em alta (era de 8,8 em 2001). Isso apesar de a taxa geral de novos diagnósticos, para todas as faixas etárias, ter se mantido estável no Brasil nos últimos anos (foi de 20,2 por cem mil habitantes em 2012) e estar em queda no Rio desde 2009.

No caso do casal carioca, hoje, quase dois anos após o diagnóstico, os dois se adaptaram à rotina de idas ao médico e a laboratórios. Só contaram sobre a doença a amigos mais próximos. Nem a suas famílias revelaram a sorologia. E, embora nunca tenham sofrido complicações de saúde, dizem não ser fácil conviver com o HIV.

– Trabalho, estudo, faço atividades físicas… Mas, quando comecei a tomar os medicamentos antirretrovirais, tinha efeitos colaterais como delírios à noite e manchas avermelhadas no corpo – diz X.

Para especialistas e ativistas, uma série de fatores explica esse aumento da taxa entre jovens. O fato de a Aids ser encarada hoje como uma doença crônica e muitos não terem a memória dos anos mais críticos da epidemia, nas décadas de 1980 e 1990, pode ter feito com que eles relaxassem na prevenção, como o uso da camisinha. Mas também são apontados motivos como a falta de campanhas informativas voltadas para esse público, dizem integrantes da Rede Estadual de Adolescentes e Jovens Vivendo e Convivendo com HIV/Aids, que realiza seu primeiro encontro estadual esta semana, na Região Serrana.

O estudante de ciências contábeis Ivan Monsores, de 25 anos, faz parte do grupo. Ele descobriu ser soropositivo em 2011. Mantinha um relacionamento estável. E, num exame de rotina, seu companheiro recebeu o diagnóstico de HIV. Ivan também fez o teste, com o mesmo resultado. Ao contrário de muitos que seguem anônimos, contou à família e se engajou no ativismo pela causa da Aids. Não escapou, no entanto, do preconceito.

– Ao iniciar a medicação, tive uma reação e fiquei quatro meses sem voz. Fiquei 14 dias afastado do trabalho. Ligaram da empresa, então, para minha casa. Minha mãe contou sobre a doença e, imediatamente, fui demitido – diz ele, lembrando que em junho foi aprovada uma lei que tornou crime a discriminação de trabalhadores com HIV. – Hoje, levo uma vida normal e saudável, mas regrada, da hora em que acordo até dormir. Tomar remédios todo dia não é bom. Os efeitos deles tampouco.

Na rede da qual Ivan participa, há jovens de várias classes sociais e diferentes regiões do Rio. Em comum, porém, além de lidarem com o HIV, grande parte é homossexual. E são justamente os jovens gays do sexo masculino um dos grupos que mais preocupam na atualidade. De acordo com o Boletim Epidemiológico 2014 da Secretaria estadual de Saúde do Rio, entre os homens com HIV no estado, de 2000 a 2012 houve uma queda percentual dos casos entre os heterossexuais (de 33,3% para 27,5%), mas um aumento entre os homossexuais (de 24% para 28,5%).

O mesmo estudo, por outro lado, aponta uma redução da porcentagem de diagnósticos entre homens em comparação com as mulheres. De 1982 a 1999, 74% dos casos eram do sexo masculino, contra 63% em 2012. Mara Moreira tinha 19 anos em 1995, quando soube ter a doença. Evangélica, ela havia se casado virgem. Mas, três meses depois, seu marido adoeceu, já fragilizado pelo vírus. Nos quase 20 anos que se passaram desde então, ela ficou viúva, fez faculdade de teologia, casou-se de novo e coordena o grupo de mulheres da ONG Pela Vidda. Mara afirma acolher um perfil de mulheres diferente do de alguns anos atrás: atualmente, muitas são de classe média, com conhecimento do que é a epidemia.

– Mas a realidade de mulheres que são até expulsas de suas comunidades ao terem sua sorologia revelada continua – diz a ativista, que acredita ter ocorrido um retrocesso no
tema da Aids no país. – Não é uma epidemia controlada.

Presidente do Pela Vidda, Márcio Villard confirma o que Mara diz. Em muitas regiões, como a Zona Oeste, diz ele, há déficit de infectologistas. Na cidade do Rio, Márcio lembra que uma estratégia tem sido a transferência de atendimentos para as clínicas da família, com o treinamento de clínicos. Enquanto isso, o estado mantém a segunda maior taxa de mortalidade por Aids do país – 9,1 casos por cem mil habitantes em 2012, contra 5,5 no Brasil.

– O Rio ocupa uma das posições mais temerosas da epidemia e precisa de uma atenção especial, sobretudo no caso dos jovens – alerta ele.

Acesse o PDF: A ameaça do HIV à flor da idade no estado do Rio (O Globo, 27/07/2014)

 

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